O funk, um dos gêneros musicais mais populares do Brasil, ganhou um papel inesperado na disputa política de 2026. Durante a campanha eleitoral, candidatos e lideranças ligados à direita passaram a utilizar músicas inspiradas no ritmo em manifestações públicas, vídeos nas redes sociais e eventos com apoiadores. A intenção era ampliar o alcance das mensagens políticas, conquistar a atenção dos mais jovens e transformar jingles eleitorais em conteúdos capazes de viralizar na internet.
A estratégia colocou o funk no centro de uma discussão que ultrapassa a música. De um lado, políticos conservadores utilizaram batidas e refrões populares para animar seus atos e divulgar mensagens de campanha. De outro, críticos apontaram uma possível contradição entre essa apropriação eleitoral e discursos anteriores de representantes da direita que associaram determinadas manifestações do funk à violência, à criminalidade e à chamada narcocultura.
Entre os nomes que recorreram ao gênero durante a campanha estão Eduarda Campopiano, Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Flávio Bolsonaro, todos ligados ao campo político da direita.
O fenômeno ganhou dimensão nas plataformas digitais. Segundo dados do Spotify citados em reportagem publicada após o segundo turno, seis das 50 músicas mais ouvidas no Brasil no domingo, dia 25, eram canções de apoio ao candidato do PL à Presidência ou continham críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O desempenho das faixas mostrou como a música pode ultrapassar o espaço dos comícios e se tornar parte da disputa pela atenção nas redes sociais. Entretanto, a popularidade dos chamados funks de direita não significou, necessariamente, uma aproximação consolidada entre os candidatos conservadores e os principais representantes do gênero.
Funk como ferramenta para conquistar os jovens
Em uma campanha marcada pela força das redes sociais, encontrar formas de dialogar com o público jovem tornou-se uma das prioridades de diferentes grupos políticos. Nesse contexto, o funk ofereceu uma linguagem familiar a milhões de brasileiros, com batidas reconhecíveis, refrões curtos e grande potencial de circulação em vídeos.
Em vez de jingles tradicionais, algumas campanhas passaram a adaptar músicas populares para incluir referências aos candidatos, ataques aos adversários e mensagens de mobilização política.
Uma das versões que ganharam destaque utilizava o refrão “Quem ficar parado é petista disfarçado”, transformando a polarização política em uma brincadeira musical que incentivava o público a dançar e pular durante os atos.
A proposta era simples: produzir conteúdos fáceis de memorizar, compartilhar e reproduzir em diferentes ambientes. Em uma época na qual vídeos curtos influenciam o debate público, uma música pode funcionar como instrumento de propaganda, identidade coletiva e entretenimento.
Flávio Bolsonaro, por exemplo, participou de atos em que o funk serviu de trilha sonora. Em Vitória, no Espírito Santo, o candidato dançou sobre um trio elétrico acompanhado de aliados, entre eles o deputado federal Nikolas Ferreira.
Em São Paulo, Lucas Pavanato também celebrou sua eleição para a Câmara dos Deputados ao som do gênero. As cenas ajudaram a demonstrar como o ritmo foi incorporado à comunicação política, inclusive em momentos de comemoração e exposição pública dos candidatos.
O uso do funk, contudo, levantou questionamentos sobre a relação entre a estratégia eleitoral e as posições defendidas por alguns desses políticos em outras situações.
A contradição entre o discurso e a prática
Parte das críticas surgiu porque representantes da direita já haviam associado determinados bailes e músicas de funk ao que classificam como narcocultura, expressão utilizada para descrever símbolos, comportamentos e referências culturais relacionados ao universo do tráfico de drogas.
O debate ficou mais evidente no caso de Lucas Pavanato. Antes de utilizar o gênero em sua comemoração eleitoral, ele havia atuado como vereador na Câmara Municipal de São Paulo e foi relator da CPI dos Pancadões, comissão que investigava bailes clandestinos e questões relacionadas à perturbação do sossego público.
Em seu relatório final, a comissão apontou os pancadões como espaços de difusão e normalização da chamada narcocultura. A interpretação provocou críticas de artistas e pessoas ligadas ao movimento funk, que consideraram problemática a associação ampla entre o gênero musical e a criminalidade.
Entre os nomes ouvidos pela CPI estavam MC Ryan SP e MC Dricka, artistas que questionaram a maneira como o funk foi tratado durante os trabalhos da comissão.
A controvérsia expõe uma diferença importante: o funk não é uma manifestação cultural homogênea. O gênero reúne diferentes estilos, artistas, narrativas e públicos, abordando desde festas e relacionamentos até questões sociais, experiências da periferia e temas controversos.
Por isso, críticos argumentam que condenar o gênero de maneira generalizada pode reforçar estigmas contra comunidades periféricas. Ao mesmo tempo, defensores das investigações sobre determinados eventos sustentam que é possível discutir problemas específicos, como violência, presença de atividades criminosas e perturbação do sossego, sem necessariamente condenar toda a expressão musical.
