José Carlos Capinan, um dos mais importantes poetas e letristas da música popular brasileira, tem sua trajetória celebrada em um novo álbum que reúne grandes intérpretes de diferentes gerações e estilos. Aos 85 anos, o compositor baiano recebe uma homenagem que reúne nomes como João Bosco, Virgínia Rodrigues, Áurea Martins e Maria Bethânia, em um projeto pensado para reconhecer, ainda em vida, a dimensão de uma obra que ajudou a transformar a canção brasileira.
A homenagem chega como uma espécie de reencontro entre diferentes momentos da música nacional. A produção reúne regravações de algumas das composições mais conhecidas de Capinan, permitindo que suas letras sejam revisitadas por artistas que carregam trajetórias próprias e distintas dentro da MPB.
O projeto tem produção musical de Alê Siqueira e conta com o aval de Guto Ruocco, produtor do espetáculo “Cancioneiro geral – Tributo a Capinan”, apresentado em 2024, em São Paulo. Na ocasião, o próprio Capinan dividiu o palco com artistas como Renato Braz e Jards Macalé, além de participar diretamente da celebração de sua trajetória.
Agora, a homenagem ganha formato fonográfico e percorre diferentes estúdios pelo Brasil. O próprio poeta acompanha de perto a realização do álbum, participando desse processo não apenas como homenageado, mas como alguém que continua conectado à própria obra.
Um poeta celebrado em vida
A proposta do projeto é especialmente simbólica: oferecer a Capinan as chamadas “flores em vida”, reconhecendo sua contribuição enquanto ele ainda pode acompanhar e participar da celebração de sua obra.
Em texto escrito para o livro “Cancioneiro geral [1962-2023]”, Maria Bethânia definiu Capinan como um compositor lírico, político e guerreiro, alguém que vive cada verso e cada rima de maneira intensa. A declaração traduz uma das características mais marcantes da produção do poeta: a capacidade de unir lirismo, inquietação política, identidade brasileira e experiências humanas.
Capinan nasceu em 19 de fevereiro de 1941, no arraial de Três Rios, na Bahia, e foi registrado em Esplanada, cidade vizinha. Ainda jovem, mudou-se para Salvador, onde iniciou o curso de Direito e passou a se aproximar de movimentos culturais e políticos.
Foi nesse ambiente que teve contato com nomes que posteriormente se tornariam fundamentais para a música brasileira, entre eles Caetano Veloso e Gilberto Gil.
A aproximação com a Tropicália
A trajetória de Capinan está profundamente ligada ao ambiente cultural que ajudou a formar a Tropicália, movimento que transformou a música brasileira entre o fim dos anos 1960 e o início da década seguinte.
Antes mesmo da consolidação do movimento tropicalista, Capinan já havia estabelecido parcerias importantes. Em 1965, participou da trilha sonora do documentário “Viramundo”, de Geraldo Sarno, trabalho que abordava a migração de nordestinos para as grandes cidades do Sudeste.
A experiência aproximou ainda mais o poeta de uma linguagem musical marcada pela realidade brasileira e pelas transformações sociais daquele período.
Com Gilberto Gil, Capinan construiu uma das parcerias mais importantes de sua carreira. Entre as músicas que nasceram dessa colaboração estão “Ladainha”, “Misere nobis” e “Soy loco por ti, America”.
“Soy loco por ti, America”, lançada em 1968, tornou-se uma das composições mais emblemáticas da parceria. A canção foi gravada por Caetano Veloso e carregava referências políticas e latino-americanas em um período marcado pela efervescência cultural e pela repressão política no Brasil.
Já “Misere nobis” integrou o histórico álbum-manifesto “Tropicália ou Panis et Circensis”, um dos trabalhos fundamentais para compreender a transformação da música brasileira naquele momento.
“Ponteio” e a parceria com Edu Lobo
Outro capítulo importante da trajetória de Capinan está relacionado à parceria com Edu Lobo. “Ponteio”, composta em colaboração entre os dois, tornou-se uma das grandes canções da música brasileira e foi vencedora de um importante festival em 1967.
A composição revelou a capacidade de Capinan de dialogar com elementos da música nordestina sem abandonar uma linguagem contemporânea. O resultado foi uma canção que atravessou gerações e permaneceu presente no imaginário da MPB.
A parceria entre Capinan e Edu Lobo também produziu outras obras, como “Viola fora de moda” e “Repente”.
A poesia em tempos difíceis
Com o endurecimento da ditadura militar, especialmente após 1968, a produção de Capinan também passou a refletir o ambiente político e social brasileiro.
Nas parcerias com Jards Macalé, o poeta encontrou espaço para uma escrita mais sombria, inquieta e crítica. Composições como “Gotham City”, “Movimento dos barcos” e “Farinha do desprezo” carregavam o espírito de uma época marcada pela censura, pela repressão e pela incerteza.
Capinan, porém, não ficou restrito à poesia política. Sua obra também encontrou espaço para o lirismo, o amor, o samba e as diferentes formas da canção brasileira.
Com Paulinho da Viola, construiu uma extensa parceria, produzindo músicas como “O acaso não tem pressa”, “Vinhos finos cristais”, “Coração imprudente”, “Orgulho”, “Sofrer” e “Viver sem amor”.
Um legado que continua vivo
A diversidade da obra de Capinan talvez seja uma das principais razões para a permanência de suas músicas. O poeta transitou entre a canção política, o samba, o lirismo amoroso e as tradições culturais brasileiras sem perder sua identidade.
“Moça bonita”, parceria com Geraldo Azevedo, revelou outro lado de sua escrita. “Papel machê”, composta com João Bosco em 1984, tornou-se um dos maiores sucessos da carreira do cantor e compositor mineiro.
É justamente essa música que ganha agora uma nova interpretação em um encontro inédito entre João Bosco e Áurea Martins, gravado em estúdio no Rio de Janeiro.
Na Bahia, outro momento especial aconteceu quando Virgínia Rodrigues gravou “Yayá Massemba”, parceria de Capinan com Roberto Mendes. A cantora já apresentava a composição em seus shows, mas ainda não havia registrado a música em estúdio.
Capinan acompanhou pessoalmente a gravação realizada em Salvador, cidade onde vive desde os anos 1960.
A música, lançada originalmente por Maria Bethânia em 2003, aborda a memória e a trajetória do povo negro escravizado, trazendo para a canção elementos históricos, culturais e afetivos profundamente ligados à formação brasileira.
Uma homenagem que atravessa gerações
O novo álbum mostra que a poesia de José Carlos Capinan permanece capaz de dialogar com diferentes gerações da música brasileira. Ao reunir artistas com trajetórias tão distintas, o projeto transforma o tributo em uma espécie de retrato da permanência de sua obra.
Mais do que revisitar sucessos, a homenagem reafirma a importância de um compositor que ajudou a construir parte da identidade da MPB a partir dos anos 1960.
Aos 85 anos, Capinan continua acompanhando o nascimento de novas interpretações para suas palavras. E talvez esteja justamente aí a maior beleza dessa celebração: suas letras não pertencem apenas ao passado.
Elas continuam sendo cantadas, reinterpretadas e descobertas.
Entre poesia e política, amor e memória, Bahia e Brasil, José Carlos Capinan construiu uma obra que atravessou décadas sem perder sua força. O tributo, portanto, não representa apenas uma retrospectiva. É também uma celebração de uma produção artística que permanece viva e aberta a novos encontros.
E, ao receber essa homenagem em vida, o poeta pode testemunhar aquilo que suas próprias canções ajudaram a construir: uma presença duradoura na história da música popular brasileira.















