A SpaceX, empresa aeroespacial do bilionário Elon Musk, registrou um forte crescimento financeiro no terceiro trimestre de 2026, mais do que dobrando sua receita em comparação com o mesmo período do ano anterior. O resultado reforça a expansão dos negócios do empresário nos setores de tecnologia, inteligência artificial e exploração espacial, ao mesmo tempo que aumenta a atenção do mercado sobre uma possível fusão com a Tesla, montadora de veículos elétricos também controlada por Musk.
De acordo com os dados divulgados na terça-feira (20), a SpaceX alcançou uma receita de US$ 14,58 bilhões, equivalente a aproximadamente R$ 72,8 bilhões, nos três meses encerrados em 30 de setembro. O valor representa um crescimento de 161% em relação ao terceiro trimestre de 2025.
O desempenho também marcou uma expressiva recuperação na lucratividade da companhia. A empresa registrou lucro de US$ 4,4 bilhões, cerca de R$ 22 bilhões, revertendo o prejuízo de US$ 1,1 bilhão, aproximadamente R$ 5,5 bilhões, contabilizado no mesmo intervalo do ano anterior.
Os números superaram amplamente as estimativas de analistas e foram impulsionados, principalmente, pela expansão das atividades relacionadas à inteligência artificial e pela consolidação dos negócios de conectividade via satélite. O avanço mostra como a SpaceX vem diversificando suas fontes de receita para além dos tradicionais lançamentos de foguetes.
Inteligência artificial impulsiona crescimento
Um dos principais destaques do balanço foi o desempenho da área de inteligência artificial. Segundo os dados apresentados, a receita associada a esse segmento cresceu 830%, chegando a US$ 7,6 bilhões, aproximadamente R$ 38,1 bilhões.
Esse faturamento está relacionado, sobretudo, à oferta de capacidade computacional em centros de processamento de dados, conhecidos como data centers, utilizados por empresas que precisam de grande infraestrutura para desenvolver e executar aplicações de inteligência artificial.
Entre as companhias citadas como clientes estão Anthropic, Google e Reflection AI. Nesse modelo de negócio, a SpaceX obtém receitas ao disponibilizar recursos computacionais, e não necessariamente com a comercialização direta de seus próprios modelos de inteligência artificial.
Apesar do crescimento acelerado, a atividade ainda exige investimentos elevados. A empresa reconheceu que serão necessários novos aportes para que o segmento alcance uma rentabilidade consistente ao longo do tempo.
O cenário demonstra que o aumento do faturamento, embora importante, não elimina os desafios financeiros de uma área que depende de equipamentos avançados, infraestrutura de grande escala e capacidade contínua de processamento.
Na avaliação de Daniel Newman, presidente-executivo do grupo de pesquisa em tecnologia Futurum Group, o avanço das receitas com inteligência artificial fortalece a capacidade operacional da SpaceX e cria condições para ampliar os investimentos em foguetes e satélites.
O desempenho também pode contribuir para financiar projetos estratégicos de longo prazo, especialmente aqueles que exigem recursos bilionários antes de começarem a gerar retorno comercial.
Possível fusão com a Tesla movimenta investidores
Além dos resultados financeiros, outro assunto que despertou o interesse dos investidores foi a possibilidade de uma fusão entre a SpaceX e a Tesla.
Durante uma conferência com investidores, Elon Musk afirmou considerar a combinação das duas empresas uma ideia interessante. Entretanto, ressaltou que a decisão cabe aos comitês responsáveis por avaliar a proposta em cada companhia.
Por possuir interesses diretos nas duas empresas, o bilionário afirmou que não pode participar das discussões conduzidas pelos comitês especiais encarregados de analisar a questão.
Musk declarou enxergar vantagens na união dos negócios, especialmente diante dos avanços tecnológicos e do potencial de integração entre inteligência artificial, infraestrutura computacional, energia, mobilidade e exploração espacial.
A declaração, porém, não significa que a fusão esteja concluída ou que exista uma decisão definitiva sobre os termos de uma eventual operação.
Uma combinação desse porte exigiria avaliações financeiras, jurídicas e estratégicas, além da análise dos possíveis impactos para acionistas, investidores e demais partes envolvidas.
Para o mercado, a principal questão é entender como as atividades das duas companhias poderiam se complementar e se uma estrutura empresarial integrada seria capaz de ampliar a competitividade dos negócios ligados a Musk.
A diversificação da SpaceX, que reúne serviços de lançamento espacial, conectividade por satélite e infraestrutura tecnológica, tornou a hipótese de aproximação com a Tesla um tema relevante para os investidores.
