A Avibras dá mais um passo em seu processo de reestruturação após anos de dificuldades financeiras. A Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou, na segunda-feira (14), a aquisição da Nova AVB, estrutura que controla a fabricante brasileira de equipamentos de defesa, pela Globe Investimentos, empresa ligada aos irmãos Joesley e Wesley Batista. Os valores da operação não foram divulgados.

A transação havia sido apresentada ao Cade em agosto e passou pela análise técnica do órgão, responsável por avaliar se operações de compra e venda entre empresas podem provocar impactos negativos sobre a concorrência. No caso da Avibras, o entendimento foi de que a aquisição representa uma “substituição de agente econômico”, sem concentração relevante de mercado.

Na prática, a análise considerou que a Globe Investimentos não possuía atuação anterior no mercado de defesa ou em setores diretamente relacionados às atividades desenvolvidas pela Avibras. Dessa forma, não haveria sobreposição entre os negócios das empresas nem integração vertical capaz de gerar preocupações concorrenciais.

A decisão ocorre em um momento especialmente importante para a Avibras. Uma das empresas mais tradicionais da indústria brasileira de defesa e tecnologia espacial passou por uma das crises mais profundas de sua história nos últimos anos, enfrentando recuperação judicial, paralisações e dificuldades para manter seus compromissos financeiros e operacionais.

Cade avalia impacto da operação

O Cade tem como uma de suas principais funções analisar operações de fusões e aquisições que possam alterar a dinâmica da concorrência no mercado brasileiro. Dependendo das características de cada negócio, o órgão pode aprovar uma operação integralmente, determinar medidas para reduzir eventuais riscos ou até mesmo impedir a transação.

No caso da compra da Nova AVB pela Globe Investimentos, a Superintendência-Geral concluiu que não havia elementos que justificassem restrições à operação.

O ponto central da avaliação foi a ausência de atuação anterior da empresa compradora no setor em que a Avibras está inserida. Como a Globe não era uma concorrente da companhia nem possuía atividades complementares diretamente ligadas à sua cadeia produtiva, a operação não representaria, segundo a análise do órgão, uma concentração adicional de mercado.

Com a aprovação, a transação poderá avançar dentro das demais etapas necessárias para sua conclusão, observados os prazos e procedimentos previstos na legislação.

Avibras tem papel estratégico para o Brasil

Fundada em 1961, a Avibras construiu ao longo das décadas uma trajetória ligada ao desenvolvimento de tecnologias consideradas estratégicas para o país. A companhia atua em áreas relacionadas à defesa e ao setor espacial, com produtos que incluem sistemas de artilharia, foguetes, mísseis e soluções destinadas à defesa antiaérea.

A empresa também acumulou conhecimento tecnológico em projetos de alta complexidade, tornando-se uma referência na indústria nacional de defesa.

Esse histórico ajuda a explicar a importância da recuperação da companhia não apenas para seus funcionários e fornecedores, mas também para o setor industrial brasileiro. Empresas desse segmento dependem de profissionais altamente especializados, investimentos de longo prazo e capacidade de manter projetos tecnológicos durante períodos prolongados.

Por isso, a crise financeira enfrentada pela Avibras provocou preocupação entre trabalhadores, fornecedores e diferentes setores ligados à indústria de defesa.

Crise financeira levou empresa à recuperação judicial

A Avibras entrou em recuperação judicial em março de 2022, depois de enfrentar dificuldades financeiras que afetaram diretamente suas operações. O período de crise também foi marcado por uma greve de funcionários, iniciada em meio à falta de pagamento de salários.

A paralisação prolongada agravou os problemas da companhia e contribuiu para a interrupção de atividades industriais durante um período significativo.

A recuperação judicial passou a representar uma tentativa de reorganizar as finanças da empresa e preservar sua estrutura produtiva, seus empregos e seu patrimônio tecnológico.

O processo, entretanto, foi complexo e envolveu diferentes interessados na tentativa de encontrar uma solução para o futuro da companhia.

Mudanças no controle da empresa

Em 2025, o Brasil Crédito tornou-se controlador da companhia após adquirir a dívida de um antigo acionista indonésio, em um acordo envolvendo João Brasil Carvalho Leite, filho do fundador da Avibras.

A partir desse processo de reorganização, os ativos industriais e tecnológicos foram concentrados na Nova AVB. Ao mesmo tempo, a empresa original permaneceu associada aos passivos submetidos ao processo de recuperação judicial.

Essa separação foi importante para estruturar uma nova etapa para os ativos considerados estratégicos da companhia e criar condições para a retomada das operações.

Agora, a aprovação da compra pelo Cade representa mais um capítulo dessa longa reestruturação.

Fábrica voltou a operar em 2026

Um dos sinais mais concretos da tentativa de recuperação da empresa ocorreu em maio de 2026, quando a fábrica da Avibras Aeroco, localizada em Jacareí, no Vale do Paraíba, voltou a operar.

O retorno das atividades industriais trouxe uma perspectiva diferente depois de anos de paralisação e incertezas. Para trabalhadores e profissionais ligados à empresa, a retomada representa a possibilidade de reconstruir uma estrutura produtiva que durante décadas esteve associada ao desenvolvimento tecnológico brasileiro.

Ainda assim, o caminho para a recuperação completa permanece desafiador. A empresa precisa conciliar a retomada das atividades com a reorganização financeira e a necessidade de recuperar contratos, fornecedores, mão de obra especializada e capacidade produtiva.

Compra pelos irmãos Batista abre nova fase

A entrada da Globe Investimentos, empresa ligada aos irmãos Joesley e Wesley Batista, acrescenta um novo elemento à história recente da Avibras.

O grupo empresarial dos irmãos Batista possui atuação em diferentes setores da economia brasileira e internacional. A aquisição da Nova AVB, entretanto, representa uma entrada em uma área bastante específica e estratégica, marcada por características diferentes de outros segmentos empresariais.

A decisão do Cade deixa claro que, sob a perspectiva concorrencial, a operação não apresentou sobreposição relevante entre as atividades das empresas envolvidas.

Agora, o principal desafio estará relacionado à capacidade de transformar a mudança de controle em uma recuperação sustentável da Avibras. Para isso, será necessário garantir investimentos, reorganizar operações e criar condições para que a companhia volte a atuar de maneira consistente no mercado de defesa e tecnologia.

Futuro depende da retomada industrial

A aprovação do Cade não encerra os desafios enfrentados pela Avibras, mas elimina uma das etapas regulatórias importantes para a concretização da operação.

O futuro da empresa dependerá, entre outros fatores, da capacidade de seus novos controladores de recuperar a estrutura produtiva, preservar o conhecimento tecnológico acumulado ao longo de décadas e restabelecer relações comerciais capazes de sustentar a companhia no longo prazo.

Para o Brasil, a recuperação da Avibras também possui uma dimensão estratégica. A manutenção de uma indústria nacional capaz de desenvolver tecnologias de defesa reduz a dependência externa e preserva conhecimento especializado dentro do país.

Depois de anos marcados por dificuldades, paralisações e incertezas, a aprovação da operação pelo Cade representa uma nova etapa. A expectativa agora se volta para os próximos movimentos dos novos controladores e para a capacidade de transformar a aquisição em investimentos concretos, geração de empregos e retomada definitiva das atividades da tradicional fabricante brasileira.