O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), utilizava uma residência do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, em Brasília, quando o banqueiro não estava na capital federal. A informação consta de mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro e foi divulgada inicialmente pelo UOL.
O imóvel está localizado no Lago Sul, uma das regiões mais valorizadas de Brasília, e, segundo as reportagens, era utilizado por Vorcaro para receber políticos e outras autoridades. As conversas analisadas pela PF mostram que Motta tinha autorização para frequentar o local e que a utilização da residência era combinada com o proprietário ou com o funcionário responsável pela administração da casa.
Os registros ganharam atenção porque indicam que o uso do imóvel ocorreu em diferentes ocasiões ao longo de 2025, período em que Motta já ocupava a presidência da Câmara. A documentação também revela uma relação próxima entre o parlamentar paraibano e o banqueiro, embora as mensagens, por si só, não esclareçam os assuntos tratados durante as visitas nem indiquem que tenha ocorrido alguma irregularidade relacionada ao uso da residência.
Como começou o uso da residência
Segundo o levantamento divulgado pelo UOL, o arranjo para que Motta utilizasse a casa aparece em conversas entre o deputado e Vorcaro em maio de 2025, aproximadamente três meses depois de o parlamentar assumir o comando da Câmara.
Na ocasião, Vorcaro encaminhou a Motta o contato do funcionário responsável pelo imóvel. O banqueiro também perguntou se o deputado preferia contar com alguém para servi-lo durante sua permanência na residência ou se preferia ficar sem funcionários no local. Motta agradeceu pelas informações.
Algumas semanas depois, o presidente da Câmara perguntou ao banqueiro se poderia passar pela casa durante o horário do almoço. A resposta de Vorcaro foi que ele teria um compromisso e, posteriormente, seguiria para o aeroporto. Depois disso, segundo as mensagens, o imóvel estaria disponível.
Motta então informou que combinaria diretamente sua chegada com o funcionário responsável pela residência.
A troca de mensagens indica que o acesso ao imóvel não ocorreu sem conhecimento do proprietário. Pelo contrário, os registros apresentados nas reportagens mostram que Vorcaro tinha ciência das visitas e autorizava o uso da casa.
Seis visitas foram registradas
As mensagens extraídas pela Polícia Federal indicam pelo menos seis ocasiões em que o funcionário responsável pela residência comunicou a Vorcaro que receberia Hugo Motta no imóvel.
Os registros citados nas reportagens ocorreram em 24 de junho, 28 de agosto, 5 de setembro, 18 de setembro, 25 de setembro e 17 de novembro de 2025.
Em uma das ocasiões, o funcionário informou que receberia Motta à noite. Em outra, a mensagem indicava que o deputado seria recebido para um almoço. Há também registros referentes a visitas durante a tarde.
O último registro mencionado ocorreu em 17 de novembro de 2025. Naquele dia, o funcionário informou a Vorcaro que receberia Hugo na casa durante a noite.
A data tem um significado particular dentro da investigação porque Vorcaro estava em São Paulo e acabou preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos naquele mesmo dia, segundo as reportagens.
As mensagens, entretanto, não informam o motivo das visitas, quais assuntos foram tratados durante a permanência de Motta na residência ou quem mais poderia estar presente em cada ocasião.
Relação entre Motta e Vorcaro
Os registros encontrados no celular de Vorcaro também apresentam outros episódios que indicam proximidade entre o banqueiro e o presidente da Câmara.
Antes mesmo de Motta assumir o comando da Câmara, os dois já mantinham contato. Em outubro de 2024, por exemplo, uma conversa mostra o então deputado pedindo autorização para receber o então presidente da Câmara, Arthur Lira, em um apartamento de Vorcaro em São Paulo.
Na ocasião, Motta perguntou se poderia chamar Lira para tratar de um assunto. Vorcaro autorizou a presença do parlamentar.
As mensagens também registram uma comunicação informal entre Motta e Vorcaro. Em outros diálogos, os dois aparecem tratando de encontros, compromissos e assuntos diversos.
O conteúdo passou a ser analisado pela Polícia Federal dentro do conjunto de informações obtidas durante a investigação relacionada ao Banco Master.
Empréstimo de R$ 22 milhões também é analisado
Além das mensagens relacionadas ao uso da residência, a Polícia Federal também analisa uma operação de crédito envolvendo o Banco Master e uma empresa ligada à cunhada de Hugo Motta.
Segundo reportagens, trata-se de um empréstimo de R$ 22 milhões que teria sido solicitado diretamente por Motta a Vorcaro em 2024. A operação aparece em meio às conversas e relações comerciais examinadas no material apreendido pela PF.
Reportagens também apontaram que o dinheiro estaria relacionado à aquisição de uma área de grande extensão em João Pessoa, na Paraíba.
A existência da operação financeira, contudo, não significa, por si só, que tenha ocorrido uma irregularidade. Eventuais responsabilidades dependem da análise dos documentos, das circunstâncias do negócio e das conclusões das autoridades responsáveis pela investigação.
Motta nega irregularidades relacionadas às relações com Vorcaro e afirma que suas interações com representantes do setor privado fazem parte de sua atuação política.
Deputado não quis comentar o uso da casa
Procurado pelo UOL para comentar as informações sobre a utilização da residência de Vorcaro em Brasília, Hugo Motta informou que não iria se manifestar sobre o caso.
A ausência de manifestação específica sobre os registros não permite concluir, por si só, qual era a finalidade de cada visita ou se havia alguma relação entre os encontros e decisões tomadas no Congresso.
As mensagens apenas demonstram que o parlamentar tinha autorização para utilizar o imóvel e que sua presença era comunicada ao proprietário por meio do funcionário responsável pela casa.
Investigação continua
O material encontrado no celular de Daniel Vorcaro faz parte de um conjunto maior de informações analisadas pela Polícia Federal no contexto das investigações envolvendo o Banco Master.
As mensagens permitem reconstruir parte da rotina de contatos entre o banqueiro e diferentes autoridades, empresários e figuras públicas. No caso de Hugo Motta, os registros mostram acesso ao imóvel, encontros e uma relação próxima, mas não apresentam, isoladamente, uma conclusão sobre eventual prática ilícita.
A apuração deverá considerar outros documentos, comunicações, operações financeiras e circunstâncias relacionadas aos fatos.
Para o público, a distinção é importante: mensagens podem comprovar que determinados contatos ou encontros ocorreram, mas a interpretação sobre eventual irregularidade depende do contexto e das conclusões das autoridades competentes.
O que está confirmado até agora
As informações divulgadas pelas reportagens apontam que Hugo Motta utilizou uma casa de Daniel Vorcaro no Lago Sul, em Brasília, durante períodos em que o banqueiro não estava na capital. As mensagens indicam pelo menos seis visitas em 2025 e mostram que o proprietário tinha conhecimento e autorizava o uso do imóvel.
Também está documentado que os dois mantinham contato frequente e que a relação entre eles já existia antes de Motta assumir a presidência da Câmara.
O que ainda depende de esclarecimento é o contexto de cada encontro, os assuntos eventualmente tratados na residência e se alguma das relações ou operações mencionadas nas mensagens teve implicações jurídicas.
Enquanto a Polícia Federal prossegue com a análise do material, novas informações poderão ajudar a esclarecer a extensão dos vínculos entre o banqueiro e integrantes da cúpula do Congresso Nacional.
Por enquanto, os registros revelam uma relação de proximidade e acesso, mas a eventual existência de irregularidades deve ser estabelecida a partir da investigação e das evidências reunidas pelas autoridades.













