Na reta final de preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), muitos estudantes começam a fazer contas para descobrir quantos livros ainda conseguem ler antes da prova. A preocupação é comum, principalmente entre aqueles que desejam melhorar o desempenho na redação, mas, segundo especialistas, a quantidade de obras lidas não deve ser o principal foco neste momento.

Mais importante do que acumular títulos ou decorar frases para utilizar na redação é desenvolver a capacidade de compreender diferentes assuntos, relacionar ideias e construir argumentos consistentes.

Essa é a avaliação de Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovação da Arco Educação, que defende uma mudança de perspectiva sobre o papel da leitura na preparação para o Enem. Para ele, uma obra literária só se transforma em repertório produtivo quando o estudante consegue compreender seu conteúdo e estabelecer conexões com questões presentes na sociedade brasileira.

A orientação ganha importância especialmente nas semanas que antecedem a prova, período em que muitos candidatos aumentam a carga de estudos e acabam enfrentando ansiedade por acreditar que precisam recuperar, em pouco tempo, tudo aquilo que não conseguiram estudar durante o ano.

Não é preciso ler dezenas de livros na reta final

A ideia de que o estudante precisa “ler mais” pode acabar produzindo o efeito contrário ao desejado.

Para quem não desenvolveu o hábito de leitura ao longo da vida escolar, tentar concluir vários livros em poucas semanas pode gerar frustração e sensação de incapacidade.

A recomendação é estabelecer uma rotina possível de ser cumprida.

Reportagens, artigos de divulgação científica, crônicas e textos de opinião também podem contribuir para ampliar o repertório. O mais importante é realizar uma leitura ativa, procurando entender o assunto e não apenas passar os olhos pelas palavras.

Nesse processo, o estudante deve tentar identificar a ideia principal, compreender os argumentos apresentados e perceber como determinado assunto se relaciona com outros problemas sociais.

A estratégia pode ser especialmente útil para a redação do Enem, que exige do candidato capacidade de desenvolver uma argumentação e apresentar uma proposta de intervenção para o problema discutido.

Cinco livros podem ampliar o repertório

Para estudantes que desejam complementar a preparação, Celedônio aponta cinco obras que podem ajudar a ampliar a compreensão sobre diferentes questões sociais e ambientais.

Uma delas é “Olhos d’água”, de Conceição Evaristo, obra que aborda temas como racismo, desigualdade social e experiências vividas por mulheres negras.

Outra indicação é “Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus, diário que apresenta relatos sobre pobreza, fome e exclusão social a partir da experiência da autora na favela do Canindé, em São Paulo.

Também aparece na lista “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, um dos clássicos da literatura brasileira. A obra permite discutir questões relacionadas à seca, migração, pobreza e às dificuldades enfrentadas por famílias do sertão.

A quarta recomendação é “A ralé brasileira”, de Jessé Souza, que aborda aspectos relacionados à desigualdade estrutural e à formação das diferenças sociais no país.

Por fim, o especialista indica “Ideias para adiar o fim do mundo”, de Ailton Krenak, que apresenta reflexões sobre a relação entre sociedade, natureza e os impactos da maneira como os seres humanos enxergam o desenvolvimento.

O objetivo não é fazer com que o estudante decore frases dessas obras para utilizá-las de maneira automática. A proposta é compreender os conceitos e utilizar esse conhecimento para construir argumentos próprios.

Atualidades também fazem parte da preparação

Além da literatura, acompanhar acontecimentos atuais pode ser uma ferramenta importante para quem está se preparando para o Enem.

O estudante pode buscar informações em veículos e instituições que produzem conteúdos confiáveis de divulgação científica e análise de temas relevantes.

Entre as fontes recomendadas estão a Embrapa, a Pesquisa FAPESP, o Jornal da USP e o Jornal da Unicamp.

Essas plataformas podem ajudar o candidato a entrar em contato com pesquisas, dados e discussões que ultrapassam o conteúdo tradicional dos livros didáticos.

O acompanhamento de atualidades, entretanto, não deve se resumir a saber o que aconteceu.

É necessário compreender as causas, as consequências e os diferentes aspectos envolvidos em cada acontecimento.

