A eleição presidencial de 2026 coloca frente a frente dois nomes que já são amplamente conhecidos do eleitorado brasileiro: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Em um cenário marcado pela forte polarização política, os dois candidatos enfrentam um adversário em comum que pode ser decisivo para o resultado das urnas: a alta rejeição entre os eleitores.
Mais do que conquistar votos, Lula e Flávio Bolsonaro terão o desafio de convencer uma parcela do eleitorado que, neste momento, afirma não votar neles de maneira alguma. Em uma disputa que pode ser definida por margens apertadas, diminuir a rejeição pode ser tão importante quanto ampliar a intenção de voto.
O fenômeno não é novo na política brasileira. Nas últimas eleições presidenciais, candidatos competitivos frequentemente apareceram também entre os nomes com maiores índices de rejeição. Isso mostra que, em uma eleição polarizada, o voto nem sempre é motivado apenas pela identificação positiva com um candidato, mas também pela tentativa de impedir a vitória daquele que o eleitor considera menos adequado.
Um cenário conhecido nas eleições brasileiras
O histórico recente ajuda a compreender o tamanho do desafio. Em 2014, Dilma Rousseff (PT), que iniciou a disputa liderando as pesquisas de intenção de voto, apresentava também um índice significativo de rejeição. Naquele momento, 35% dos eleitores afirmavam que não votariam nela de jeito nenhum.
Quatro anos depois, em 2018, Jair Bolsonaro (PL) aparecia com 39% de rejeição em levantamento realizado durante a campanha. Mesmo enfrentando resistência de uma parcela expressiva do eleitorado, Bolsonaro conseguiu avançar na disputa e chegar ao segundo turno.
Já em 2022, a polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro levou os índices de rejeição a níveis ainda mais elevados. Segundo os dados da primeira pesquisa Datafolha realizada após o início oficial das campanhas, Bolsonaro tinha 51% de rejeição, enquanto Lula registrava 37%.
O cenário de 2026 mantém características semelhantes, com dois candidatos que carregam marcas políticas bastante conhecidas e possuem grupos de apoiadores fiéis, mas também enfrentam forte resistência entre setores do eleitorado.
Na primeira pesquisa Datafolha mencionada no levantamento, 46% dos entrevistados afirmaram que não votariam em Flávio Bolsonaro de jeito nenhum. Lula apareceu logo atrás, com 45%.
A proximidade dos números evidencia que a rejeição poderá ser uma das principais variáveis da campanha.
Por que a rejeição pesa tanto?
A rejeição eleitoral não significa necessariamente que o eleitor esteja decidido a votar no adversário. Uma pessoa pode rejeitar um candidato e, ao mesmo tempo, ainda não ter escolhido outro nome.
Esse comportamento é especialmente importante em eleições polarizadas. Quando os candidatos são conhecidos por praticamente todo o eleitorado, a imagem construída ao longo dos anos passa a exercer grande influência sobre a decisão de voto.
Polêmicas, decisões tomadas durante mandatos, posicionamentos políticos, discursos e até a percepção de que determinado candidato representa valores diferentes daqueles defendidos pelo eleitor podem contribuir para o aumento da rejeição.
No caso de Lula e Flávio Bolsonaro, o cenário também é influenciado por dois grandes campos políticos que se consolidaram no país nos últimos anos: o antipetismo e o antibolsonarismo.
Para o cientista político e professor do Insper, Carlos Melo, esses dois movimentos representam atualmente importantes forças eleitorais. Segundo ele, a força de cada um depende do contexto político, econômico e social vivido durante a campanha.
Essa dinâmica faz com que a eleição seja menos previsível. Um eleitor pode rejeitar Lula, mas não necessariamente estar disposto a votar em Flávio Bolsonaro. Da mesma forma, alguém que rejeita Flávio pode não ter uma preferência automática por Lula.
É justamente nesse espaço que os candidatos tentarão atuar.
Estratégias para diminuir a rejeição
Diante de índices elevados, as campanhas precisam trabalhar não apenas para conquistar novos apoiadores, mas também para diminuir a resistência daqueles que ainda não estão convencidos.
No caso do governo Lula, medidas econômicas e sociais podem desempenhar papel importante nessa estratégia. O cientista político e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Leonardo Avritzer, avalia que iniciativas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e programas voltados à renegociação de dívidas fazem parte de uma estratégia destinada a melhorar a percepção da população sobre a situação econômica.
