Com a proximidade do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, muitos estudantes intensificam a rotina de preparação na tentativa de revisar o máximo possível antes das provas, marcadas para os dias 8 e 15 de novembro. Nesse período, a preocupação com o resultado pode aumentar a pressão e levar candidatos a passar horas seguidas diante dos livros, reduzir o tempo de descanso e abrir mão de momentos de lazer.
Embora a dedicação seja importante para quem deseja conquistar uma vaga no ensino superior, estudar cada vez mais nem sempre significa aprender melhor. Especialistas alertam que o excesso de estudos, principalmente quando acompanhado de privação de sono e ansiedade, pode produzir o efeito contrário ao esperado e comprometer o desempenho na hora da prova.
Na reta final, o desafio não é apenas revisar conteúdos, mas também preservar as condições físicas e emocionais necessárias para recuperar informações, interpretar questões e tomar decisões com clareza.
Segundo Gabrieli Ribeiro, coordenadora psicossocial do Elite Rede de Ensino, ouvida pela CNN Brasil, a tentativa de compensar em poucas semanas tudo aquilo que não foi estudado ao longo do ano pode prejudicar justamente as capacidades que o estudante precisa utilizar durante o exame.
A recomendação é adotar uma rotina realista, com prioridades bem definidas, pausas regulares e atenção à qualidade do sono. Em vez de tentar aprender todo o conteúdo de uma vez, o candidato deve concentrar esforços nos assuntos mais relevantes e fortalecer os conhecimentos que já desenvolveu.
Excesso de estudos pode prejudicar a memória e a concentração
Quando a data do Enem se aproxima, é comum que estudantes sintam que ainda falta muito conteúdo para revisar. Essa percepção pode levar à ideia de que dormir menos e estudar até a madrugada é a única maneira de melhorar a preparação.
Entretanto, o descanso faz parte do processo de aprendizagem. Durante o sono, o cérebro participa da consolidação das informações adquiridas ao longo do dia, contribuindo para a formação e a recuperação das memórias.
Quando o estudante reduz constantemente as horas de sono para aumentar o tempo diante dos livros, pode enfrentar dificuldades de concentração, falhas de memória, irritabilidade e maior dificuldade para manter a atenção nas atividades.
A coordenadora Gabrieli Ribeiro destaca que a rotina marcada por cobranças excessivas também pode favorecer a ansiedade e a sensação permanente de despreparo. Nesse cenário, mesmo depois de várias horas de estudo, o candidato pode continuar acreditando que não sabe o suficiente.
Esse comportamento cria um ciclo desgastante: quanto maior a insegurança, mais o estudante tenta estudar; quanto mais ele sacrifica o descanso, maior pode ser o cansaço e a dificuldade de aprender.
Por isso, a reta final exige equilíbrio. Aumentar a intensidade da preparação não significa eliminar pausas, ignorar o sono ou transformar todos os momentos do dia em uma obrigação relacionada ao exame.
Como organizar os estudos nas semanas que antecedem a prova
Para quem ainda tem muitos conteúdos pela frente, a principal orientação é evitar a tentativa de recuperar todo o cronograma de uma só vez. O período anterior ao Enem deve ser utilizado de maneira estratégica, considerando o tempo disponível e as necessidades individuais.
Uma das primeiras medidas é identificar os assuntos que merecem maior atenção. Revisar temas já estudados, resolver questões e analisar os erros cometidos pode ser mais produtivo do que começar vários conteúdos novos sem conseguir aprofundá-los.
Entre as estratégias que podem ajudar estão:
- Priorizar os assuntos mais relevantes: organizar a rotina de acordo com os conteúdos que precisam de reforço e com as dificuldades identificadas durante a preparação.
- Fazer revisões direcionadas: retomar conceitos, fórmulas, datas e informações importantes sem tentar reler todos os materiais do ano.
- Resolver questões anteriores: utilizar provas passadas para conhecer o estilo das perguntas e praticar a interpretação dos enunciados.
- Analisar os próprios erros: compreender por que uma resposta estava incorreta ajuda a identificar lacunas no conhecimento.
- Realizar simulados: treinar com tempo definido permite desenvolver estratégias para administrar a duração da prova.
- Respeitar os intervalos: fazer pausas entre os períodos de estudo ajuda a reduzir a fadiga e manter a atenção.
A proposta não é abandonar os conteúdos que ainda precisam ser aprendidos, mas estabelecer prioridades. Com pouco tempo disponível, é importante reconhecer que nem tudo poderá receber o mesmo nível de aprofundamento.
O estudante também deve evitar comparar sua rotina com a de colegas que parecem estudar mais. Cada pessoa tem necessidades, dificuldades e ritmos de aprendizagem diferentes.
Lazer e descanso também fazem parte da preparação
Em meio à pressão do Enem, atividades de lazer podem parecer perda de tempo. Alguns candidatos deixam de encontrar amigos, praticar exercícios ou realizar atividades de que gostam por acreditar que qualquer intervalo prejudicará o resultado.
No entanto, uma rotina que elimina completamente os momentos de descanso pode aumentar o desgaste emocional e dificultar a manutenção da disciplina ao longo das semanas.
