A trajetória de Neguinho da Beija-Flor, um dos nomes mais marcantes da história do Carnaval brasileiro, ganhou uma nova forma de celebração. A vida do sambista, marcada por superação, música, fé e cinco décadas de ligação com a Beija-Flor de Nilópolis, chegou aos palcos do Teatro João Caetano, no Centro do Rio de Janeiro, com o espetáculo “O Neguinho da Beija-Flor – Musical”.

A produção estreou na quinta-feira (10) e permanece em cartaz até 1º de novembro. Em um formato biográfico, a montagem percorre diferentes momentos da vida e da carreira de Luiz Antônio Feliciano Marcondes, conhecido nacionalmente como Neguinho da Beija-Flor.

Mais do que contar a história de um cantor e compositor, o espetáculo apresenta ao público a trajetória de um artista que se confunde com a própria história recente do Carnaval carioca. Durante décadas, Neguinho emprestou sua voz aos desfiles da Beija-Flor e se tornou uma das figuras mais reconhecidas das escolas de samba.

Uma vida ligada à avenida

A história de Neguinho começou antes da fama e esteve desde cedo relacionada às dificuldades enfrentadas por sua família. Nascido no bairro carioca de Vila Isabel e criado em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Luiz Antônio conheceu de perto as privações econômicas.

Antes de se tornar o artista conhecido pelo público, chegou a ser chamado de “Neguinho da Vala”, apelido relacionado ao período em que buscava restos de comida em uma vala para ajudar no sustento da família.

A infância difícil, entretanto, não impediu que a música ocupasse espaço cada vez maior em sua vida. O pai, Benedito Feliciano Marcondes, conhecido como Bené do Piston, era trompetista e inicialmente não queria que o filho seguisse pelo caminho do samba.

A relação familiar e os obstáculos enfrentados durante os primeiros anos são apresentados no espetáculo por meio de personagens que ajudam a reconstruir o ambiente em que Neguinho cresceu.

A mãe do sambista, Benedita de Carvalho Marcondes, interpretada por Lu Vieira, aparece como uma figura fundamental para compreender a formação do artista e a força necessária para superar as dificuldades.

O encontro com a Beija-Flor

A história de Neguinho mudou de maneira definitiva quando ele encontrou na Beija-Flor de Nilópolis o espaço para desenvolver seu talento.

Em 1975, compôs “Sonhar com rei dá leão” e conseguiu ingressar na Ala de Compositores da escola. No ano seguinte, em 1976, puxou o samba-enredo durante o desfile da Beija-Flor.

A estreia aconteceu justamente em um momento histórico para a agremiação. Com a voz de Neguinho e a criatividade do carnavalesco Joãosinho Trinta, a escola conquistou naquele ano seu primeiro título na elite do Carnaval carioca.

A partir dali, começou uma relação que atravessaria décadas.

Neguinho se tornou a voz oficial da Beija-Flor e participou de 50 Carnavais como puxador antes de se aposentar após o desfile de 2025. Durante esse período, esteve à frente de todos os 15 títulos conquistados pela escola no Carnaval do Rio de Janeiro.

Essa ligação é fundamental para compreender o espetáculo. A vida do sambista e a trajetória da Beija-Flor caminham praticamente lado a lado na narrativa construída para o palco.

Um musical que mistura realidade e emoção

A dramaturgia é assinada pelo jornalista Aydano André Motta, que já havia trabalhado na série documental “Neguinho da Beija-Flor – Soberano da Avenida”, exibida pelo Globoplay.

Conhecedor do Carnaval carioca e autor de livros relacionados ao tema, Aydano utiliza essa experiência para construir uma narrativa que evita transformar a história em uma simples sequência de acontecimentos biográficos.

O roteiro percorre diferentes fases da vida de Neguinho, mas também utiliza recursos de ficção e liberdade cênica para criar momentos de humor, emoção e interação com o público.

