A educação brasileira enfrenta um desafio que vai muito além da sala de aula: acompanhar a velocidade das transformações do mercado de trabalho. Para o professor de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV) André Portela, boa parte da frustração dos brasileiros com o sistema educacional está relacionada justamente à distância entre aquilo que as instituições de ensino oferecem e as competências que as empresas procuram atualmente.
Segundo o especialista, escolas técnicas, universidades e demais instituições de formação profissional ainda possuem uma estrutura muito ligada às necessidades de um mercado de trabalho que já passou por profundas transformações. Enquanto novas tecnologias, mudanças nos modelos de negócios e novas formas de organização profissional ganham espaço, a formação de trabalhadores nem sempre consegue acompanhar o mesmo ritmo.
“A gente tem uma oferta de cursos, uma oferta de opções ainda muito estruturada em ocupações da velha economia, do velho mercado de trabalho”, afirmou Portela durante participação no programa “WW Especial”.
A avaliação ajuda a explicar uma sensação cada vez mais comum entre estudantes e trabalhadores: a de que concluir um curso nem sempre significa estar preparado para as oportunidades disponíveis.
Distância entre formação e profissão
Um dos principais pontos levantados pelo professor é o chamado descompasso entre a formação acadêmica ou técnica e a ocupação exercida pelo trabalhador.
Na prática, isso significa que muitas pessoas terminam uma graduação ou curso profissionalizante e acabam trabalhando em uma área diferente daquela para a qual foram preparadas.
O fenômeno não é novo, mas ganhou maior importância diante das transformações ocorridas no mercado de trabalho nos últimos anos.
“A gente tem um descasamento muito grande entre a formação e a ocupação”, afirmou Portela.
Esse cenário pode gerar consequências para os dois lados.
Para o trabalhador, existe o risco de investir anos em uma formação que não corresponde às oportunidades encontradas posteriormente. Para as empresas, por outro lado, cresce a dificuldade de encontrar profissionais que reúnam as habilidades necessárias para determinadas funções.
O resultado é uma espécie de desencontro: pessoas qualificadas podem ter dificuldade para encontrar empregos compatíveis com sua formação, enquanto empresas encontram obstáculos para preencher determinadas vagas.
O mercado mudou mais rápido que a educação
A transformação tecnológica é uma das principais razões para esse cenário.
Profissões que antes dependiam exclusivamente de conhecimentos tradicionais passaram a exigir domínio de ferramentas digitais, capacidade de análise de dados, adaptação a novas tecnologias e habilidades relacionadas à comunicação e à resolução de problemas.
Ao mesmo tempo, novas ocupações surgiram ou ganharam importância.
Áreas ligadas à tecnologia, inteligência artificial, automação, segurança digital, análise de dados, economia digital e inovação passaram a fazer parte da realidade de empresas de diferentes setores.
Esse processo também atingiu profissões tradicionais.
Em muitos casos, o trabalhador não precisa abandonar completamente aquilo que aprendeu, mas precisa acrescentar novas competências à sua formação.
É justamente nesse ponto que, segundo Portela, o sistema educacional ainda encontra dificuldades.
Para o professor, muitas instituições continuam preparando estudantes para funções que fazem parte de uma realidade econômica anterior, enquanto o mercado já exige uma combinação diferente de conhecimentos.
Ensino superior também enfrenta desafios
A discussão não se limita ao ensino técnico ou profissionalizante.
O professor da FGV também chama atenção para o ensino superior.
Durante sua análise, Portela destacou que o crescimento do número de brasileiros com diploma universitário é, em sua origem, um movimento positivo.
Mais pessoas tendo acesso à universidade representa uma conquista social importante e amplia as possibilidades de formação profissional.
O problema aparece quando o conteúdo oferecido não acompanha as mudanças nas profissões.
“É um ensino superior do velho mercado de trabalho, preparando para o velho mercado de trabalho. E muitos ainda não preparam para esse novo mercado de trabalho”, afirmou.
Essa diferença pode ajudar a explicar por que o diploma, embora continue sendo importante, já não representa necessariamente uma garantia de inserção profissional na área escolhida.
Diploma perdeu parte do peso no mercado
Outro fenômeno citado pelo especialista é a redução da diferença salarial entre trabalhadores com ensino superior e aqueles com níveis mais baixos de escolaridade.
Historicamente, possuir um diploma universitário era associado a uma vantagem salarial significativa.
Embora a formação superior ainda possa ampliar oportunidades profissionais e aumentar a renda em diversas áreas, essa vantagem não é uniforme.
O crescimento do número de diplomados contribuiu para tornar o ensino superior mais acessível e, consequentemente, mais comum no mercado.
Quando uma qualificação que antes era restrita a uma parcela menor da população passa a estar presente em um número muito maior de trabalhadores, ela deixa de funcionar sozinha como um grande diferencial.
Isso significa que o diploma continua tendo valor, mas outras competências passam a ser consideradas cada vez mais importantes.
Quais habilidades serão necessárias?
