A sala de aula, espaço tradicionalmente associado ao aprendizado e à formação de crianças e jovens, tem sido marcada por uma realidade preocupante para muitos professores: ameaças, agressões verbais, violência física e impactos profundos na saúde mental dos educadores.

A professora Marta, que possui 50 anos de idade e 26 anos de carreira no magistério, ainda carrega as marcas de uma das situações mais difíceis que enfrentou. Em março de 2023, ela recebeu uma ameaça de morte feita pelo pai de um aluno do 1º ano do ensino fundamental em uma escola municipal da Zona Oeste de São Paulo.

Segundo o relato da professora, o responsável pelo estudante ligou para a escola e teria feito ameaças graves após demonstrar insatisfação com o desempenho escolar do filho, que tinha apenas 6 anos e enfrentava dificuldades de adaptação à nova fase de ensino.

“Como onde trabalhamos é uma comunidade, essas coisas não podem ser negligenciadas, porque a lei ali é diferente”, relatou a professora, que teve sua identidade preservada.

Após saber da ameaça, Marta registrou um boletim de ocorrência acompanhada apenas pelo marido. Ela conta que se sentiu desamparada durante o processo e que o medo afetou profundamente sua rotina.

No dia seguinte, procurou atendimento médico e acabou afastada das atividades pela psiquiatra. Mesmo sem sofrer uma agressão física, a ameaça provocou consequências psicológicas intensas.

“Meu problema psicológico foi horroroso, porque eu não sabia com quem eu estava lidando”, afirmou.

Pesquisa aponta cenário preocupante

O caso da professora não é isolado. Uma pesquisa realizada pelo Centro do Professorado Paulista (CPP), com 1.144 professores, revelou que 65% dos entrevistados afirmam já ter sofrido algum tipo de agressão no ambiente escolar.

Entre as formas de violência mais relatadas estão:

  • Violência verbal: 71%;
  • Violência psicológica e moral: 58%;
  • Violência institucional: 27%;
  • Violência física: 19%.

O Brasil também aparece entre os países com maiores índices de violência contra professores em levantamento realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que ouviu cerca de 280 mil profissionais da educação em 55 países.

No país, 47% dos professores afirmaram sofrer intimidação ou abuso verbal por parte de alunos como uma fonte de estresse, enquanto a média global ficou em torno de 18%.

Violência possui diferentes formas

Para a psicóloga Renata Paparelli, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a violência contra educadores ocorre de diversas maneiras e não se limita apenas às agressões físicas.

Segundo ela, existem três dimensões principais:

  • Violência da escola: relacionada a políticas públicas inadequadas, falta de estrutura e ausência de condições para o trabalho dos profissionais;
  • Violência na escola: envolvendo conflitos entre alunos, professores e gestão escolar;
  • Violência contra a escola: representada por depredações, ataques ao patrimônio e perda de valorização da instituição.

A especialista destaca que muitos professores acabam enfrentando uma rotina de cobranças elevadas sem o suporte necessário para lidar com situações complexas dentro das salas de aula.

Casos de agressões físicas chamam atenção

Além das ameaças, professores também relatam episódios de violência física.

O professor Pedro, de 40 anos, que atua em uma escola municipal na Zona Norte de São Paulo, contou que levou um soco de um aluno enquanto tentava impedir uma agressão contra estudantes durante uma atividade escolar.

Após o episódio, ele percebeu a marca da agressão no corpo e afirmou ter ficado emocionalmente abalado.

Outro caso foi o da professora Michelle Bernardes, da rede municipal de São Paulo, que teve parte de um dedo amputado após uma porta atingir sua mão durante uma tentativa de conter uma situação de crise envolvendo um estudante com deficiência intelectual.

Mesmo diante do trauma, a professora ressaltou que o problema não está no estudante, mas na falta de políticas públicas capazes de oferecer suporte adequado para alunos e profissionais.

“Precisamos urgentemente de políticas públicas que incentivem e auxiliem com qualidade a presença de todos os estudantes nas escolas”, afirmou.

Impactos na saúde mental dos educadores

A violência sofrida dentro das escolas tem provocado consequências sérias na saúde mental dos professores.

Segundo especialistas, muitos profissionais desenvolvem quadros de ansiedade, depressão, síndrome de burnout e transtorno de estresse pós-traumático.

Dados do Centro do Professorado Paulista mostram que apenas entre professores estatutários da rede estadual de São Paulo foram registradas mais de 42 mil licenças por transtornos mentais e comportamentais em 2024.

Em 2025, até setembro, já haviam sido contabilizadas mais de 25 mil licenças pelo mesmo motivo.

A psicóloga Renata Paparelli explica que muitos afastamentos começam de forma breve, mas podem se tornar prolongados quando o profissional não recebe o acompanhamento adequado.

Especialistas defendem mudanças e aproximação com comunidades

Diante do avanço dos casos, representantes da categoria defendem medidas para fortalecer a segurança nas escolas.

O Centro do Professorado Paulista defende mudanças na legislação e maior responsabilização em casos de violência contra professores.

Já representantes sindicais destacam que o enfrentamento do problema passa pela melhoria das condições de trabalho, investimento em estrutura e aproximação entre escolas, famílias e comunidades.

Para especialistas, a escola não pode ser vista como um espaço isolado da sociedade. Os conflitos existentes fora dos muros das instituições também acabam refletidos no ambiente escolar.

A construção de um ambiente mais seguro, segundo educadores e pesquisadores, depende de políticas públicas permanentes, valorização dos profissionais e criação de redes de apoio para professores e estudantes.

Enquanto isso, histórias como a de Marta revelam que, além de ensinar, muitos educadores também enfrentam diariamente desafios que ultrapassam os limites da sala de aula.