Uma proposta da Fifa para criar uma nova estrutura comercial ligada à Copa do Mundo provocou forte reação de dirigentes, federações e representantes do futebol internacional. A entidade confirmou planos para criar a FIFA Forward Enterprise (FFE), uma subsidiária que poderá negociar uma participação minoritária dos direitos comerciais do principal torneio do futebol mundial com investidores privados em uma operação estimada em US$ 20 bilhões (cerca de R$ 102 bilhões).
O projeto, apresentado como uma forma de ampliar investimentos no desenvolvimento do futebol, acabou despertando críticas por envolver uma das maiores competições esportivas do planeta e levantar debates sobre transparência, governança e os rumos da gestão da Fifa.
Investidores e polêmicas
Entre os possíveis investidores citados pela imprensa internacional está a empresa Thrive Eternal, liderada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A informação intensificou os questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse, especialmente diante da relação pública entre o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e Trump.
Especialistas também demonstram preocupação com a ausência de um amplo debate antes da apresentação da proposta.
Segundo Bret Myers, professor de negócios esportivos da Universidade Villanova, nos Estados Unidos, a Copa do Mundo possui um valor que vai além do aspecto financeiro.
“A Copa do Mundo é um dos poucos eventos esportivos verdadeiramente globais, e isso envolve uma responsabilidade que vai além da maximização de receitas.”
Fifa afirma que recursos serão destinados ao futebol
A entidade garante que os valores arrecadados serão reinvestidos no desenvolvimento do esporte em todo o mundo.
Como incentivo às federações nacionais, a Fifa propõe um repasse de US$ 20 milhões para cada uma das 211 associações filiadas em 2027, valor que poderá subir para US$ 24 milhões em 2035.
As federações terão até 19 de setembro para informar se aderem ao plano. Caso contrário, os recursos prometidos poderão ser reduzidos ou até cancelados.
Críticas à governança
Para críticos da iniciativa, o problema não está apenas na venda parcial dos direitos comerciais, mas na forma como o projeto foi conduzido.
O ex-presidente do Comitê de Governança, Auditoria e Conformidade da Fifa, Miguel Maduro, afirmou que a concentração de poder na presidência da entidade e a falta de mecanismos robustos de fiscalização geram dúvidas sobre a utilização dos recursos.
Segundo ele, a distribuição dos investimentos precisa ser acompanhada de maior transparência e prestação de contas.
Confederações demonstram preocupação
A proposta encontrou resistência em diferentes partes do mundo.
A Confederação Asiática de Futebol (AFC) afirmou que não foi consultada previamente e demonstrou insatisfação com a condução do processo.
A Concacaf, responsável pelo futebol da América do Norte, Central e Caribe, também declarou estar profundamente preocupada com o projeto.
Na Europa, a reação foi ainda mais contundente.
A Uefa afirmou que “o futebol não pertence à Fifa para ser vendido”, posicionamento reforçado pela Federação Alemã de Futebol (DFB), que defende maior participação das entidades nacionais nas decisões sobre o futuro da principal competição do esporte.
Até o momento, CBF e Conmebol não divulgaram posicionamento oficial sobre a proposta.
Debate sobre o futuro da Copa do Mundo
A criação da FIFA Forward Enterprise marca um novo capítulo na discussão sobre a comercialização do futebol global. Embora a Fifa sustente que a iniciativa garantirá mais investimentos para o desenvolvimento da modalidade, dirigentes e especialistas alertam para a necessidade de preservar a governança, a transparência e o caráter institucional da Copa do Mundo.
O tema deverá seguir em debate nos próximos meses e poderá influenciar diretamente as relações entre a Fifa, as confederações continentais e as federações nacionais, além de moldar o futuro da maior competição do futebol mundial.

















