Falta menos de um mês para o primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, marcado para 8 de novembro, e a preparação dos candidatos entra em uma etapa decisiva. Entre os conteúdos que merecem atenção está a redação, uma das partes mais importantes da avaliação e que exige não apenas domínio da língua portuguesa, mas também capacidade de argumentar, organizar ideias e apresentar soluções para problemas sociais.
Nesse período de revisão, estudar redações que receberam nota mil em edições anteriores pode ajudar os estudantes a compreender melhor o que caracteriza um texto dissertativo-argumentativo de alto desempenho. Mais do que memorizar frases prontas, a proposta é observar como os candidatos selecionam referências culturais, desenvolvem pontos de vista e conectam os argumentos até chegar a uma conclusão consistente.
Uma análise de cinco redações que alcançaram a nota máxima entre 2021 e 2025 identificou características semelhantes na construção dos textos. O levantamento foi realizado pelo portal G1, com avaliações de duas especialistas: Monika Santos, professora de redação da Escola SEB Unimaster, responsável pela análise dos textos de 2021, 2022 e 2023, e Daphne Macêdo, revisora de avaliações do SAS Educação, que examinou as redações de 2024 e 2025.
Apesar das diferenças entre os temas, os textos apresentam três características recorrentes: referências culturais relacionadas ao assunto, argumentos organizados em uma sequência lógica e conclusões que retomam os problemas discutidos para propor medidas de enfrentamento.
Esses elementos estão alinhados às orientações do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo Enem. Para conquistar uma boa pontuação, o candidato precisa defender um ponto de vista com argumentos consistentes, respeitar a norma-padrão da língua portuguesa e apresentar uma proposta de intervenção que respeite os direitos humanos.
1. Repertório cultural precisa ter relação com o tema
Livros, filmes, músicas, acontecimentos históricos e conceitos filosóficos ou sociológicos aparecem nas cinco redações analisadas. Entretanto, o diferencial não está simplesmente em citar uma obra conhecida ou mencionar um pensador famoso. O que fortalece a argumentação é explicar como aquela referência ajuda a compreender o problema apresentado.
Na redação de 2021, Fernanda Quaresma utilizou o livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos, para discutir a invisibilidade relacionada à falta de registro civil no Brasil. Na obra, os filhos de Fabiano são identificados como o “mais velho” e o “mais novo”. A candidata relacionou essa ausência de nomes à desumanização dos personagens e aproximou a situação literária da dificuldade enfrentada por pessoas que não possuem documentação civil.
O exemplo demonstra como uma referência cultural pode contribuir para contextualizar o tema e, posteriormente, sustentar o raciocínio desenvolvido no texto.
Na redação de 2022, Carina Moura recorreu ao Romantismo brasileiro para discutir a idealização dos povos indígenas e a distância entre determinadas representações culturais e a realidade das comunidades tradicionais. A candidata também utilizou conceitos associados a estudiosos como Boaventura de Sousa Santos e Sueli Carneiro para aprofundar a discussão sobre dominação histórica e desvalorização de saberes.
Já em 2023, Matheus Almeida Barros citou o livro Brasil, país do futuro, de Stefan Zweig, para introduzir a contradição entre a imagem de desenvolvimento nacional e a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres.
Nas redações mais recentes, a estratégia continuou presente. Em 2024, Rafael Santana Assunção utilizou o álbum Duas Cidades, da banda BaianaSystem, para introduzir o debate sobre o apagamento da influência africana no Brasil. Em 2025, Caio Silva Braga recorreu ao livro O Karaíba, do escritor indígena Daniel Munduruku, para discutir o respeito aos mais velhos, além de utilizar referências históricas e cinematográficas para desenvolver a reflexão sobre o envelhecimento.
A principal lição é clara: não basta memorizar nomes de autores, filmes ou acontecimentos históricos. É necessário explicar o significado da referência e demonstrar como ela contribui para defender o ponto de vista.
2. Argumentos precisam seguir uma sequência lógica
Uma redação pode apresentar referências relevantes e informações interessantes, mas perder força quando as ideias aparecem sem conexão. Por isso, a organização dos argumentos é outro aspecto importante identificado pelas professoras.
Nos textos analisados, a introdução apresenta o problema e estabelece uma direção para a discussão. Em seguida, os parágrafos de desenvolvimento aprofundam aspectos específicos do tema, explicando suas causas, consequências ou manifestações na sociedade.
Na redação de 2023, por exemplo, o candidato apresenta desde o início dois pontos que serão desenvolvidos posteriormente: a ineficácia das leis e a insuficiência de investimentos em educação. Essa organização ajuda o leitor a compreender a linha de raciocínio e permite que cada parágrafo cumpra uma função.
Em outros textos, o posicionamento inicial aparece de maneira mais geral, enquanto os argumentos ficam mais claros ao longo do desenvolvimento. Isso demonstra que não existe uma única fórmula obrigatória para construir uma boa introdução, desde que o texto mantenha clareza e coerência.
Uma estratégia útil é estruturar cada parágrafo de desenvolvimento em etapas: apresentar a ideia central, inserir uma referência pertinente, explicar sua relação com o tema e demonstrar as consequências do problema discutido.
Dessa forma, o repertório deixa de ser uma informação isolada e passa a funcionar como parte da argumentação.
