A Polícia Federal (PF) ouviu nesta sexta-feira (16) o banqueiro Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, no âmbito das investigações sobre os negócios entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB). O depoimento ocorreu na Superintendência da corporação, em Brasília, e foi retomado no período da tarde, após uma pausa para o almoço.

A oitiva faz parte de uma nova etapa de diligências destinadas a esclarecer as tratativas comerciais entre as duas instituições financeiras. Os investigadores apuram possíveis irregularidades envolvendo a aquisição de carteiras de crédito do Banco Master pelo BRB, além das negociações relacionadas à tentativa de compra do próprio Master.

Augusto Lima é considerado pelos investigadores uma figura relevante para compreender as articulações entre os bancos. Segundo as informações da apuração, ele teria atuado nas tratativas para convencer o BRB a adquirir carteiras de crédito vinculadas ao Banco Master.

A investigação utiliza diferentes elementos para reconstruir as negociações, entre eles mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro. De acordo com investigadores, as conversas indicariam discussões sobre a venda de carteiras de crédito e, posteriormente, sobre a possibilidade de aquisição do Banco Master pelo banco público do Distrito Federal.

O conteúdo dessas mensagens e a participação de cada envolvido estão entre os pontos que a Polícia Federal busca esclarecer. A existência de uma investigação, porém, não representa, por si só, comprovação de crime ou responsabilidade individual.

Depoimento havia sido adiado

A oitiva de Augusto Lima já estava prevista no planejamento da investigação, mas precisou ser remarcada. Inicialmente, o depoimento seria realizado em agosto de 2026. Na ocasião, a data foi adiada a pedido da defesa do banqueiro.

A nova etapa de depoimentos havia sido anunciada anteriormente pela Polícia Federal, que pretendia aprofundar a apuração sobre os negócios realizados entre o Banco Master e o BRB.

A retomada das oitivas permite aos investigadores confrontar informações obtidas durante as diligências, esclarecer pontos das negociações e verificar a participação de pessoas que tiveram contato com as operações financeiras sob análise.

O depoimento de Augusto Lima ganha relevância em razão de sua trajetória nas instituições envolvidas. Ele foi sócio de Daniel Vorcaro, atuou como CEO do Banco Master e também esteve à frente do Banco Pleno, instituição da qual foi controlador.

Essas funções colocam o banqueiro entre as pessoas que podem fornecer informações sobre a estrutura das operações, as decisões empresariais e as conversas mantidas durante o período investigado.

A Polícia Federal busca esclarecer como as negociações foram conduzidas, quais eram as condições propostas e se as operações seguiram os procedimentos exigidos para transações dessa natureza.

Investigação envolve carteiras de crédito

Um dos principais eixos da apuração é a compra de carteiras de crédito do Banco Master pelo BRB. Esse tipo de operação envolve a transferência de direitos de recebimento de empréstimos e outros contratos financeiros, que passam a integrar os ativos da instituição compradora, conforme as condições estabelecidas.

Em operações regulares, a negociação exige análise dos contratos, avaliação dos riscos e verificação da qualidade dos ativos. Os valores envolvidos, as garantias e a capacidade de pagamento dos devedores são fatores importantes para determinar a viabilidade comercial da transação.

No caso investigado pela Polícia Federal, os agentes procuram verificar se as negociações entre as duas instituições apresentaram irregularidades e se as informações utilizadas para fundamentar as operações eram compatíveis com a realidade dos ativos negociados.

As mensagens encontradas no celular de Vorcaro estão entre os elementos examinados. Segundo os investigadores, as conversas registrariam tratativas para viabilizar a aquisição de carteiras do Master pelo BRB e discussões posteriores sobre a compra do banco.

A análise desse material pode ajudar a estabelecer a sequência dos acontecimentos, identificar os participantes das conversas e comparar as informações trocadas com documentos e registros das operações.

Ainda assim, a interpretação das mensagens depende da análise conjunta das provas e dos esclarecimentos prestados pelos envolvidos. Cabe às autoridades verificar se os elementos reunidos sustentam as suspeitas investigadas.

Tentativa de compra do Banco Master pelo BRB

Além das carteiras de crédito, a investigação também envolve a proposta de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília. A negociação chamou a atenção das autoridades e passou a integrar o conjunto de fatos examinados pela Polícia Federal.

A apuração procura esclarecer as circunstâncias em que a proposta foi estruturada, quais pessoas participaram das tratativas e se houve irregularidades durante o processo.

O BRB, por ser uma instituição financeira controlada pelo poder público do Distrito Federal, ocupa uma posição importante nesse contexto. Operações envolvendo seus recursos e ativos precisam observar os mecanismos de governança, os controles internos e as regras aplicáveis ao sistema financeiro.

Por esse motivo, o esclarecimento das negociações é relevante não apenas para os bancos envolvidos, mas também para a avaliação dos procedimentos adotados em operações de grande impacto financeiro.

A investigação busca reunir informações suficientes para determinar se as decisões foram tomadas de acordo com as normas aplicáveis e se houve eventual prejuízo ou descumprimento de obrigações legais.

A realização de depoimentos de antigos dirigentes, sócios e representantes das instituições faz parte desse trabalho de reconstrução dos fatos.

Prisão na Operação Compliance Zero

Augusto Lima foi preso pela Polícia Federal em novembro de 2025, durante a Operação Compliance Zero, investigação relacionada a suspeitas envolvendo operações financeiras.

Posteriormente, ele foi colocado em liberdade e passou a cumprir medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica, conforme informações divulgadas à época.

Em junho de 2026, o banqueiro voltou a ser alvo de uma nova fase da operação. Na ocasião, sua defesa afirmou que ele estava à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e sustentou que os fatos investigados naquela etapa eram lícitos.

A manifestação da defesa integra o histórico público do caso e deve ser considerada no acompanhamento da investigação. As alegações apresentadas pelos investigadores e os argumentos dos envolvidos precisam ser avaliados pelas autoridades competentes, de acordo com as provas reunidas.

A situação processual de cada investigado também deve ser distinguida da apuração dos fatos. Medidas cautelares e prisões ocorridas durante uma investigação não equivalem automaticamente a uma condenação.

Novos depoimentos podem esclarecer as negociações

A Polícia Federal já ouviu outros dirigentes e ex-sócios das instituições no decorrer da investigação. Em janeiro de 2026, foram realizados depoimentos relacionados às negociações entre o Banco Master e o BRB, em uma tentativa de reunir diferentes versões sobre as operações.

A nova oitiva de Augusto Lima integra esse esforço para esclarecer os acontecimentos. Por ter ocupado posições de liderança no Banco Master e mantido sociedade com Vorcaro, ele pode fornecer informações relevantes sobre as tratativas examinadas pelos investigadores.

O avanço da apuração dependerá da análise dos depoimentos, das mensagens, dos documentos financeiros e dos demais elementos obtidos pelas autoridades. A comparação dessas informações poderá ajudar a esclarecer como as operações foram planejadas e executadas.

Até que haja conclusões oficiais fundamentadas nas provas, é necessário tratar as suspeitas como questões ainda sob investigação, sem atribuir responsabilidade criminal definitiva aos envolvidos.

O caso Banco Master e BRB continua sob acompanhamento das autoridades e permanece relevante para a discussão sobre transparência, governança e controle das operações financeiras no Brasil.

A expectativa é que as diligências permitam esclarecer os detalhes das negociações e determinar se houve irregularidades. O depoimento de Augusto Lima representa mais uma etapa desse processo, cujo resultado dependerá da avaliação técnica das evidências e das conclusões das autoridades responsáveis.