Chris Isaak prepara uma estreia especial no Brasil. Aos 70 anos e com quatro décadas de carreira, o cantor, compositor e guitarrista norte-americano desembarca pela primeira vez no país para participar do festival Best of Blues and Rock, em São Paulo. O artista se apresenta no dia 21 de novembro, na área externa do Auditório Ibirapuera, dentro da programação que reúne grandes nomes do blues e do rock internacional e brasileiro.

Conhecido mundialmente por canções como “Wicked Game”, “Blue Hotel”, “Somebody’s Crying” e “Baby Did a Bad Bad Thing”, Isaak chega ao país mantendo uma relação intensa com a música, especialmente com o rock clássico. Em entrevista, o músico falou sobre sua trajetória, a parceria com o cineasta David Lynch, a importância de Elvis Presley e sua paixão por guitarras — inclusive aquelas que não têm o prestígio ou o preço dos instrumentos de colecionador.

A relação de Isaak com “Wicked Game”, seu maior sucesso internacional, continua sendo de admiração. Lançada originalmente no fim dos anos 1980, a música demorou meses para alcançar grande repercussão. O reconhecimento cresceu de maneira gradual, até que um videoclipe dirigido por David Lynch ajudou a transformar a faixa em um fenômeno.

Lynch, que morreu em 2025, era amigo e colaborador do músico. Segundo Isaak, a aproximação entre os dois aconteceu de maneira bastante espontânea. O cineasta entrou em contato interessado em encontrar outras músicas semelhantes a “Wicked Game” para utilizar em seus projetos.

A parceria rapidamente se transformou em uma conexão artística. Lynch visitava o estúdio onde Isaak gravava, apresentava suas ideias e trabalhava diretamente com o músico. A relação resultou em um dos videoclipes mais marcantes da carreira do cantor.

Para Isaak, o sucesso da música também foi percebido antes mesmo de chegar às grandes rádios. Durante apresentações em bares e clubes, ele percebeu que o comportamento do público mudava quando a banda começava a tocar “Wicked Game”. Em vez das conversas e da movimentação comuns nesses ambientes, as pessoas paravam para ouvir.

O músico conta que chegou a procurar sua gravadora para pedir recursos para produzir um videoclipe, mas ouviu que o momento da música já havia passado. A intervenção de David Lynch foi decisiva para que o projeto saísse do papel.

Mesmo décadas depois, Isaak afirma que não se cansou de cantar seu maior sucesso. Pelo contrário. Para ele, “Wicked Game” representa exatamente o tipo de música que gosta de fazer: uma mistura de romantismo, melancolia e rock and roll.

Uma carreira construída longe da lógica do “um sucesso só”

Apesar de ser fortemente associado a “Wicked Game”, Chris Isaak rejeita a ideia de ser considerado um artista de um único sucesso. Ao longo de aproximadamente 40 anos de carreira, ele acumulou músicas conhecidas em diferentes partes do mundo.

Além de “Wicked Game”, o repertório inclui faixas como “Blue Hotel”, “Somebody’s Crying” e “Baby Did a Bad Bad Thing”. O próprio cantor afirma que teve sucessos em diferentes mercados e que essa diversidade ajudou a mantê-lo ativo na indústria musical durante quatro décadas.

Sua relação com a música também passa por uma preferência cada vez mais rara em tempos de produção digital: o contato direto entre músicos.

Isaak defende a formação de bandas e acredita que tocar ao lado de outras pessoas produz uma experiência que não pode ser completamente substituída por gravações feitas individualmente em computadores. Para ele, existe algo especial na sintonia criada quando os músicos dividem o mesmo palco.

Atualmente, sua banda reúne músicos escolhidos principalmente em Nashville, cidade conhecida como um dos principais centros musicais dos Estados Unidos. O cantor brinca que seus músicos talvez não sejam grandes atletas, mas são excelentes instrumentistas.

Elvis Presley é “o rei”

Entre as principais referências de Chris Isaak está Elvis Presley. O cantor não economiza elogios ao falar sobre o artista que ajudou a transformar o rock and roll em um fenômeno mundial.

