Resultado do Pisa 2025 revela dificuldades dos estudantes brasileiros em situações matemáticas do cotidiano e acende alerta sobre formação de professores e aprendizagem desde os primeiros anos escolares
Um novo retrato da educação brasileira acende um alerta para um dos principais desafios enfrentados pelos estudantes do país: a aprendizagem da matemática. Dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025 mostram que 72% dos alunos brasileiros de 15 anos ficaram abaixo do nível 2 de proficiência em matemática, considerado o patamar básico esperado pela avaliação internacional.
Na prática, isso significa que aproximadamente sete em cada dez estudantes avaliados apresentam dificuldades para resolver problemas matemáticos relativamente simples, especialmente aqueles que exigem a aplicação dos conhecimentos em situações do cotidiano.
Entre os exemplos utilizados pela avaliação estão tarefas como realizar uma multiplicação para converter valores entre moedas ou comparar distâncias percorridas por um veículo em diferentes trajetos. São situações que, embora pareçam simples para quem domina os conceitos matemáticos fundamentais, podem representar um obstáculo significativo para uma parcela expressiva dos estudantes brasileiros.
O resultado foi divulgado nesta terça-feira (8) e faz parte da edição de 2025 do Pisa, avaliação internacional que analisa o desempenho de estudantes de diversos países em áreas consideradas fundamentais para a formação acadêmica e para a vida em sociedade.
Brasil fica distante da média dos países da OCDE
O desempenho brasileiro chama atenção quando comparado ao resultado médio dos países integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Enquanto no Brasil 72% dos estudantes avaliados ficaram abaixo do nível 2 em matemática, a média registrada entre os países da OCDE foi de 35%. A diferença revela o tamanho do desafio enfrentado pelo sistema educacional brasileiro.
A pontuação média alcançada pelos estudantes do país também ficou significativamente abaixo da média internacional de referência. O Brasil registrou 406 pontos, enquanto a média da OCDE chegou a 500 pontos, uma diferença de quase cem pontos.
O resultado coloca o país próximo de nações como Jordânia e Argentina e mostra que a dificuldade brasileira não está restrita a uma pequena parcela dos estudantes. Trata-se de um problema amplo, que envolve grande parte dos alunos que chegam ao final do ensino fundamental.
Quase metade está na faixa mais baixa
Um dos aspectos que mais chamam atenção nos dados é a concentração de estudantes brasileiros nas faixas inferiores da escala de desempenho.
Dentro do grupo que ficou abaixo do nível 2, o Pisa estabelece subdivisões para identificar diferentes graus de dificuldade. No Brasil, 44% dos estudantes estão abaixo do nível 1a, considerado o grupo de desempenho muito baixo.
Outros 28% aparecem no nível 1a.
Os números mostram que o problema vai além de simplesmente estar um pouco abaixo do nível considerado satisfatório. Uma parcela significativa dos estudantes está muito distante das habilidades básicas esperadas para sua idade.
Essa situação pode trazer consequências para toda a trajetória escolar. A matemática possui uma característica particular: muitos conteúdos dependem diretamente de conhecimentos aprendidos anteriormente. Quando conceitos fundamentais não são consolidados nos primeiros anos, os obstáculos tendem a aumentar conforme os conteúdos ficam mais complexos.
Operações básicas, frações, proporcionalidade e sentido numérico, por exemplo, servem de base para conhecimentos posteriores relacionados à álgebra, geometria e resolução de problemas.
Poucos brasileiros chegam ao nível mais avançado
Se na parte inferior da escala os números são preocupantes, no topo o cenário também revela uma grande distância em relação aos países de melhor desempenho.
Praticamente nenhum estudante brasileiro alcança os níveis 5 ou 6 do Pisa, considerados os mais elevados da avaliação. Na média dos países da OCDE, cerca de 8% dos estudantes chegam a esse patamar.
Os alunos classificados nos níveis mais altos demonstram capacidade para trabalhar com situações matemáticas complexas, construir modelos, interpretar informações e comparar diferentes estratégias para solucionar um mesmo problema.
Entre os sistemas educacionais que apresentam maiores proporções de estudantes nesses níveis estão China, Singapura, Taipé Chinês, Macau, Coreia do Sul, Japão e Hong Kong. Nesses locais, mais de 20% dos estudantes avaliados alcançam os níveis 5 ou 6.
A comparação mostra que o desafio brasileiro não está apenas em retirar os alunos das faixas de baixo desempenho, mas também em criar condições para que uma parcela maior consiga desenvolver habilidades matemáticas avançadas.
Por que os estudantes brasileiros enfrentam tantas dificuldades?
O desempenho brasileiro não pode ser explicado por um único fator. Questões relacionadas à formação dos professores, desigualdades educacionais, aprendizagem acumulada ao longo dos anos e condições de ensino fazem parte de um problema complexo.