A lógica é direta: quando o cidadão sente alguma melhora na renda, no consumo ou na capacidade de organizar as próprias contas, a avaliação sobre o governo pode ser influenciada positivamente.
Entretanto, os efeitos dessas medidas não são automáticos. A percepção econômica varia entre grupos sociais e regiões, além de depender de fatores como inflação, emprego, renda e custo de vida.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, enfrenta um desafio diferente em alguns segmentos do eleitorado. Entre as estratégias apontadas por analistas está a tentativa de reduzir a resistência especialmente entre as mulheres, grupo no qual sua rejeição é considerada um obstáculo importante.
A tarefa, porém, não é simples. O senador carrega o sobrenome Bolsonaro, que possui forte capacidade de mobilização entre seus apoiadores, mas também provoca rejeição em setores que se identificam com posições políticas adversárias.
Polarização pode ajudar e atrapalhar
A polarização brasileira apresenta uma característica contraditória.
Por um lado, ela ajuda os candidatos a manter uma base eleitoral sólida. Lula possui um eleitorado historicamente identificado com o PT e com sua trajetória política. Flávio Bolsonaro, por sua vez, beneficia-se da força do bolsonarismo e da identificação de parte do eleitorado com o legado político de Jair Bolsonaro.
Por outro lado, essa mesma polarização pode dificultar a ampliação das bases eleitorais.
Para vencer uma eleição nacional, especialmente em segundo turno, o candidato precisa ir além de seus apoiadores mais fiéis. É necessário conquistar eleitores independentes, indecisos e pessoas que não possuem uma identificação tão forte com nenhum dos lados.
Por isso, a capacidade de reduzir rejeições pode se tornar determinante.
Um candidato que mantém uma rejeição muito alta encontra dificuldades para crescer porque existe um limite natural para sua expansão. Quanto maior o grupo de pessoas que afirma não votar naquele nome de nenhuma maneira, menor tende a ser o espaço disponível para conquistar novos votos.
Eleitor deve olhar além da disputa entre os dois polos
Enquanto as campanhas trabalham para convencer o eleitorado, especialistas alertam para a necessidade de que o cidadão não transforme a eleição exclusivamente em uma disputa de rejeições.
O cientista político Carlos Melo chama atenção para o risco de a polarização impedir discussões mais profundas sobre os problemas enfrentados pela população.
Educação, saúde, segurança pública, geração de empregos, infraestrutura, equilíbrio das contas públicas e desenvolvimento regional são temas que continuam presentes no cotidiano dos brasileiros, independentemente da disputa entre grupos políticos.
Nesse contexto, o eleitor tem uma ferramenta importante à disposição: os planos de governo apresentados pelos candidatos.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) disponibiliza informações oficiais sobre candidaturas e propostas, permitindo que os cidadãos conheçam melhor os compromissos apresentados durante a campanha.
A consulta aos programas pode ajudar a transformar a escolha eleitoral em uma decisão baseada não apenas em simpatia, rejeição ou influência das redes sociais, mas também na análise das propostas e da capacidade de cada candidato para enfrentar os desafios do país.
Uma eleição que pode ser decidida no centro
Com a campanha avançando, Lula e Flávio Bolsonaro terão de administrar uma equação delicada: preservar suas bases políticas sem ampliar ainda mais a rejeição.
O desafio será encontrar espaço para conversar com eleitores que não fazem parte dos grupos mais apaixonados pela polarização. São esses cidadãos que podem assumir papel decisivo na definição do resultado, especialmente caso a eleição caminhe para um segundo turno equilibrado.
Os números atuais mostram apenas um retrato de determinado momento da campanha. Até a votação, pesquisas podem apresentar mudanças importantes conforme novos fatos surgirem, as campanhas apresentarem suas propostas e os eleitores conhecerem melhor os candidatos.
A disputa presidencial de 2026, portanto, não será apenas uma batalha pela conquista de votos. Será também uma disputa pela capacidade de convencer quem ainda resiste, diminuir rejeições e apresentar uma alternativa capaz de dialogar com um eleitorado brasileiro cada vez mais dividido.
No fim, mais do que saber qual candidato possui a maior torcida, a eleição poderá ser decidida por quem conseguir construir a maior confiança possível entre aqueles que ainda não estão convencidos. E, nesse cenário, Lula e Flávio Bolsonaro terão um adversário em comum: a própria rejeição.