Uma notícia sobre mudanças climáticas, por exemplo, pode ser relacionada à economia, à geografia, à saúde pública, à produção de alimentos e às políticas ambientais.

Essa capacidade de estabelecer conexões é justamente uma das habilidades que podem ajudar o estudante na construção de uma redação mais consistente.

Temas que merecem atenção

Entre os assuntos que podem ser acompanhados pelos candidatos estão as mudanças climáticas, a inteligência artificial, a desinformação e o funcionamento dos algoritmos.

Também vale observar questões relacionadas ao envelhecimento da população, saúde pública, vacinação, desigualdades sociais, democracia, direitos humanos e migrações.

A inteligência artificial, por exemplo, pode ser discutida a partir de diferentes perspectivas. Além dos avanços tecnológicos, o tema envolve educação, mercado de trabalho, privacidade, disseminação de informações falsas e mudanças na forma como as pessoas produzem e consomem conteúdo.

Já as mudanças climáticas podem ser relacionadas à preservação ambiental, eventos extremos, produção agrícola, disponibilidade de água e políticas públicas.

O segredo é evitar estudar os assuntos de maneira isolada.

Como organizar a leitura sem sobrecarregar a rotina

Para quem está com pouco tempo disponível, a recomendação é simples: reservar diariamente entre 20 e 30 minutos para uma leitura concentrada.

O período pode ser utilizado para alternar entre livros, reportagens, artigos científicos e textos de opinião.

A regularidade é mais importante do que passar horas lendo em um único dia.

Uma rotina curta, mas mantida diariamente, pode ser mais produtiva do que tentar ler dezenas de páginas em um fim de semana e abandonar o hábito posteriormente.

Outro conselho é não transformar cada leitura em uma obrigação de produzir longos resumos.

Depois de terminar um texto, o estudante pode anotar apenas três pontos: a ideia central, um dado ou argumento importante e a relação daquele assunto com outro tema.

Essa técnica ajuda a organizar o pensamento sem consumir tempo excessivo.

Repertório precisa ser aplicado

Ter conhecimento sobre diversos assuntos é importante, mas não basta.

O estudante também precisa aprender a utilizar esse conhecimento na prática.

Por isso, resolver questões e fazer simulados continua sendo fundamental durante a preparação.

Na redação, por exemplo, não adianta conhecer uma obra literária se o candidato não consegue relacioná-la de maneira coerente ao tema proposto.

O repertório precisa contribuir para a argumentação.

Uma referência utilizada apenas para demonstrar conhecimento, sem relação clara com o assunto discutido, pode perder sua função.

Por outro lado, quando o estudante consegue conectar uma obra, uma pesquisa, um acontecimento histórico ou uma informação atual ao argumento apresentado, o repertório passa a ter uma função efetiva dentro do texto.

Menos ansiedade e mais estratégia

Na reta final, talvez a principal recomendação seja não transformar a preparação em uma corrida contra o tempo.

O estudante que não conseguiu ler todos os livros que gostaria não precisa acreditar que perdeu a oportunidade de melhorar seu desempenho.

Ainda é possível desenvolver o repertório por meio de textos menores, reportagens e conteúdos de divulgação científica.

O importante é estudar com estratégia e manter uma rotina realista.

A preparação para o Enem não deve ser baseada apenas na quantidade de páginas lidas, mas na capacidade de compreender, questionar e relacionar informações.

Para quem está prestes a enfrentar a prova, cada leitura pode ser uma oportunidade de enxergar um pouco melhor o mundo ao redor.

E é justamente essa compreensão que pode fazer diferença na hora de escrever uma redação: não repetir frases decoradas, mas demonstrar que consegue interpretar um problema, construir uma argumentação e propor caminhos para enfrentá-lo.

Na reta final, portanto, a orientação é clara: menos preocupação com quantos livros ainda podem ser concluídos e mais atenção ao que cada leitura pode ensinar. Com 20 ou 30 minutos de dedicação diária, leitura ativa e prática constante, o estudante pode transformar conteúdos aparentemente diferentes em um repertório capaz de fortalecer sua preparação para o Enem.