Um jovem norueguês de 19 anos foi condenado nesta sexta-feira (16) a 20 anos de prisão no Reino Unido por participar de uma conspiração para cometer um assassinato supostamente organizado por integrantes de uma rede criminosa ligada ao Irã. O caso chamou a atenção das autoridades britânicas pelas circunstâncias do recrutamento, pela movimentação de armas e dinheiro e pela suspeita de que o plano estivesse relacionado a uma estrutura criminosa envolvida em ações violentas na Europa.

O condenado, identificado como Johannes Kongsnes Natland, é ex-jogador de futebol na Noruega e teria sido recrutado pela internet para atuar como executor do crime. Segundo as informações apresentadas durante o julgamento, ele receberia 21,5 mil libras esterlinas pelo assassinato, mas acabou preso antes de colocar o plano em prática.

As investigações apontaram que o jovem manteve contato com pessoas ligadas à Foxtrot Network, organização criminosa sueca que foi alvo de sanções do Reino Unido e dos Estados Unidos por seu suposto envolvimento em ações violentas contra alvos judeus e israelenses na Europa, alegadamente a serviço do Irã.

A identidade da pessoa que seria assassinada não foi divulgada pelas autoridades. O caso, no entanto, revelou detalhes de uma operação que, segundo a acusação, envolveu instruções precisas, armas de fogo, dinheiro em espécie e um veículo roubado preparado para dificultar a identificação dos responsáveis.

Recrutamento pela internet e orientações para o crime

As provas reunidas pela investigação incluíram mensagens recuperadas do telefone celular de Natland. Nas conversas, um interlocutor identificado pelo codinome “Agente 47” teria coordenado diferentes etapas da operação.

De acordo com as informações apresentadas no tribunal, esse contato orientou o jovem sobre como viajar ao Reino Unido, qual voo utilizar e onde encontrar as armas e o dinheiro que seriam empregados na execução do plano.

A apuração indica que Natland teria aceitado participar da missão mesmo diante dos riscos envolvidos. A promessa de pagamento, segundo a acusação, fazia parte do acordo estabelecido com os responsáveis pela conspiração.

O caso também chamou a atenção por mostrar como plataformas digitais e contatos virtuais podem ser utilizados para aproximar jovens de organizações criminosas. Entretanto, as circunstâncias específicas do recrutamento e o papel de cada pessoa envolvida precisam ser compreendidos a partir das evidências apresentadas pelas autoridades, sem generalizações sobre usuários da internet.

Entrada no Reino Unido e mudança de planos

Em 17 de março de 2025, Natland desembarcou no Aeroporto de Manchester utilizando um passaporte temporário. Ao ser questionado pelos agentes de fronteira, afirmou que pretendia visitar amigos que conhecera por meio de jogos on-line e aproveitar a viagem para conhecer pontos turísticos.

A entrada no país, porém, foi negada. O jovem recebeu orientação para retornar ao aeroporto e embarcar em um voo de volta à Noruega.

Segundo a reconstrução apresentada no julgamento, ele não seguiu a determinação como esperado. Em vez disso, deslocou-se para Huddersfield, onde teria recolhido 2 mil libras em dinheiro e uma bolsa contendo uma pistola semiautomática, um revólver e munições.

A acusação também sustentou que Natland recebeu instruções para utilizar um carro roubado com placas clonadas. O veículo seria empregado durante a execução do assassinato, dificultando a identificação do automóvel e dos envolvidos.

A sequência de deslocamentos, a retirada das armas e as comunicações mantidas pelo jovem foram elementos importantes para que os investigadores reconstruíssem os preparativos do crime.

Mensagens levantaram suspeitas sobre a intenção do jovem

Durante o período em que esteve no Reino Unido, Natland continuou mantendo contato com pessoas próximas na Noruega. Entre elas estava sua namorada, a quem teria informado, antes da viagem, que estava partindo para uma missão.

Depois de recolher as armas, o jovem enviou a ela uma fotografia na qual aparecia segurando uma delas. Em outra conversa, ao ser questionado por um amigo se havia testado o armamento, respondeu: “Claro que não. Elas serão testadas no alvo”.