Conversar com amigos, caminhar, praticar uma atividade física, ouvir música, assistir a um programa de que gosta ou simplesmente descansar são maneiras de criar pausas na rotina de preparação.
O importante é que esses momentos sejam compatíveis com o planejamento do estudante e não sejam acompanhados por um sentimento constante de culpa.
Uma preparação eficiente não precisa ocupar todos os minutos do dia. O objetivo é construir uma rotina que permita estudar com qualidade e chegar ao exame com energia suficiente para enfrentar as questões.
Também é recomendável manter horários regulares para dormir e acordar, evitar virar noites estudando e reservar um período adequado para alimentação e recuperação física.
Nos dias mais próximos da prova, a tentativa de aprender grandes volumes de conteúdo durante a madrugada pode aumentar o cansaço sem garantir uma melhora proporcional no desempenho.
Como controlar a ansiedade e evitar a autossabotagem
A ansiedade antes de uma prova importante é uma experiência comum. O problema aparece quando a preocupação passa a dominar a rotina e interfere na capacidade de estudar, descansar ou acreditar na própria preparação.
Pensamentos como “não sei o suficiente”, “vou fracassar” ou “não vou conseguir uma vaga” podem surgir com frequência, especialmente entre estudantes que enfrentam cobranças familiares ou têm grandes expectativas em relação ao resultado.
Esses pensamentos, porém, não são previsões garantidas do futuro. Muitas vezes, refletem o medo e a insegurança provocados pela proximidade do exame.
Uma estratégia útil é concentrar a atenção naquilo que pode ser controlado no presente: cumprir uma meta possível de revisão, resolver algumas questões, corrigir erros e manter o descanso.
Exercícios simples de respiração e pequenos intervalos também podem ajudar o estudante a desacelerar quando perceber que está muito tenso. Caso a ansiedade seja intensa, persistente ou prejudique significativamente o sono e as atividades diárias, procurar apoio psicológico pode ser importante.
Outra medida é evitar transformar cada simulado em uma sentença sobre o próprio futuro. Os resultados dos exercícios servem para identificar pontos fortes e dificuldades, oferecendo informações para ajustar a preparação.
O desempenho em uma atividade de treino não determina, sozinho, o resultado que o estudante terá no Enem.
A participação da família pode fazer diferença
O ambiente familiar também exerce influência sobre a maneira como o estudante enfrenta as semanas anteriores à prova.
A família pode contribuir ao reconhecer o esforço realizado, demonstrar interesse pelo bem-estar do jovem e respeitar os momentos de descanso. Cobranças constantes, comparações com outros candidatos e comentários que associam o resultado do exame ao valor pessoal do estudante podem aumentar a pressão.
Segundo Gabrieli Ribeiro, o apoio familiar é especialmente importante quando transmite confiança sem desconsiderar os medos e as inseguranças do candidato.
Isso significa compreender que o Enem é uma etapa relevante, mas não define sozinho a identidade, a capacidade ou todo o futuro de uma pessoa.
Os responsáveis podem ajudar oferecendo um ambiente mais tranquilo para os estudos, colaborando com a organização da rotina e evitando criar expectativas irreais. Também é importante ouvir o estudante, em vez de presumir que toda dificuldade seja resultado de falta de dedicação.
O que fazer na reta final, segundo especialistas
Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovação da Arco Educação, também destaca a importância de adaptar a preparação ao que cada estudante conseguiu realizar durante o ano.
Para quem cumpriu o cronograma de estudos, a recomendação é investir em pausas, relaxamento e revisões curtas e direcionadas. Não há necessidade de transformar os últimos dias em uma maratona de conteúdos quando o conhecimento já foi trabalhado anteriormente.
Para os candidatos que ainda precisam reforçar determinados assuntos, simulados e resolução de provas anteriores podem ajudar a identificar dificuldades e treinar a administração do tempo.
O especialista alerta que o acúmulo de cansaço e nervosismo pode contribuir para o aumento dos erros. Por isso, o treinamento deve ser acompanhado de descanso e organização.
Na prática, o estudante precisa observar seu próprio desempenho e ajustar a rotina sem exageros. Se a concentração estiver diminuindo, insistir por várias horas seguidas pode não ser a melhor escolha.
Enem exige conhecimento, estratégia e equilíbrio
Com as provas previstas para os dias 8 e 15 de novembro, a reta final do Enem 2026 pede planejamento e atenção ao bem-estar. A dedicação continua sendo essencial, mas precisa estar acompanhada de estratégias que favoreçam a aprendizagem.
Dormir bem, revisar os conteúdos prioritários, resolver questões, analisar os erros e preservar momentos de lazer são atitudes que podem contribuir para uma preparação mais sustentável.
O estudante não precisa chegar à prova sabendo absolutamente tudo. É importante ter condições de utilizar o conhecimento adquirido, interpretar os enunciados com atenção e administrar o tempo disponível.
Mais do que contar horas diante dos livros, o desafio é aproveitar bem o tempo de estudo sem comprometer a saúde física e emocional. Afinal, preparar-se para o Enem também significa reconhecer os próprios limites, respeitar o descanso e compreender que uma prova importante não deve ser tratada como a única medida do valor ou das possibilidades de uma pessoa.
