3. Conectivos ajudam a construir a coesão
A ligação entre frases e parágrafos também merece atenção. Expressões como “Nesse sentido”, “Sob essa perspectiva”, “Além disso”, “Por outro lado” e “Dessa forma” podem ajudar a indicar a relação entre diferentes ideias.
Entretanto, os conectivos precisam ser utilizados de acordo com o sentido que o candidato deseja estabelecer. “Além disso”, por exemplo, pode acrescentar um argumento, enquanto “Por outro lado” sinaliza uma oposição ou mudança de perspectiva.
Usar expressões sofisticadas sem considerar o significado delas não torna o texto automaticamente melhor. O objetivo é facilitar a compreensão e mostrar como uma informação se relaciona com a seguinte.
Outro recurso importante é retomar palavras e ideias sem repetir excessivamente os mesmos termos. Expressões como “essa situação”, “tal medida” e “esses grupos” podem recuperar informações já apresentadas, desde que o leitor consiga identificar claramente a que elas se referem.
Na redação de 2025, a discussão sobre o envelhecimento avança de uma perspectiva cultural de respeito aos mais velhos para questões históricas e contemporâneas, incluindo o protagonismo da população idosa diante das novas tecnologias.
Em 2024, os problemas apresentados na introdução são desenvolvidos em parágrafos próprios e retomados na conclusão por meio de propostas direcionadas ao poder público. Essa correspondência contribui para manter a unidade do texto.
4. A conclusão deve apresentar uma proposta de intervenção completa
A conclusão é uma etapa decisiva porque exige que o candidato apresente uma forma de enfrentar o problema discutido. Não basta afirmar que determinada situação precisa mudar: é necessário indicar medidas concretas e relacionadas aos argumentos desenvolvidos.
Na avaliação do Enem, a proposta de intervenção deve contemplar cinco elementos fundamentais:
- Agente: quem será responsável pela iniciativa.
- Ação: o que será feito.
- Meio ou modo: como a medida será colocada em prática.
- Finalidade: qual resultado se pretende alcançar.
- Detalhamento: informação adicional que torne a proposta mais específica.
A intervenção também precisa respeitar os direitos humanos e estar relacionada ao tema da redação.
Nas redações analisadas, as propostas variam conforme os problemas discutidos. Em 2021, Fernanda Quaresma sugeriu ampliar o acesso ao registro civil por meio de iniciativas públicas e ações de conscientização. Em 2022, Carina Moura apresentou medidas relacionadas à fiscalização dos direitos dos povos tradicionais e à preservação de seus territórios e costumes.
Em 2023, Matheus Almeida Barros propôs ações voltadas à fiscalização das leis relacionadas ao trabalho feminino e ao investimento em educação. Já na redação de 2024, as medidas envolveram iniciativas educacionais para valorizar a herança africana e propostas relacionadas às políticas públicas de ensino.
Na redação de 2025, o candidato apresentou iniciativas voltadas à autonomia e à inclusão digital da população idosa.
Os exemplos mostram que uma boa intervenção não precisa seguir um modelo único. O importante é que a solução responda aos problemas apresentados e explique quem deverá agir, quais medidas serão adotadas e como elas poderão contribuir para a mudança.
5. Evite o chamado “repertório de bolso”
Memorizar citações para utilizar na redação pode parecer uma maneira de ganhar tempo, mas essa estratégia exige cuidado. O chamado repertório de bolso ocorre quando o estudante leva uma referência pronta e tenta encaixá-la no tema, mesmo sem estabelecer uma relação consistente com a discussão.
Citar um filósofo, um livro ou um acontecimento histórico não garante uma boa nota. Se a referência não ajudar a explicar o problema ou sustentar o ponto de vista, poderá ficar isolada no parágrafo.
Por isso, nas semanas que antecedem o exame, vale mais aprender a utilizar referências de maneira flexível do que decorar frases para reproduzi-las independentemente do tema proposto.
Uma boa preparação inclui treinar a aplicação de repertórios em assuntos diferentes, escrever parágrafos argumentativos e revisar se cada referência realmente contribui para o raciocínio.
Como aproveitar as últimas semanas antes do Enem 2026
Com a aproximação da prova, a recomendação é priorizar treinos objetivos e corrigir os erros que aparecem com maior frequência. Escrever redações completas ajuda a desenvolver o controle do tempo, a organização das ideias e a capacidade de concluir o texto dentro do limite estabelecido.
Também é importante revisar a estrutura dissertativo-argumentativa, praticar a construção de teses e verificar se os parágrafos de desenvolvimento apresentam argumentos claros. Na conclusão, o estudante deve conferir se a proposta de intervenção está completa e respeita os direitos humanos.
As cinco redações nota mil analisadas mostram que não existe uma fórmula mágica para alcançar a pontuação máxima. O desempenho depende da capacidade de relacionar conhecimentos ao tema, construir argumentos coerentes e apresentar uma solução bem estruturada.
Na reta final, o objetivo deve ser transformar essas habilidades em prática. Mais do que decorar citações ou conectivos, o candidato precisa aprender a defender uma ideia, explicar suas razões e demonstrar como o problema discutido pode ser enfrentado.
O primeiro dia do Enem 2026 está marcado para 8 de novembro. Até lá, estudar exemplos de alto desempenho, praticar a escrita e revisar os critérios de avaliação pode ajudar os participantes a chegar à prova com mais segurança e preparo.
