Para Ernesto Martins, pesquisador do Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional), o baixo desempenho em matemática não é uma dificuldade exclusivamente brasileira. Outros países da América do Sul também apresentam resultados abaixo da média da OCDE.
Entre oito países sul-americanos com dados disponíveis na edição de 2025, nenhum se aproxima da média de 465 pontos da região considerada pela análise. O Uruguai aparece com 405 pontos, enquanto o Brasil registra 377 pontos na comparação regional apresentada pelo especialista, ficando à frente apenas de Argentina, Equador e Paraguai.
Para Martins, um dos pontos que precisam ser observados é a formação dos professores de matemática.
Segundo o pesquisador, é necessário ampliar o repertório matemático dos docentes, especialmente porque alguns cursos de formação podem receber estudantes que chegam à graduação com dificuldades acumuladas desde a educação básica.
Quando essas lacunas não são suficientemente trabalhadas durante a formação universitária, o futuro professor pode chegar à sala de aula sem o domínio necessário para desenvolver estratégias capazes de estimular o raciocínio matemático dos alunos.
Mais do que decorar fórmulas
A dificuldade apontada pelo Pisa também levanta uma discussão importante sobre a maneira como a matemática é ensinada nas escolas.
Aprender matemática não significa apenas memorizar fórmulas ou repetir procedimentos. O estudante precisa compreender por que determinado cálculo é realizado, identificar qual estratégia utilizar diante de um problema e conseguir aplicar o conhecimento em situações diferentes.
Quando o ensino fica excessivamente concentrado na repetição, o aluno pode aprender a resolver um exercício específico, mas encontrar dificuldades quando a mesma ideia aparece em um contexto diferente.
É justamente essa capacidade de utilizar conhecimentos matemáticos para interpretar e solucionar situações reais que avaliações como o Pisa procuram observar.
Problemas se acumulam ao longo da trajetória escolar
A matemática também apresenta uma característica que torna a recuperação da aprendizagem particularmente desafiadora: os conteúdos estão fortemente conectados.
Um estudante que chega aos anos finais do ensino fundamental sem dominar operações básicas, frações ou proporcionalidade terá mais dificuldade para acompanhar conteúdos como álgebra e geometria.
Com isso, o problema tende a se acumular.
O professor passa a precisar ensinar conteúdos mais avançados para uma turma que apresenta diferentes níveis de conhecimento. Alguns estudantes podem acompanhar a aula, enquanto outros ainda enfrentam dificuldades com conceitos que deveriam ter sido consolidados anos antes.
Esse cenário exige políticas de recuperação da aprendizagem e estratégias que permitam identificar as dificuldades antes que elas se transformem em grandes defasagens.
Pisa também avalia novas habilidades
A edição de 2025 trouxe ainda uma novidade importante: pela primeira vez, o Pisa avaliou a resolução de problemas computacionais.
A proposta considera a capacidade de utilizar lógica, raciocínio e conceitos relacionados à programação para encontrar soluções. A inclusão desse componente acompanha uma transformação no mundo contemporâneo, no qual conhecimentos matemáticos e tecnológicos estão cada vez mais conectados.
A habilidade de raciocinar, identificar padrões, organizar informações e encontrar soluções não é importante apenas para quem pretende seguir carreira na área de tecnologia. Ela está presente em diferentes profissões e situações da vida cotidiana.
Um alerta para o futuro da educação
Os resultados do Pisa 2025 não representam apenas uma fotografia do desempenho escolar de adolescentes. Eles também oferecem pistas sobre os desafios que o Brasil terá de enfrentar para melhorar a qualidade da educação nos próximos anos.
A matemática está presente em decisões simples do dia a dia, como administrar dinheiro, calcular descontos, interpretar gráficos, compreender estatísticas ou avaliar distâncias e proporções. Quando uma parcela tão grande dos estudantes não domina essas habilidades, o impacto pode ultrapassar os limites da sala de aula.
Por isso, o resultado exige uma reflexão que envolva governos, escolas, professores, famílias e toda a sociedade.
Mais do que buscar culpados, o desafio está em entender onde as dificuldades começam e como interromper esse ciclo. Investir na formação dos professores, identificar precocemente as defasagens, fortalecer a aprendizagem dos conhecimentos fundamentais e estimular o raciocínio matemático são caminhos importantes.
Os números do Pisa mostram que ainda existe uma distância considerável entre o desempenho dos estudantes brasileiros e o observado em muitos outros países. Ao mesmo tempo, os dados podem servir como instrumento para identificar os pontos que precisam de maior atenção.
Para milhões de crianças e adolescentes, aprender matemática não deveria significar apenas conseguir uma boa nota na escola. Significa adquirir ferramentas para compreender o mundo, tomar decisões e construir novas possibilidades para o futuro.
O desafio agora é transformar os números apresentados pelo Pisa em ações concretas dentro das escolas. Afinal, por trás de cada percentual existe um estudante que precisa de oportunidades para aprender, avançar e desenvolver todo o seu potencial.