Starlink amplia a base de assinantes
Outro pilar importante da SpaceX é a Starlink, serviço de internet via satélite que vem expandindo sua presença em diferentes regiões do mundo.
A plataforma chegou a 13,6 milhões de assinantes no terceiro trimestre de 2026. O crescimento está associado à ampliação da constelação de satélites e à oferta de serviços destinados a consumidores, empresas, aeronaves, embarcações e órgãos governamentais.
A tecnologia permite levar conexão à internet a locais onde redes tradicionais de telecomunicações enfrentam dificuldades de implantação. Essa característica torna o serviço especialmente relevante para áreas rurais, comunidades afastadas e regiões com infraestrutura limitada.
Entretanto, a expansão também traz desafios relacionados à receita média por cliente.
Os dados apresentados indicam que o faturamento médio mensal por assinante caiu de US$ 99, cerca de R$ 500, em 2023, para US$ 69, aproximadamente R$ 345, no terceiro trimestre de 2026.
A redução está relacionada, entre outros fatores, à oferta de planos mais acessíveis. A estratégia pode ampliar o número de usuários e facilitar a entrada em mercados com menor poder aquisitivo, mas também exige que a empresa encontre formas de manter a rentabilidade.
A própria SpaceX avalia que a expansão para países além dos mercados mais ricos poderá pressionar a receita média por assinante nos próximos anos.
Por isso, investidores acompanham se o aumento da base de clientes será suficiente para compensar os preços menores e os custos necessários para ampliar a cobertura e a capacidade da rede.
A companhia também investe em novas soluções de comunicação móvel, incluindo tecnologias destinadas a conectar dispositivos diretamente aos satélites.
Investimentos bilionários e desafios da Starship
Mesmo com o avanço das receitas, a SpaceX mantém uma estratégia de investimentos intensivos. No trimestre, a companhia destinou US$ 16,4 bilhões, aproximadamente R$ 82,4 bilhões, a investimentos. Segundo as informações divulgadas, a previsão é manter os aportes em patamar semelhante no futuro próximo.
Parte importante desses recursos está relacionada ao desenvolvimento da Starship, sistema de foguetes de última geração projetado para transportar cargas maiores e ampliar a capacidade de operações espaciais.
O veículo ainda não entrou em operação comercial regular. Seu desenvolvimento é considerado estratégico para os planos de expansão da Starlink e para futuras aplicações que dependem do transporte de grandes volumes de equipamentos ao espaço.
A expectativa é que a Starship permita colocar em órbita satélites mais avançados, com maior capacidade de transmissão de dados, além de viabilizar projetos de infraestrutura computacional espacial.
No entanto, transformar o sistema em um veículo confiável e plenamente reutilizável continua sendo um desafio técnico e financeiro.
Os testes envolvem custos elevados e podem apresentar falhas ou interrupções, fatores que tornam incerto o cronograma de implantação comercial.
A atividade de lançamentos do Falcon, por sua vez, continua relevante para as operações da companhia. Os foguetes são utilizados tanto em missões comerciais e governamentais quanto no transporte de satélites da própria Starlink.
A priorização de lançamentos para a rede interna permite à SpaceX acelerar sua expansão, mas também reduz a parcela da capacidade destinada a determinados clientes externos e mantém os custos do desenvolvimento espacial como uma preocupação importante.
Crescimento exige equilíbrio entre expansão e rentabilidade
O balanço do terceiro trimestre mostra que a SpaceX está ampliando sua atuação em diferentes mercados e utilizando o crescimento da infraestrutura tecnológica para fortalecer suas atividades espaciais.
A expansão da inteligência artificial, a conquista de novos assinantes da Starlink e o desenvolvimento de foguetes reutilizáveis formam uma estratégia que busca integrar negócios com diferentes fontes de receita.
Ao mesmo tempo, os números evidenciam que o crescimento exige investimentos contínuos e decisões capazes de equilibrar inovação, custos e retorno financeiro.
A possível fusão com a Tesla acrescenta uma nova dimensão a esse cenário, embora ainda dependa de avaliações internas e não represente um acordo definitivo.
Para os investidores, o desafio será acompanhar se a SpaceX conseguirá transformar o aumento expressivo do faturamento em resultados sustentáveis, enquanto financia projetos tecnológicos de alto custo e amplia sua presença global.
Mais do que o crescimento de uma empresa de foguetes, os resultados refletem a tentativa de Elon Musk de conectar diferentes setores da tecnologia em uma estratégia empresarial de grande escala. O sucesso dessa trajetória dependerá não apenas da capacidade de inovar, mas também de manter a rentabilidade e administrar os riscos de investimentos que podem definir o futuro da exploração espacial e das comunicações digitais.