A mensagem foi considerada relevante no conjunto de provas apresentado pela promotoria, pois indicaria que as armas estavam sendo preparadas para serem utilizadas contra uma pessoa.

Durante o julgamento, Natland negou que pretendesse efetivamente cometer o assassinato. Segundo sua versão, ele planejava atirar no próprio pé para escapar da missão sem precisar executar o crime.

A defesa apresentada pelo jovem, entretanto, não convenceu o júri diante do material reunido pela acusação. Mensagens eletrônicas, fotografias e imagens de câmeras de segurança foram utilizadas para demonstrar os preparativos e os deslocamentos realizados.

Ao final do julgamento, ele foi considerado culpado por conspiração para homicídio. A condenação a 20 anos de prisão representa uma resposta judicial à participação reconhecida no planejamento do crime, embora o assassinato não tenha chegado a acontecer.

Prisão ocorreu antes da execução do plano

Na madrugada de 19 de março de 2025, por volta das 5h15, agentes armados de unidades de contraterrorismo invadiram o quarto de hotel onde Natland estava hospedado e efetuaram sua prisão.

A operação ocorreu depois que os investigadores reuniram elementos sobre a movimentação do suspeito e os preparativos relacionados ao possível assassinato.

Para reconstruir os passos do jovem, as autoridades analisaram imagens registradas no aeroporto, no hotel e nos locais em que ele teria recolhido as armas. O cruzamento dessas informações ajudou a estabelecer a sequência de acontecimentos desde sua chegada ao país.

A intervenção policial impediu que o plano avançasse para a etapa final. A juíza Bobbie Cheema-Grubb afirmou que Natland aceitou atuar como executor e continuou com os preparativos apesar de ter tido oportunidades para desistir.

Segundo a magistrada, o assassinato provavelmente teria sido concretizado caso a polícia não tivesse interferido. A avaliação reforçou a gravidade atribuída à conduta do condenado e ao estágio de preparação alcançado pela conspiração.

Outros suspeitos continuam sob investigação

O caso não terminou com a condenação do jovem norueguês. As autoridades britânicas continuam apurando a possível participação de outras pessoas na estrutura que teria viabilizado a operação.

Em setembro de 2025, um homem de 27 anos foi detido sob suspeita de conspiração para homicídio. Ele acabou liberado, mas permaneceu sob investigação.

Já em maio de 2026, outros dois homens foram presos em Bradford por suspeita de envolvimento com o veículo roubado que teria sido utilizado no plano. Ambos também foram liberados sob fiança, conforme as informações divulgadas sobre o caso.

A polícia segue investigando quem teria ajudado Natland a obter as armas e o automóvel, além de buscar esclarecer o grau de participação de cada suspeito.

A situação dos demais investigados é diferente da do jovem condenado. Prisões, interrogatórios e suspeitas não representam, por si só, comprovação de culpa. A responsabilidade criminal de cada pessoa depende das evidências e dos procedimentos judiciais correspondentes.

Caso amplia preocupação com redes criminosas internacionais

A condenação evidencia a preocupação das autoridades europeias com a atuação de organizações criminosas que podem utilizar intermediários para organizar ataques e recrutar executores em diferentes países.

No caso investigado no Reino Unido, a suspeita de conexão com uma rede criminosa associada ao Irã acrescentou uma dimensão internacional à apuração. Ainda assim, é importante distinguir a condenação individual de Natland das alegações mais amplas sobre os possíveis mandantes e as ligações da organização investigada.

A decisão judicial encerra uma etapa importante do processo contra o jovem, mas não esclarece, por si só, todos os detalhes sobre quem ordenou o assassinato, quem seria a vítima ou qual seria a motivação específica do ataque.

Com a identidade do alvo mantida em sigilo e outros possíveis envolvidos ainda sob investigação, o caso permanece relevante para as autoridades responsáveis por combater a criminalidade organizada e prevenir atos de violência.

A prisão antes da execução demonstrou a importância do trabalho investigativo e da integração de provas digitais, imagens de segurança e informações sobre deslocamentos. Para os investigadores, a identificação antecipada dos preparativos foi decisiva para interromper uma conspiração que, segundo a juíza responsável pelo caso, poderia ter terminado em assassinato.