A companhia aérea letã airBaltic entrou voluntariamente com um pedido de proteção contra falência sob o Capítulo 11 do Código de Falências dos Estados Unidos. O pedido foi apresentado nesta segunda-feira (14), em Nova York, em meio a uma grave crise financeira que atingiu a empresa e foi agravada pelos impactos da guerra entre Estados Unidos e Irã.

A medida permite que a companhia continue funcionando enquanto busca reorganizar suas dívidas, renegociar compromissos financeiros e encontrar uma estrutura considerada sustentável para manter as operações no longo prazo.

Apesar do pedido de proteção judicial, a airBaltic informou que os voos continuarão operando normalmente durante o processo. A expectativa da empresa é concluir a reestruturação até junho de 2027.

A decisão representa um dos momentos mais delicados da história recente da companhia e ocorre em um período de forte pressão sobre o setor aéreo internacional. O aumento dos custos de combustível e as consequências geopolíticas do conflito no Oriente Médio ampliaram as dificuldades enfrentadas por empresas que já operavam com margens financeiras reduzidas.

Companhia garante financiamento de € 350 milhões

Para manter suas operações durante o processo de recuperação, a airBaltic informou que conseguiu um compromisso de financiamento de € 350 milhões, equivalente a aproximadamente US$ 405 milhões.

O acordo envolve instituições financeiras como Strategic Value Partners, Barclays, Hayfin Capital Management, Morgan Stanley e Oaktree Capital Management.

Os recursos deverão ser utilizados para garantir o funcionamento da companhia enquanto as negociações com credores e demais partes interessadas avançam.

O financiamento, entretanto, terá juros de aproximadamente 12% e ainda depende da aprovação da Justiça dos Estados Unidos.

Durante uma coletiva de imprensa, o CEO da airBaltic, Erno Hilden, afirmou que a empresa pretende utilizar os próximos meses para negociar uma solução que permita recuperar sua estabilidade financeira.

“Nos próximos meses, iremos dialogar com todas as partes interessadas para chegar a um acordo sobre termos sustentáveis”, afirmou Hilden.

Segundo o executivo, a companhia espera conseguir uma melhora de € 44 milhões em seu resultado anual a partir do processo de reestruturação.

Dívidas ultrapassam US$ 583 milhões

A situação financeira da airBaltic ajuda a explicar a decisão de recorrer ao Capítulo 11.

De acordo com documentos apresentados à Justiça norte-americana, a companhia possui aproximadamente US$ 583 milhões em dívidas e compromissos relacionados ao financiamento e ao aluguel de aeronaves.

Além desse montante, a empresa acumula € 106 milhões em obrigações relacionadas a impostos sobre a folha de pagamento e taxas e impostos ligados à aviação.

Em 2025, a receita da companhia ficou em aproximadamente € 779 milhões.

O conselho da airBaltic reconheceu a gravidade da situação ao justificar o pedido de proteção judicial.

“A airBaltic vem enfrentando sérias dificuldades financeiras devido a uma combinação de fatores financeiros e geopolíticos”, afirmou o conselho em documento apresentado à Justiça dos Estados Unidos.

O processo, portanto, não representa apenas uma tentativa de reorganizar dívidas antigas, mas também uma estratégia para garantir que a companhia tenha tempo e recursos suficientes para adaptar sua estrutura a uma realidade econômica mais difícil.

Guerra aumenta pressão sobre setor aéreo

Um dos principais fatores apontados como agravantes da crise é a guerra entre Estados Unidos e Irã.

O conflito provocou forte impacto no mercado de energia e fez com que os preços do combustível de aviação dobrassem, segundo as informações apresentadas sobre o caso.

Para as companhias aéreas, o combustível representa uma das despesas mais importantes da operação. Quando os preços sobem rapidamente, empresas que já enfrentam dificuldades financeiras ficam ainda mais vulneráveis.

