A educação pública da Paraíba ganha destaque nacional e internacional com uma iniciativa que une criatividade, música e tecnologia dentro da sala de aula. Estudantes da Escola Cidadã Integral Antônio Francisco Gomes, localizada no município de Santa Cecília, no Agreste paraibano, tiveram um projeto selecionado para a 32ª edição da Ciência Jovem — Feira Internacional de Trabalhos Científicos.

A seleção foi divulgada em 26 de outubro de 2026 pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed). O projeto, intitulado “LinguIA: Aprendizagem Musical com Inteligência Artificial”, será apresentado entre os dias 1º e 3 de dezembro, no Armazém da Criatividade, em Caruaru, Pernambuco.

A iniciativa chama atenção por transformar conteúdos escolares em experiências musicais produzidas pelos próprios alunos. A proposta mostra como a tecnologia pode ser utilizada para estimular a aprendizagem, sem retirar dos estudantes o papel central na construção do conhecimento.

Mais do que participar de uma feira científica, as jovens envolvidas terão a oportunidade de compartilhar uma experiência construída na escola pública paraibana, demonstrando que ideias inovadoras também podem surgir em municípios do interior e em ambientes educacionais fora dos grandes centros.

Estudantes transformam conteúdos escolares em músicas

O projeto foi desenvolvido pelas estudantes Jamily Milena da Silva, da 2ª série do ensino médio, e Ana Júlia Tomé da Silva, da 1ª série, sob orientação do professor de Língua Portuguesa Adriel Silva dos Santos.

A proposta combina conteúdos da disciplina com a produção de letras musicais autorais. Para isso, os estudantes participaram de oficinas sobre inteligência artificial, música e Língua Portuguesa, antes de iniciar as atividades práticas.

Organizados em grupos, os participantes criaram suas próprias composições e utilizaram a plataforma Suno, ferramenta de geração musical baseada em inteligência artificial, para transformar as letras em canções educativas.

A experiência permite trabalhar diferentes competências ao mesmo tempo. Ao escrever uma letra, os estudantes precisam organizar ideias, escolher palavras, estruturar frases e transmitir uma mensagem com clareza. Quando relacionam a composição aos conteúdos estudados, também exercitam a interpretação e a compreensão da língua.

A música passa, assim, a funcionar como um recurso complementar ao ensino tradicional. Em vez de apenas memorizar conceitos, os alunos participam da criação de materiais que podem ajudar na revisão dos conteúdos e na compreensão de temas trabalhados em sala de aula.

Segundo relato divulgado pelo Consed, a estudante Jamily Milena destacou a experiência de transformar o aprendizado em letras e, posteriormente, ouvir as músicas produzidas. Ela também ressaltou que, embora a inteligência artificial tenha auxiliado no processo, as ideias e a criatividade partiram dos próprios estudantes.

A declaração resume um dos principais aspectos da iniciativa: a ferramenta tecnológica não substitui o pensamento dos jovens, mas oferece novas possibilidades para que eles expressem o que aprenderam.

Inteligência artificial como ferramenta de aprendizagem

O avanço de ferramentas de inteligência artificial tem provocado debates sobre os impactos da tecnologia na educação. Ao mesmo tempo em que oferece novas possibilidades de criação, a tecnologia exige orientação, responsabilidade e acompanhamento dos professores.

Na experiência desenvolvida em Santa Cecília, a ferramenta é utilizada como apoio à produção musical. Os estudantes elaboram as letras e recorrem à plataforma para transformá-las em canções, integrando conhecimentos linguísticos e recursos digitais.

A proposta aproxima o conteúdo escolar de linguagens presentes no cotidiano dos jovens. A música, por exemplo, pode contribuir para despertar o interesse de estudantes que encontram dificuldades em métodos de ensino exclusivamente expositivos.

Isso não significa que a tecnologia, sozinha, garanta melhores resultados. O aproveitamento depende do planejamento pedagógico, da qualidade das atividades e da participação dos estudantes. Também é importante que os alunos compreendam como as ferramentas funcionam, reconheçam possíveis erros e mantenham a autoria e o pensamento crítico no centro do processo.

Nesse sentido, o papel do professor continua fundamental. Cabe ao educador orientar as etapas, relacionar as produções aos objetivos curriculares e ajudar os estudantes a avaliar o conteúdo criado com auxílio tecnológico.

A experiência paraibana mostra uma possibilidade de uso pedagógico da inteligência artificial: em vez de tratar a ferramenta apenas como um recurso para obter respostas prontas, utilizá-la como instrumento de experimentação, expressão e construção coletiva do conhecimento.

Pesquisa acompanha participação e aprendizagem dos alunos

O LinguIA não se limita à produção das músicas. De acordo com as informações divulgadas pelo Consed, a iniciativa também envolve uma pesquisa aplicada e uma intervenção pedagógica com estudantes das primeiras e segundas séries do ensino médio.