A direção é de Luiz Antonio Pilar, que incorpora à montagem elementos da espiritualidade afro-brasileira. Essa característica aparece na cenografia de Lorena Lima e na presença da personagem de uma ialorixá, interpretada por Verônica Bonfim.

A religiosidade ganha especial importância na passagem que retrata o câncer enfrentado por Neguinho em 2008. O espetáculo apresenta a recuperação do artista associando o tratamento médico a elementos da tradição religiosa, incluindo um banho de pipoca relacionado ao orixá Obaluaê.

Izak Dahora assume o protagonista

Um dos grandes destaques da montagem é o trabalho do ator Izak Dahora, responsável por interpretar Neguinho.

O desafio não era apenas representar fisicamente o sambista, mas também reproduzir sua presença, sua energia e sua relação com a música.

Izak consegue construir um personagem convincente, apresentando um Neguinho resiliente, carismático e marcado por uma alegria que se tornou uma de suas principais características públicas.

Além da atuação, o protagonista também precisa cantar. A interpretação das músicas permite que o espetáculo mantenha uma forte ligação com o repertório do sambista e com os grandes sambas-enredos da Beija-Flor.

O resultado é uma composição que aproxima o público da trajetória de Neguinho sem transformar o personagem em uma caricatura.

A Beija-Flor também é personagem

Embora o espetáculo tenha Neguinho como figura central, a Beija-Flor ocupa praticamente o mesmo espaço na narrativa.

Personagens importantes da história da escola aparecem ao longo da montagem, como o patrono Anísio Abraão David, interpretado por Bruno Quixotte, o carnavalesco Joãosinho Trinta e o diretor de harmonia Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, o Laíla.

Joãosinho Trinta é apresentado com uma abordagem mais caricatural, recurso utilizado para provocar momentos de humor e descontração.

A montagem também recria, de maneira bem-humorada, o encontro entre Neguinho e Roberto Carlos no especial de Natal de 1985. Na ocasião, o sambista interpretou “Ângela”, composição de Serginho Meriti e Carlos Alexandre que se tornou um dos maiores sucessos de sua carreira solo.

Outro momento de forte conexão com o público acontece quando o espetáculo apresenta “O campeão (Meu time)”, música lançada por Neguinho em 1979 e transformada em um verdadeiro hino das torcidas de futebol.

Duas horas de história, samba e memória

Com aproximadamente duas horas e 20 minutos de duração, o espetáculo é dividido em dois atos. Um relógio colocado à direita do palco faz uma referência direta à marcação do tempo dos desfiles das escolas de samba.

A narrativa segue, em grande parte, uma ordem cronológica, mas não se prende exclusivamente a datas e fatos.

O objetivo principal é apresentar a dimensão humana por trás do artista que conquistou uma posição histórica no Carnaval.

Ao longo da montagem, música, humor, espiritualidade e memória se encontram para construir um retrato de Neguinho como artista e cidadão.

A trajetória que começou em meio às dificuldades da Baixada Fluminense chega ao palco de um dos tradicionais teatros do Rio de Janeiro como uma história de resistência e conquista.

Uma homenagem à altura do sambista

“O Neguinho da Beija-Flor – Musical” cumpre a proposta de transformar a trajetória do sambista em uma celebração teatral.

Sem abandonar as raízes carnavalescas, o espetáculo apresenta ao público os desafios, as vitórias e os personagens que ajudaram a construir a carreira de Neguinho.

A homenagem ganha ainda mais significado depois da aposentadoria do artista como puxador da Beija-Flor, encerrando uma trajetória de 50 anos à frente da escola.

No palco, entretanto, sua voz e sua história continuam vivas.

Ao relembrar sambas, personagens e momentos decisivos, o musical conduz Neguinho a uma espécie de nova apoteose. Desta vez, não na avenida, diante de milhares de foliões, mas no palco do Teatro João Caetano, diante de uma plateia convidada a conhecer ou recordar a história de um dos grandes protagonistas do Carnaval brasileiro.

É uma celebração de um artista que transformou dificuldades em música, resistência em carreira e paixão pelo samba em uma história que atravessou gerações.