A Polícia Civil apreendeu, na tarde desta sexta-feira (14), um carro que pode ter sido utilizado no assassinato do soldado da Polícia Militar do Ceará Raphael Sampaio da Silva, de 27 anos, encontrado morto a tiros e carbonizado dentro de um veículo em Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza. O automóvel foi localizado nas proximidades da Avenida Washington Soares, na região do bairro Messejana, em Fortaleza.
A apreensão representa mais uma frente de investigação em um caso que vem chamando a atenção pela complexidade e pelas mudanças na versão apresentada por uma policial militar que inicialmente afirmou ter sido vítima de um sequestro durante a ação criminosa.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS), o veículo foi periciado ainda no local onde foi encontrado e, posteriormente, recolhido para análises. Equipes da Polícia Militar, da Perícia Forense do Ceará (Pefoce) e do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) participaram da ocorrência.
Até o momento, as autoridades não divulgaram quem é o proprietário do automóvel nem esclareceram de que maneira o veículo teria sido utilizado no homicídio. A expectativa é de que a perícia possa identificar vestígios capazes de contribuir para a reconstrução da dinâmica do crime.
Soldado foi encontrado carbonizado
Raphael Sampaio da Silva foi encontrado morto na terça-feira (11). O corpo estava dentro de um carro incendiado, no bairro Ancuri, em Itaitinga.
Segundo a SSPDS, os exames realizados pela Perícia Forense apontaram que o policial sofreu ferimentos provocados por disparos de arma de fogo enquanto ainda estava vivo. Posteriormente, o corpo foi carbonizado.
A perícia também informou que não foram identificadas amputações traumáticas no corpo da vítima, afastando informações que chegaram a circular inicialmente sobre uma possível mutilação.
A investigação está sendo conduzida pela Delegacia de Homicídios Contra Agentes de Segurança Pública (DHASP), que busca esclarecer não apenas quem participou diretamente da execução, mas também a motivação e as circunstâncias que levaram à morte do militar.
Policial que dizia ter sido sequestrada virou suspeita
Um dos elementos que mais chamou a atenção dos investigadores foi a mudança na condição da soldado Júlia Natália Girão Gomes dentro da investigação.
Ela trabalhava no mesmo batalhão de Raphael e havia encerrado o expediente junto com ele poucas horas antes do crime. Inicialmente, Júlia afirmou que havia sido sequestrada por criminosos que teriam abordado o carro onde ela e Raphael estavam.
Segundo o relato apresentado por ela, os criminosos teriam matado o soldado e retirado a policial do veículo. Júlia afirmou ainda que foi amarrada e colocada no porta-malas de outro carro.
Mais tarde, ela teria sido abandonada em uma área de Aquiraz, onde foi encontrada com as mãos amarradas e pediu ajuda a moradores.
Naquele momento, a policial era tratada como possível vítima da mesma ação criminosa que terminou com a morte de Raphael.
Entretanto, durante o avanço das investigações, os agentes encontraram contradições entre a versão apresentada por Júlia e outros elementos reunidos no caso.
Imagens de câmeras de segurança passaram a ter papel importante na apuração. Uma delas teria registrado a policial na oficina do marido durante um período em que, segundo seu próprio relato, ela estaria amarrada e sob domínio de criminosos.
Outro registro mostra o casal deixando a filha na escola em um horário que também entrou em conflito com a cronologia apresentada pela policial.
Diante das inconsistências, Júlia deixou a condição de suposta vítima e passou a ser investigada como suspeita da morte do colega.
Ela foi presa e permanece à disposição da Justiça.
Marido também está preso
O marido de Júlia, Antoneudo Ribeiro Lima Júnior, também foi preso e é investigado por possível participação no crime.
A polícia apura qual teria sido o papel dele na morte de Raphael e se houve participação conjunta entre os envolvidos.
O casal já possuía registros relacionados a outras investigações, segundo informações divulgadas pela Secretaria da Segurança Pública.
No entanto, é importante ressaltar que as acusações ainda estão sendo apuradas e que a responsabilização criminal depende da conclusão das investigações e das decisões judiciais.
A polícia trabalha para reunir provas materiais, depoimentos e registros de câmeras que possam estabelecer uma sequência segura dos acontecimentos.
Advogado é detido ao tentar entrar com celular
Outro episódio relacionado ao caso ocorreu nesta sexta-feira (14), quando o advogado Walmir Medeiros foi detido após tentar entregar um aparelho celular à soldado Júlia Natália.
De acordo com a SSPDS, o profissional foi conduzido à Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e acabou liberado depois de assinar um Termo Circunstanciado de Ocorrência.
O celular foi apreendido pelas autoridades.
A Secretaria informou que o advogado foi autuado por crime relacionado à entrada ou facilitação da entrada de aparelho de comunicação em unidade prisional sem autorização legal.
Medeiros, por outro lado, negou que tenha levado um telefone para a cliente. Segundo ele, teria esquecido o próprio aparelho sobre uma mesa e Júlia teria utilizado o celular para realizar uma ligação para a sogra.
O caso deverá ser analisado pelas autoridades competentes.
A Associação dos Profissionais da Segurança (APS), da qual o advogado fazia parte, informou que decidiu afastá-lo de suas funções após considerar que ele descumpriu uma orientação institucional para não atuar mais no caso.
A Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Ceará (OAB-CE), também informou que tomou conhecimento da ocorrência e colocou apoio institucional à disposição do profissional. A entidade ressaltou que não compactua com eventuais condutas incompatíveis com as regras éticas da advocacia.
Possível relação entre os policiais
Outro elemento que passou a fazer parte das investigações surgiu durante o velório de Raphael.
Uma tia do soldado afirmou, em entrevista, que ele mantinha um relacionamento extraconjugal com Júlia Natália.
A informação ainda precisa ser analisada dentro do conjunto de provas do processo e, por si só, não esclarece a motivação do assassinato.
Familiares ressaltaram que qualquer eventual relacionamento entre os envolvidos não justificaria uma violência que terminou em morte.
Para a família de Raphael, o principal objetivo agora é compreender o que aconteceu e garantir que todos os responsáveis sejam identificados e responsabilizados.
Investigação continua
A apreensão do novo veículo pode representar uma peça importante no quebra-cabeça montado pelos investigadores. Peritos deverão analisar o automóvel em busca de impressões, material biológico, imagens, registros e outros elementos que possam relacioná-lo ao crime.
A Polícia Civil também deverá continuar ouvindo testemunhas e confrontando os depoimentos dos investigados com imagens de câmeras de segurança e demais provas obtidas durante a investigação.
O caso permanece sob investigação da DHASP, e novas informações poderão surgir conforme os trabalhos avançarem.
Enquanto isso, a morte de Raphael Sampaio deixa familiares, colegas de farda e amigos à espera de respostas. O soldado tinha apenas 27 anos e teve a trajetória interrompida de maneira violenta, em um crime que mobilizou diferentes setores da segurança pública do Ceará.
A investigação agora busca reconstruir, passo a passo, as últimas horas de vida do policial e esclarecer o que aconteceu desde o momento em que ele deixou o trabalho até a localização de seu corpo carbonizado.
Até que todas as circunstâncias sejam esclarecidas, os investigados permanecem sob a presunção de inocência prevista na legislação brasileira. A definição de responsabilidades caberá à Justiça, com base nas provas reunidas durante o processo.










