Péricles será uma das atrações mais aguardadas do Rock in Rio 2026 na segunda-feira, 7 de setembro, quando sobe ao Palco Sunset para apresentar o espetáculo “Péricles canta Motown”. A apresentação promete celebrar não apenas grandes clássicos da música negra norte-americana, mas também uma das principais referências que ajudaram a formar a identidade do pagode brasileiro que ganhou projeção nacional a partir dos anos 1990.

O show representa uma espécie de reencontro com referências musicais que ajudaram a formar a identidade de uma geração de artistas brasileiros. Embora o samba seja a base fundamental do pagode, o gênero que ganhou enorme popularidade nos anos 1990 também carregava fortes influências do soul, do R&B e do funk norte-americano.

Ao interpretar clássicos associados à gravadora Motown, Péricles pretende justamente estabelecer essa conexão. O repertório previsto inclui músicas de nomes fundamentais da música negra dos Estados Unidos, como Stevie Wonder, Smokey Robinson e o grupo The Temptations.

Entre as canções que devem fazer parte da apresentação estão “Superstition”, de Stevie Wonder, lançada em 1972; “Cruisin’”, sucesso de Smokey Robinson; e “My Girl”, eternizada pelo The Temptations em 1964.

A escolha das músicas não é apenas uma homenagem a grandes artistas internacionais. Para Péricles, trata-se também de reconhecer as raízes de um movimento musical brasileiro que ajudou a transformar o mercado fonográfico e ampliar a visibilidade de cantores e compositores negros.

A ligação entre Motown e o pagode brasileiro

Para compreender a importância do espetáculo, é necessário voltar algumas décadas e observar como a música negra norte-americana chegou aos ouvidos de jovens brasileiros, especialmente em São Paulo.

Durante os anos 1970, os bailes promovidos por equipes especializadas em música negra se transformaram em importantes espaços de encontro, cultura e identidade. Entre essas equipes estava a Chic Show, que marcou a história dos bailes paulistanos ao apresentar ao público brasileiro artistas e estilos que vinham dos Estados Unidos.

O soul e o R&B passaram a fazer parte do repertório de uma geração que posteriormente encontraria no samba e nas rodas de pagode um espaço para desenvolver sua própria linguagem.

Essa influência pode ser percebida em diferentes aspectos do pagode que explodiu comercialmente nos anos 1990. O modo de cantar, os arranjos, os vocais e determinados elementos melódicos carregavam características da música negra norte-americana, adaptadas à realidade brasileira.

A conexão é destacada por diferentes artistas e especialistas na série documental “Anos 90 – A explosão do pagode”, disponível no Globoplay.

Péricles e uma homenagem que também fala de sua própria história

Ao escolher interpretar Stevie Wonder, Smokey Robinson e The Temptations, Péricles não está apenas revisitando clássicos internacionais. O cantor também estabelece uma relação direta com as referências que ajudaram a construir sua formação musical.

A Motown surgiu em 1959 e se tornou uma das gravadoras mais importantes da história da música. Seu catálogo ajudou a popularizar mundialmente artistas negros e consolidou um estilo que misturava soul, R&B, pop e elementos de outras vertentes.

A influência ultrapassou as fronteiras dos Estados Unidos. Décadas depois, músicas produzidas pela gravadora chegariam ao Brasil e seriam absorvidas por músicos de diferentes gêneros.

Péricles tem destacado justamente essa capacidade da Motown de atravessar fronteiras. Para o cantor, a transformação provocada pela gravadora não ficou restrita ao mercado norte-americano. A música produzida por seus artistas encontrou ouvintes em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil.

Essa influência ganhou novos significados quando passou a dialogar com a música brasileira.

“My Girl” conecta duas gerações

Entre os momentos mais simbólicos do espetáculo estará a interpretação de “My Girl”, clássico do The Temptations.

Lançada em 1964, a música se tornou uma das canções mais conhecidas da história do grupo e da própria Motown. Sua melodia e seus vocais marcaram gerações e ajudaram a consolidar o estilo que posteriormente influenciaria artistas em diferentes países.

Na voz de Péricles, a música ganha uma nova leitura. O cantor brasileiro leva ao palco uma interpretação construída a partir de sua experiência no samba e no pagode, criando uma ponte entre duas tradições musicais.

