O pagode brasileiro vive uma nova fase de valorização da própria história. Nos últimos anos, um movimento chamado de **“lado B” conquistou os fãs do gênero e levou grandes artistas de volta ao estúdio para resgatar músicas que, no passado, ficaram longe dos principais hits, mas que agora ganham uma segunda chance.
O conceito tem origem nos discos de vinil, que eram divididos em dois lados: o lado A, reservado para os grandes singles e músicas de maior aposta, e o lado B, onde ficavam faixas menos conhecidas, mas que muitas vezes guardavam verdadeiras joias musicais.
Com o passar do tempo, essas canções que não tiveram grande repercussão no lançamento começaram a despertar a atenção do público e passaram a ocupar um novo espaço nos shows e plataformas digitais.
Grandes nomes apostam no resgate de músicas esquecidas
Entre os artistas que aderiram à tendência está o grupo Sorriso Maroto, que lançou no início de 2026 o projeto “Sorriso Eu Gosto No Pagode – Lado B”, reunindo regravações de músicas do próprio repertório que não chegaram ao grande público na época do lançamento.
O cantor Belo também anunciou um álbum dedicado exclusivamente aos chamados lados B de sua carreira.
Outros nomes importantes do gênero, como Thiaguinho e Turma do Pagode, também já comentaram sobre pedidos dos fãs para desenvolver projetos com essa proposta.
A ideia, segundo artistas e especialistas, é uma onda que veio para permanecer, principalmente por oferecer uma alternativa em meio ao excesso de músicas já conhecidas.
Cansaço das mesmas regravações impulsiona nova tendência
A prática de regravar sucessos antigos sempre fez parte do pagode. Muitos artistas iniciaram suas trajetórias cantando músicas de outros grupos em rodas de samba e apresentações menores.
Nomes como Bruno Cardoso, vocalista do Sorriso Maroto, e Xande de Pilares, ex-integrante do grupo Revelação, são exemplos de artistas que tiveram contato com esse formato no início das carreiras.
O crescimento das regravações ganhou ainda mais força após o sucesso do grupo Menos É Mais, que conquistou o público durante a pandemia com projetos audiovisuais baseados em grandes clássicos do pagode.
Porém, com tantos artistas apostando na mesma fórmula, parte do público começou a sentir falta de novidades.
“Foi praticamente tudo regravado. Aí muita gente pensou no lado B que gosta de tocar, mas que o público nem ligava”, explicou Marcelinho TDP, cavaquinista do Turma do Pagode.
Músicas esquecidas voltam ao topo
Um dos exemplos dessa transformação é a música “Alucinado”, do grupo Doce Encontro. Lançada em 2004, a canção passou anos como uma faixa pouco explorada até ser regravada e se tornar um dos maiores sucessos da banda.
Outro caso citado é o da música “Fica com Deus”, do Sorriso Maroto, que voltou a ganhar destaque após uma nova interpretação feita pelo cantor Yan.
Segundo Bruno Cardoso, vocalista do grupo, a escolha surpreendeu até integrantes da própria banda.
“Nem eu lembrava que tinha gravado! Olha só que loucura”, comentou o cantor ao falar sobre a repercussão da faixa.
Público busca novidades, mesmo que sejam antigas
Para o cantor e compositor Matheus Pessanha, o movimento também é uma resposta ao excesso de repertórios semelhantes nas rodas de samba e eventos pelo país.
Segundo ele, muitos fãs passaram a procurar músicas diferentes, mesmo que sejam antigas.
“É uma novidade antiga”, brincou o artista ao explicar que o público quer descobrir canções que ficaram escondidas durante anos.
A busca por variedade fez com que artistas enxergassem nos lados B uma oportunidade de renovar os próprios shows e aproximar gerações diferentes de fãs.
As músicas inéditas continuam sendo fundamentais
Apesar do sucesso dos projetos de resgate, artistas e compositores reforçam que as músicas inéditas continuam sendo essenciais para construir uma carreira.
O pagode segue revelando novos sucessos. Em 2025, Ferrugem ganhou destaque com “Apaguei Pra Todos”, que esteve entre as músicas mais ouvidas do país. Em 2026, o cantor também colocou “Arrependidaço” entre os destaques das rádios e plataformas digitais.
Entre os novos nomes, Vitinho chamou atenção com “Iceberg”, enquanto Turma do Pagode e Menos É Mais lançaram a inédita “Investigador”, mostrando que o gênero continua produzindo novidades.
Para Marcelinho TDP, as regravações ajudam a manter viva a memória do pagode, mas são as músicas novas que definem a identidade dos artistas.
“As regravações viraram um fenômeno, mas o que constrói carreira são as músicas inéditas. Elas criam identidade e mostram a personalidade de cada artista”, afirmou.
Um novo capítulo para o pagode
O sucesso do “lado B” mostra que a música brasileira continua encontrando novas formas de se reinventar. Canções que ficaram esquecidas por anos agora ganham voz, novos arranjos e chegam a uma nova geração de ouvintes.
No pagode, o passado e o presente caminham juntos: enquanto os clássicos continuam emocionando, músicas que antes estavam escondidas começam a escrever uma nova história.

