Isaak também cita Roy Orbison como uma influência importante, principalmente no aspecto da composição. Segundo ele, Orbison levou suas músicas para uma atmosfera mais orquestrada, sombria e emocional.

Mas quando o assunto é Elvis, o tom muda.

Para Isaak, Elvis ocupa um lugar único na história da música. O artista afirma que o cantor é “o rei” e defende que sua importância precisa ser compreendida pelas novas gerações.

“Antes do Elvis, não havia nada. Depois dele, passou a existir o rock and roll”, declarou.

A visão de Isaak também destaca a importância do guitarrista Scotty Moore, integrante fundamental da formação que acompanhou Elvis em seus primeiros anos. Para ele, Moore ajudou a estabelecer uma nova linguagem para a guitarra no rock.

Isaak recomenda que quem deseja conhecer melhor essa história comece pelas gravações realizadas por Elvis na Sun Records. Foi justamente pesquisando discos antigos que ele próprio descobriu o cantor e passou a buscar mais informações sobre sua trajetória.

A paixão por guitarras que ninguém queria

A coleção pessoal de Chris Isaak também revela muito sobre sua personalidade artística. O músico afirma ter aproximadamente 50 guitarras e admite que ainda gostaria de comprar mais algumas.

Mas, ao contrário de colecionadores interessados apenas em instrumentos raríssimos e caríssimos, Isaak gosta justamente de guitarras consideradas estranhas ou pouco valorizadas.

Entre suas favoritas está uma Welson italiana dos anos 1960, comprada por apenas US$ 50 na parte traseira de uma van. O instrumento chegou a ser utilizado em gravações.

Para o cantor, cada guitarra apresenta características próprias e pode produzir uma sonoridade diferente. Por isso, ele gosta de experimentar instrumentos variados.

A relação com esses objetos também está ligada à maneira como Isaak encara a música: primeiro vem o prazer de tocar. O valor histórico ou financeiro do instrumento é secundário.

Primeira visita ao Brasil

Apesar de décadas de carreira internacional, Chris Isaak ainda não havia se apresentado no Brasil. A estreia acontece no Best of Blues and Rock, em São Paulo, e o músico demonstra curiosidade diante da experiência.

Ele admite conhecer pouco da música brasileira e diz que suas referências sobre o país foram construídas, de maneira até curiosa, a partir de filmes e desenhos antigos.

Ao mesmo tempo, demonstra entusiasmo com a viagem. Isaak brincou que pretende chegar ao Brasil com poucas roupas na mala e deixar espaço para voltar para casa carregando discos brasileiros.

Também demonstrou interesse pela culinária nacional. Durante a entrevista, perguntou quais seriam os pratos tradicionais do país e recebeu duas sugestões: churrasco e feijoada. A promessa é experimentar os dois.

Festival reúne grandes nomes

O Best of Blues and Rock 2026 acontece entre os dias 20 e 22 de novembro, na plateia externa do Auditório Ibirapuera, no Parque Ibirapuera, em São Paulo.

Na sexta-feira, dia 20, a programação terá Eddie Vedder, Linka Moja e Samuel Rosa. No sábado, dia 21, quando Chris Isaak se apresenta, o público também poderá assistir a Roger Daltrey, Christone “Kingfish” Ingram e Artur Menezes.

No domingo, dia 22, Eddie Vedder, Linka Moja e Vitor Kley encerram a programação.

Os ingressos estão disponíveis em diferentes faixas de preço, entre R$ 406 e R$ 1.232, de acordo com o setor escolhido.

Para Chris Isaak, a viagem ao Brasil representa mais do que uma apresentação inédita. É também uma oportunidade de conhecer um país sobre o qual ainda possui muitas curiosidades e, principalmente, descobrir novos sons.

Aos 70 anos, cercado por guitarras, letras e gravações, o artista continua enxergando a música com a mesma curiosidade de quem ainda está começando. E é justamente essa disposição para ouvir, experimentar e tocar que mantém vivo o estilo que marcou sua trajetória.

Agora, depois de quatro décadas de carreira, chegou a vez de o público brasileiro conhecer de perto o artista por trás de “Wicked Game” — e descobrir que sua história vai muito além de uma única canção.