É justamente nessa conexão que o espetáculo encontra uma de suas maiores forças.

O público que conhece Péricles por sua trajetória no pagode poderá ouvir clássicos que ajudam a explicar parte da sonoridade que marcou artistas brasileiros. Já quem conhece a história da Motown terá a oportunidade de perceber como aquelas referências ganharam novas formas quando atravessaram o Atlântico.

O pagode dos anos 1990 foi também um fenômeno social

A explosão do pagode nos anos 1990 não pode ser analisada apenas pelo sucesso comercial.

O gênero ajudou a colocar artistas negros brasileiros em posição de destaque dentro de uma indústria musical que historicamente ofereceu menos espaço para determinados grupos.

Cantores, compositores e músicos passaram a ocupar rádios, programas de televisão, capas de revistas e grandes palcos. O pagode tornou-se uma linguagem popular, mas também um espaço de afirmação de identidade.

A música negra norte-americana teve papel importante nesse processo. Muitos dos artistas que participaram da explosão do pagode cresceram ouvindo soul, funk e R&B, ao mesmo tempo em que estavam ligados às rodas de samba e às tradições musicais brasileiras.

Essa combinação criou uma sonoridade própria.

O resultado foi um movimento que ultrapassou os limites de um gênero musical. O pagode passou a representar uma geração e ajudou a consolidar carreiras que continuam influentes décadas depois.

A influência que atravessou gerações

A história mostra que referências musicais não desaparecem. Elas são reinterpretadas e passam de uma geração para outra.

Um exemplo dessa continuidade pode ser percebido na forma como o canto de Belo, também associado à explosão do pagode dos anos 1990, incorporou elementos do soul e influenciou artistas que vieram depois, como Thiaguinho.

Péricles também ocupa esse lugar de continuidade. Sua trajetória está diretamente ligada à história do pagode e à construção de uma nova geração de artistas brasileiros.

Por isso, seu encontro com a Motown no Rock in Rio ganha um significado especial. O cantor não estará apenas cantando músicas famosas. Ele estará apresentando ao público uma parte da história musical que ajudou a formar o próprio ambiente no qual o pagode brasileiro cresceu.

Um show pensado para diferentes públicos

A apresentação no Palco Sunset também tem potencial para aproximar públicos que talvez não tenham contato frequente com os diferentes capítulos da música negra.

Quem acompanha Péricles poderá descobrir ou redescobrir clássicos da música norte-americana. Ao mesmo tempo, admiradores da Motown poderão enxergar novas possibilidades em canções que atravessaram décadas.

O espetáculo foi idealizado por Zé Ricardo, vice-presidente artístico do Rock in Rio, e faz parte de uma proposta que amplia a diversidade musical do festival.

Em um evento conhecido por reunir grandes estrelas nacionais e internacionais, o show “Péricles canta Motown” ganha destaque justamente por apresentar uma narrativa musical.

Uma celebração que vai além do palco

A apresentação de Péricles no Rock in Rio 2026 será, portanto, uma celebração de influências, encontros e trajetórias.

Ao cantar “Superstition”, “Cruisin’” e “My Girl”, o artista brasileiro revisita uma parte fundamental da música negra norte-americana. Mas, ao mesmo tempo, também olha para a própria história do pagode brasileiro e para os artistas que ajudaram a transformar o gênero em um dos maiores fenômenos populares da música nacional.

O encontro entre Motown e pagode mostra que a música não respeita fronteiras. Uma canção criada nos Estados Unidos nos anos 1960 pode encontrar, décadas depois, uma nova interpretação no Brasil e dialogar com uma história completamente diferente.

É essa ponte que Péricles pretende construir no Palco Sunset.

No dia 7 de setembro, diante do público do Rock in Rio, o cantor terá a oportunidade de transformar um repertório internacional em uma celebração das próprias raízes. Será um momento em que soul, R&B, samba e pagode estarão unidos pela mesma história: a força da música negra e sua capacidade de atravessar gerações, países e culturas.

Mais do que cantar clássicos, Péricles estará contando uma história. Uma história que começa na Motown, passa pelos bailes paulistanos, chega às rodas de samba e desemboca na explosão do pagode dos anos 1990. E que, agora, ganha um novo capítulo em um dos maiores festivais de música do mundo.