Ao ser questionado sobre a aparente contradição, Pavanato afirmou que “o problema com o funk, por óbvio, é a letra, não o ritmo”. A declaração representa a distinção defendida por parte dos políticos conservadores entre a sonoridade do gênero e o conteúdo de algumas composições.
A polarização também chegou ao mundo do funk
A relação entre o funk e a política institucional não começou em 2026. Ao longo dos últimos anos, artistas, empresários e produtores passaram a participar de debates eleitorais, declarar apoio a candidatos e utilizar sua influência para mobilizar seguidores.
Durante boa parte de sua expansão na cena musical paulista, especialmente a partir dos anos 2010, o funk manteve uma presença relativamente distante das disputas partidárias formais. Isso não significava ausência de posicionamentos individuais, mas uma relação menos organizada com candidaturas e campanhas.
Uma das primeiras aproximações mais visíveis com a política institucional ocorreu quando Rodrigo Oliveira, fundador da GR6, uma das principais produtoras do gênero no país, disputou uma vaga de vereador em São Paulo. Ele recebeu pouco mais de oito mil votos, mas não foi eleito.
Nas eleições presidenciais de 2018 e 2022, a polarização política passou a aparecer com mais força entre artistas e empresários do setor.
Em 2022, nomes importantes do funk e da indústria musical, incluindo o produtor Konrad Dantas, conhecido como KondZilla, participaram de uma reunião com Lula e declararam apoio ao petista.
Dois anos depois, entretanto, parte do setor se aproximou de candidatos de direita. Nas eleições municipais de 2024, artistas e empresários ligados ao funk apoiaram diferentes projetos políticos em São Paulo. Alguns declararam apoio à reeleição de Ricardo Nunes, enquanto MC Ryan SP e Henrique Alexandre Barros Viana, conhecido como Rato e ligado à produtora Love Funk, apoiaram Pablo Marçal.
A aproximação de figuras conhecidas do gênero com Marçal provocou reações entre outros artistas e segmentos do público, evidenciando que a cena musical também estava atravessada pelas divisões políticas do país.
Em 2026, MCs como Hariel, Tuto, PH e IG estiveram entre os nomes que apoiaram Lula, enquanto outros artistas preferiram não assumir publicamente uma posição eleitoral.
Esse cenário mostra que não existe uma orientação política única no funk. Assim como ocorre em outros segmentos da sociedade, artistas e produtores têm opiniões, interesses e trajetórias diferentes.
Quando o gênero vira trilha eleitoral, quem ganha?
A utilização do funk por candidatos conservadores também provocou críticas de integrantes da própria direita. Renan Santos, por exemplo, já havia associado o gênero a uma cultura que classificou como “narcoterrorista” e criticou a utilização do ritmo em jingles de candidatos conservadores.
Em comentários sobre o fenômeno, a crítica questionou a coerência de lideranças que condenam determinadas manifestações culturais em seus discursos, mas recorrem à mesma linguagem quando ela oferece visibilidade eleitoral.
A discussão revela uma questão recorrente na política contemporânea: até que ponto o uso de símbolos culturais representa aproximação genuína com uma comunidade ou apenas uma estratégia de comunicação?
Para artistas e produtores, o debate também envolve reconhecimento. O funk nasceu e se desenvolveu em comunidades populares, enfrentando preconceitos e disputas em torno de sua legitimidade cultural. Quando políticos utilizam sua estética para alcançar eleitores, mas mantêm discursos que artistas consideram estigmatizantes, surge uma tensão sobre quem se beneficia dessa relação.
Por outro lado, a apropriação de um gênero por diferentes grupos políticos também demonstra que a música não pertence exclusivamente a uma corrente ideológica. O funk pode ser utilizado em manifestações de direita, esquerda ou em eventos sem finalidade partidária.
O ponto central da controvérsia não é apenas quem dança ou utiliza determinada batida, mas a coerência entre o discurso público, as políticas defendidas e o tratamento dado aos artistas e às comunidades que construíram essa cultura.
O funk pertence ao público, não a um partido
A experiência eleitoral de 2026 mostra que a música se tornou uma ferramenta relevante na disputa pela atenção dos eleitores. Jingles de funk ajudaram a movimentar redes sociais, animar comícios e ampliar a circulação de mensagens políticas, sobretudo entre públicos familiarizados com o gênero.
Entretanto, a viralização não elimina as contradições nem garante uma aproximação duradoura entre candidatos e artistas. Uma campanha pode utilizar uma música sem representar os interesses de quem a produz ou de quem se identifica com ela.
O funk continua sendo uma expressão cultural diversa, construída por artistas, produtores, dançarinos e comunidades que transformaram um gênero historicamente marginalizado em um dos principais fenômenos musicais brasileiros.
Mais do que uma disputa sobre quem pode utilizar suas batidas, o debate de 2026 levanta uma reflexão sobre respeito cultural, liberdade artística e responsabilidade política.
No fim, o funk pode embalar diferentes campanhas, mas sua história é muito maior do que qualquer candidatura. O desafio para a política é demonstrar que o reconhecimento da cultura popular vai além de um refrão viral e se traduz em respeito às pessoas que fazem essa cultura existir.
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