O governo dos Estados Unidos deve anunciar até esta quarta-feira (15) se irá aplicar novas tarifas sobre produtos brasileiros, em meio a uma investigação comercial conduzida pela Casa Branca contra práticas do Brasil consideradas “injustas” pelo governo norte-americano.

Entre os pontos analisados pelos Estados Unidos está o funcionamento do Pix, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central, que passou a ser citado como uma das áreas de preocupação pelas autoridades americanas.

Um documento divulgado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sugere a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, mas uma decisão definitiva ainda depende das negociações entre os dois países.

Caso a medida seja confirmada, o Brasil passaria a ocupar a segunda posição entre os países com maiores tarifas médias aplicadas pelos Estados Unidos, ficando atrás apenas da China.

Brasil pode ter forte aumento nas tarifas

Segundo dados da iniciativa Global Trade Alert (GTA), atualmente o Brasil ocupa a 13ª posição entre os países mais tarifados pelos Estados Unidos, com uma tarifa média efetiva de 11,73%.

O levantamento considera os valores realmente cobrados sobre produtos importados, e não apenas as tarifas anunciadas oficialmente.

Se o aumento de 25% for confirmado, o Brasil teria uma das maiores elevações tarifárias durante o segundo mandato do presidente Donald Trump, com um aumento médio estimado de 18%.

A China foi o país que registrou o maior crescimento das tarifas no período, com alta de 27% em comparação às taxas aplicadas durante o governo de Joe Biden.

Por que o Brasil entrou na mira dos EUA?

Especialistas avaliam que a disputa comercial vai além de questões econômicas.

O diretor do St. Gallen Endowment, Johannes Fritz, afirmou que a relação política entre os governos pode ter influência no movimento americano, especialmente após declarações anteriores de Donald Trump envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.

No ano passado, ao anunciar uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, Trump mencionou sua insatisfação com o processo judicial envolvendo Bolsonaro, que posteriormente foi condenado e passou a cumprir pena em prisão domiciliar.

Além do aspecto político, especialistas também apontam a área tecnológica como um dos fatores de tensão entre os dois países.

Segundo Fritz, o Brasil, assim como União Europeia e Austrália, adotou medidas que confrontaram grandes empresas de tecnologia americanas, especialmente em decisões relacionadas à moderação de conteúdo e funcionamento de plataformas digitais.

Entre os episódios citados estão decisões judiciais envolvendo o bloqueio da plataforma X, em 2024, e a suspensão do funcionamento da plataforma Rumble no Brasil, em 2025.

Investigação envolve seis áreas

A investigação americana foi aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo utilizado pelos Estados Unidos para apurar práticas estrangeiras consideradas prejudiciais a empresas americanas.

O documento do USTR, com 107 páginas, aponta seis áreas principais de preocupação:

Comércio digital e pagamentos eletrônicos

Os Estados Unidos afirmam que empresas americanas do setor de pagamentos enfrentam dificuldades para competir no Brasil devido ao avanço do Pix.

O governo americano questiona o papel do Banco Central brasileiro, alegando que a instituição atua como reguladora e também responsável pelo funcionamento do sistema.

Tarifas consideradas preferenciais

O documento também critica acordos comerciais brasileiros com países como México e Índia, alegando que esses parceiros recebem tratamento mais favorável em determinados setores.

Combate à corrupção

Outra área citada é a fiscalização brasileira contra práticas de corrupção, considerada insuficiente pelo governo americano.

Propriedade intelectual

Os Estados Unidos apontam problemas relacionados ao combate à pirataria, produtos falsificados e demora na análise de pedidos de patentes.

Mercado de etanol

O USTR questiona mudanças feitas pelo Brasil nas regras de importação de etanol e cobra maior reciprocidade para produtos americanos.

Desmatamento ilegal

O governo americano também cita preocupações relacionadas ao combate ao desmatamento ilegal no Brasil.

Tarifas podem abrir caminho para negociação

Para especialistas, a ameaça de novas tarifas pode funcionar como uma estratégia de pressão para levar o governo brasileiro à mesa de negociações.

O professor Rodrigo Zeidan, da New York University Shanghai e da Fundação Dom Cabral, afirmou que anúncios desse tipo costumam ser utilizados pela Casa Branca como ferramenta de negociação.

Segundo ele, a disputa atual não estaria baseada apenas em critérios econômicos, já que os Estados Unidos exportam mais para o Brasil do que o Brasil exporta para o mercado americano.

Governo brasileiro acompanha decisão

O governo brasileiro ainda aguarda a decisão final dos Estados Unidos e acompanha as negociações diplomáticas entre os dois países.

Caso as tarifas sejam implementadas, setores da economia brasileira que dependem das exportações para o mercado americano poderão ser afetados, principalmente aqueles ligados à indústria, agricultura e produtos manufaturados.

A expectativa agora é pelo anúncio da Casa Branca, que poderá definir os próximos passos da relação comercial entre Brasil e Estados Unidos.