Antes de conquistar palcos internacionais, milhões de ouvintes e se tornar um dos DJs brasileiros mais conhecidos do mundo, Alok viveu uma fase de incertezas e dificuldades. Em entrevista à BBC News Brasil, o artista relembrou o período em que tentou construir uma carreira em Londres, onde chegou a trabalhar limpando espaços e recolhendo bitucas de cigarro enquanto sonhava em viver da música.
O retorno à capital britânica, em junho deste ano, para o início da turnê “Rave the World”, teve um significado especial para o DJ. O palco da O2 Academy, no bairro de Brixton, ficava próximo das mesmas ruas onde, anos antes, ele enfrentava uma realidade completamente diferente.
“Vir para cá me dá até alguns gatilhos. Naquele momento, eu limpava o chão enquanto o DJ tocava, recolhia as bitucas de cigarro da rua enquanto as pessoas ficavam na fila”, contou Alok.
Na época, ele havia se mudado para Londres ao lado do irmão, Bhaskar, após algumas músicas começarem a ganhar destaque em plataformas de música eletrônica. A expectativa era aproveitar um mercado mais desenvolvido para o gênero, mas os planos não saíram como imaginado.
Sem conseguir se sustentar como DJ, Alok trabalhou como assistente de barman e, após quase dois anos de tentativas, decidiu retornar ao Brasil.
Influência dos pais e uma infância fora do comum
A relação de Alok com a música começou dentro da própria família. Seus pais, Ekanta e Swarup, são considerados nomes importantes do psytrance brasileiro, vertente da música eletrônica conhecida por suas batidas intensas e atmosfera psicodélica.
Segundo o DJ, a experiência dos pais também foi marcada por desafios. Sua mãe chegou a trabalhar como faxineira em uma boate nos Estados Unidos, onde conheceu o psytrance e começou sua trajetória artística.
“Eles começaram a pegar discos de vinil, equipamento de som, levar para o Brasil e tocar para 30 pessoas. Era quase uma contracultura”, relembrou.
Nascido em Goiânia, Alok também teve uma infância marcada por mudanças. Antes da adolescência, viveu em diferentes lugares, incluindo uma comunidade hippie em Amsterdã e a região de Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros.
Ao chegar a Brasília, onde passou a ter uma rotina mais próxima da sociedade tradicional, afirma que enfrentou um choque cultural e começou a questionar seus próprios valores.
A virada na carreira com a house music
Após voltar ao Brasil e pensar em abandonar a música para cursar Relações Internacionais, Alok recebeu o incentivo dos próprios pais para insistir na carreira artística.
Foi então que decidiu mudar sua trajetória musical, deixando o psytrance e se aproximando da house music, estilo mais melódico e dançante, com maior presença de vocais.
A escolha transformou sua carreira. Após trabalhos independentes e remixes de artistas como Snoop Dogg e Barão Vermelho, o DJ alcançou projeção mundial com a música “Hear Me Now”, lançada em 2016 em parceria com Zeeba e Bruno Martini.
A faixa se tornou um dos maiores sucessos da música brasileira no streaming, acumulando quase 1 bilhão de reproduções no Spotify e permanecendo como uma das músicas nacionais mais ouvidas da plataforma.
Depressão e conexão com povos indígenas
Mesmo após o sucesso internacional, Alok revelou que enfrentou um período de depressão. A busca por equilíbrio emocional o levou a uma experiência transformadora com o povo Yawanawá, no Acre.
Após conhecer cantos indígenas, o DJ decidiu visitar a aldeia e teve contato direto com uma cultura baseada na relação com a natureza e na transmissão de conhecimento por meio da música.
“Eu fazia música profissional, ocupava o top dez das paradas, e eles faziam música para curar”, afirmou.
A experiência deu origem ao projeto “O Futuro É Ancestral”, que reúne músicas gravadas com diferentes povos indígenas e busca preservar tradições culturais transmitidas oralmente.
Segundo Alok, lideranças indígenas também pediram apoio para registrar cantos que poderiam desaparecer com o tempo.
Atuação ambiental e posicionamentos públicos
A aproximação com os povos indígenas levou Alok a ampliar sua atuação em temas ambientais e sociais. O artista participou de debates públicos sobre preservação ambiental e direitos indígenas, além de desenvolver iniciativas em parceria com organizações internacionais.
O DJ afirma que a defesa do meio ambiente não deve ser associada apenas a um determinado campo político e diz que busca reduzir seu impacto ambiental por meio de ações de compensação de carbono.
Para ele, a tecnologia e a informação são ferramentas importantes para aumentar a conscientização sobre o tema.
Nova turnê e os desafios da inteligência artificial
Na turnê “Rave the World”, Alok resgata elementos de diferentes fases da carreira, incluindo referências ao psytrance, enquanto utiliza grandes estruturas tecnológicas no palco.
Conhecido pelos espetáculos com recursos visuais avançados, o DJ também demonstra preocupação com os impactos da inteligência artificial na produção artística.
Ele afirma utilizar ferramentas de IA em algumas etapas do processo criativo, como testes de vocais, mas defende que a tecnologia não substitua a participação humana na arte.
“A IA é uma ferramenta maravilhosa e vem para trazer conforto, mas a arte não é só para confortar. É para nos confrontar, fazer refletir”, declarou.
Para Alok, o futuro da música dependerá do equilíbrio entre inovação tecnológica e preservação da sensibilidade humana.
Com uma trajetória marcada por desafios, reinvenções e conquistas, o DJ afirma que sua maior preocupação agora é usar a música não apenas como entretenimento, mas também como instrumento de conexão, reflexão e transformação.

