Durante o desenvolvimento do trabalho, são realizados registros das atividades, observações e aplicação de questionários. Esses instrumentos permitem acompanhar o envolvimento dos participantes, a participação nas tarefas e aspectos relacionados à aprendizagem.

Esse acompanhamento é importante porque ajuda a observar como os estudantes respondem à metodologia e quais elementos da experiência podem contribuir para o ensino.

A pesquisa também permite refletir sobre o papel da música na assimilação de conteúdos linguísticos e sobre a utilização responsável de recursos digitais no ambiente escolar.

Como em qualquer iniciativa educacional, é necessário distinguir o potencial da proposta de resultados que ainda precisam ser demonstrados por meio de avaliação. A seleção para uma feira científica representa reconhecimento do trabalho e oportunidade de divulgação, mas não significa, por si só, que a metodologia já tenha comprovado eficácia em todas as situações.

O valor do projeto está também na possibilidade de investigar, experimentar, identificar dificuldades e aperfeiçoar as práticas de ensino a partir da experiência dos próprios estudantes.

Álbum educativo pretende ampliar o alcance do projeto

Uma das etapas previstas pelos responsáveis é reunir as músicas produzidas em um álbum educativo, com publicação no YouTube. A intenção é compartilhar os materiais para além da sala de aula e permitir que outras pessoas conheçam o trabalho desenvolvido pelos estudantes.

Se concretizada conforme planejado, a iniciativa poderá ampliar a circulação das produções e oferecer recursos complementares para atividades de revisão e estudo.

O formato musical também pode facilitar o acesso aos conteúdos em diferentes momentos, desde que as canções estejam alinhadas aos objetivos pedagógicos e sejam acompanhadas de orientação sobre os temas abordados.

A publicação dos materiais poderá valorizar o protagonismo estudantil, dando visibilidade à autoria das jovens e à colaboração entre alunos e professor.

Para quem participa, o projeto representa uma experiência que vai além das notas escolares. Criar, revisar, trabalhar em grupo e preparar uma apresentação científica são atividades que podem contribuir para o desenvolvimento da comunicação, da autonomia e da capacidade de resolver problemas.

Feira internacional abre portas para novas experiências

A 32ª edição da Ciência Jovem será realizada de 1º a 3 de dezembro, em Caruaru, e deverá reunir projetos de estudantes de diferentes regiões brasileiras e de outros países, incluindo Argentina, Chile, Colômbia, Bolívia, México, Porto Rico, Turquia e Espanha.

A presença do LinguIA nesse ambiente permitirá que a experiência desenvolvida em Santa Cecília seja apresentada a outros estudantes, educadores e participantes da comunidade científica.

Para Ana Júlia Tomé da Silva, a participação representa uma oportunidade de compartilhar conhecimentos, conhecer outros projetos e representar a escola em um evento de grande alcance. A estudante relatou ao Consed a emoção de perceber que uma ideia construída em sala de aula pode chegar a espaços maiores.

Esse tipo de experiência pode ampliar os horizontes dos jovens, aproximando-os da pesquisa científica e mostrando que a investigação não está restrita às universidades ou aos laboratórios especializados.

Quando estudantes são incentivados a formular perguntas, testar ideias e apresentar resultados, a escola se transforma também em um espaço de descoberta. A participação em feiras científicas pode fortalecer a confiança, estimular a curiosidade e despertar o interesse por futuras trajetórias acadêmicas e profissionais.

Educação pública e inovação caminham juntas

O projeto desenvolvido em Santa Cecília destaca o potencial de iniciativas que valorizam a participação ativa dos alunos e relacionam o currículo escolar a experiências concretas.

A utilização da inteligência artificial na produção musical não elimina os desafios da educação pública, como a necessidade de infraestrutura adequada, formação continuada dos professores e acesso equilibrado aos recursos tecnológicos. Pelo contrário, reforça a importância de garantir que oportunidades de inovação alcancem estudantes de diferentes realidades sociais e geográficas.

Para que experiências como essa possam se desenvolver, é essencial que a tecnologia seja acompanhada de planejamento pedagógico, acesso a equipamentos, conectividade e orientação sobre segurança, autoria e uso responsável das ferramentas digitais.

A conquista do LinguIA oferece à Paraíba uma oportunidade de mostrar o trabalho realizado por estudantes e educadores que buscam novas formas de ensinar e aprender. Também reforça a importância de reconhecer a criatividade que nasce nas escolas públicas e de criar condições para que essas ideias continuem avançando.

Ao transformar conteúdos de Língua Portuguesa em músicas, Jamily Milena, Ana Júlia e o professor Adriel Silva dos Santos mostram que aprender pode envolver pesquisa, colaboração e experimentação. Em dezembro, o projeto levará essa experiência para uma feira internacional, ampliando a visibilidade da escola e da educação paraibana.

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