A elevação dos custos ocorre em um setor que ainda busca equilíbrio após os impactos provocados pela pandemia de Covid-19.

Investidores e executivos do mercado aéreo vêm alertando que companhias com estruturas financeiras mais frágeis podem enfrentar dificuldades para continuar operando caso os custos permaneçam elevados.

Nesse cenário, a airBaltic decidiu recorrer à proteção oferecida pela legislação norte-americana para tentar reorganizar sua situação antes que a crise se torne ainda mais profunda.

Capítulo 11 permite reorganização

O Capítulo 11 da legislação de falências dos Estados Unidos permite que empresas em dificuldades financeiras continuem suas atividades enquanto desenvolvem um plano de reestruturação.

Na prática, a ferramenta oferece proteção contra determinadas ações de credores durante o processo e cria um período para que a empresa reorganize suas finanças.

A estratégia não significa necessariamente o encerramento das atividades. Pelo contrário, o objetivo da airBaltic é continuar voando enquanto negocia com credores e investidores.

Erno Hilden possui experiência nesse tipo de processo. Antes de comandar a airBaltic, ele esteve à frente da companhia aérea escandinava SAS durante seu processo de recuperação judicial nos Estados Unidos, realizado entre 2022 e 2024.

A experiência anterior é considerada um dos fatores que ajudam a explicar a escolha da estratégia atual.

O analista John Strickland também avaliou que o Capítulo 11 pode oferecer à companhia uma estrutura adequada para reorganizar suas finanças.

“Isso lhes dá uma estrutura de proteção para colocar a casa em ordem… Não vejo por que a airBaltic não faria o mesmo que a SAS”, afirmou.

Governo da Letônia apoia reestruturação

A airBaltic é controlada majoritariamente pelo governo da Letônia. A companhia aérea alemã Lufthansa possui uma participação minoritária de 10%.

O governo letão continua procurando um investidor estratégico para a empresa enquanto acompanha o processo de reorganização.

O primeiro-ministro da Letônia, Andris Kulbergs, classificou a decisão como uma das melhores alternativas disponíveis para garantir a continuidade da companhia.

“Considero esta solução uma das melhores opções para garantir a viabilidade da airBaltic, pois fornece as ferramentas e o tempo necessários para implementar o plano de reestruturação”, afirmou Kulbergs.

O governo também informou que a empresa já utilizou recursos significativos obtidos anteriormente.

Segundo Kulbergs, até abril a airBaltic havia utilizado € 380 milhões provenientes de títulos emitidos em 2024. Um empréstimo emergencial de € 30 milhões concedido pelo governo também teria sido totalmente utilizado em junho.

Planos de expansão foram interrompidos

Antes da crise financeira, a airBaltic tinha planos ambiciosos de crescimento.

A companhia pretendia ampliar sua frota para aproximadamente 100 aeronaves e aumentar o número de passageiros que utilizariam Riga, capital da Letônia, como ponto de conexão.

A estratégia considerava especialmente passageiros provenientes de mercados como Rússia, Belarus e Ucrânia.

Entretanto, a realidade geopolítica e econômica mudou significativamente os planos.

Segundo o analista de aviação Simonas Bartkus, a empresa acabou ficando grande demais para o mercado que consegue atender atualmente.

“Isso não está mais disponível, e a empresa ficou grande demais para o mercado… O aumento dos custos de combustível agravou a situação, e eles não tiveram tempo de encontrar uma solução”, avaliou.

O primeiro-ministro Kulbergs também afirmou que a operação regional não exigiria uma frota tão grande quanto a planejada anteriormente.

“Para operar as rotas entre os países bálticos e a Letônia, são necessárias apenas 30 aeronaves, e não 100”, declarou.

Frota e futuro da companhia

Atualmente, a airBaltic possui uma frota de aproximadamente 50 aeronaves Airbus A220-300.

A empresa também vinha tentando reduzir os custos relacionados às aeronaves excedentes po