Uma das maiores dificuldades está justamente em definir quais competências devem fazer parte da formação para o futuro.
O mercado muda tão rapidamente que até mesmo especialistas têm dificuldade para prever exatamente quais profissões e habilidades terão maior demanda nos próximos anos.
Portela destaca que esse problema não é exclusivo do Brasil.
“A gente nem sabe direito o que seria esse currículo todo, ainda o mundo inteiro está tateando”, afirmou.
A declaração mostra a dimensão do desafio.
Não se trata simplesmente de substituir disciplinas antigas por novas matérias. O desafio envolve repensar a própria maneira de preparar pessoas para uma realidade profissional que muda constantemente.
O trabalhador do futuro provavelmente precisará aprender continuamente, atualizar seus conhecimentos e desenvolver capacidade de adaptação.
Formação contínua ganha importância
Nesse cenário, a ideia de que a formação termina quando o estudante recebe o diploma também começa a perder força.
A educação profissional tende a se tornar cada vez mais contínua.
Cursos de curta duração, especializações, treinamentos, certificações e atualização de conhecimentos podem assumir um papel importante na trajetória profissional.
Para os trabalhadores, isso significa que aprender novas ferramentas e desenvolver novas competências pode deixar de ser uma escolha e passar a ser uma necessidade permanente.
Para as instituições de ensino, o desafio será oferecer formações capazes de acompanhar essas mudanças sem abandonar conhecimentos fundamentais.
Habilidades técnicas e humanas
Além do domínio de tecnologias, especialistas em mercado de trabalho também costumam destacar a importância das chamadas habilidades comportamentais.
Comunicação, capacidade de trabalhar em equipe, pensamento crítico, criatividade, liderança, organização e resolução de problemas são competências que podem ganhar ainda mais importância em um ambiente no qual ferramentas automatizadas assumem tarefas repetitivas.
Isso não significa que o conhecimento técnico perderá valor.
Pelo contrário.
A tendência apontada é de uma combinação entre domínio técnico e capacidade de utilizar esse conhecimento de maneira estratégica.
Um profissional poderá precisar entender uma determinada área e, ao mesmo tempo, saber trabalhar com ferramentas digitais, interpretar informações e tomar decisões.
Inteligência artificial aumenta o desafio
A expansão da inteligência artificial tornou essa discussão ainda mais urgente.
Sistemas capazes de produzir textos, analisar informações, gerar imagens, programar e automatizar determinadas tarefas já fazem parte da realidade de diversas empresas.
Isso não significa necessariamente o desaparecimento imediato de profissões inteiras.
Em muitos casos, a tecnologia modifica as tarefas realizadas pelos trabalhadores.
O profissional passa a utilizar ferramentas de inteligência artificial para aumentar sua produtividade, enquanto determinadas atividades repetitivas deixam de ocupar tanto tempo.
Esse cenário exige uma educação capaz de ensinar não apenas como utilizar uma ferramenta, mas como pensar criticamente sobre seus resultados e limitações.
Um desafio para escolas, universidades e governo
A mudança necessária não depende apenas dos estudantes.
Escolas, universidades, empresas e governos também precisam participar da construção de uma formação mais conectada com as necessidades da sociedade.
As instituições de ensino precisam observar as transformações do mercado sem simplesmente seguir modismos.
As empresas, por sua vez, podem contribuir indicando quais competências estão sendo exigidas e participando de programas de formação.
Já o poder público possui papel importante na criação de políticas educacionais que ampliem o acesso à qualificação e reduzam desigualdades.
O desafio é encontrar um equilíbrio entre preparar para as necessidades atuais e desenvolver uma capacidade de aprendizagem que permita ao trabalhador acompanhar mudanças futuras.
Educação precisa acompanhar o trabalhador
A fala de André Portela coloca em evidência uma questão que afeta diretamente a vida de milhões de brasileiros.
Estudar continua sendo fundamental, mas o modelo de formação precisa acompanhar as mudanças do mundo.
Para quem está escolhendo uma carreira, isso significa olhar além do nome do curso e buscar entender quais competências estão sendo valorizadas.
Para quem já está no mercado, significa reconhecer que a formação profissional não precisa terminar com o diploma.
E para as instituições de ensino, significa aceitar que o conhecimento precisa estar em movimento.
O mercado de trabalho do futuro ainda não está completamente definido. Como destacou Portela, o mundo inteiro ainda tenta compreender quais serão as competências mais importantes.
Mas uma coisa já parece clara: preparar pessoas para as profissões de ontem não será suficiente para enfrentar os desafios de amanhã.
A educação brasileira terá de encontrar maneiras de se adaptar sem perder sua função essencial: formar cidadãos capazes não apenas de conseguir um emprego, mas de compreender a realidade, tomar decisões, criar soluções e continuar aprendendo ao longo da vida.
É nesse equilíbrio entre conhecimento, tecnologia e capacidade humana de adaptação que poderá estar uma das respostas para diminuir a distância entre aquilo que se ensina e aquilo que o mundo do trabalho realmente precisa.















