O assessor-chefe da Assessoria Especial da Presidência da República, Celso Amorim, se reuniu na quarta-feira (16) com o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, em Pequim. Durante o encontro, Amorim entregou uma carta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva destinada ao presidente chinês, Xi Jinping, com mensagens relacionadas ao futuro da parceria entre Brasil e China.
A reunião colocou sobre a mesa temas que vêm ganhando importância na relação entre os dois países, como inteligência artificial, minerais críticos, terras raras, desenvolvimento tecnológico e cooperação bilateral. Também foram discutidos conflitos internacionais, o papel do BRICS e a defesa do diálogo multilateral.
Segundo informações divulgadas sobre o encontro, a mensagem de Lula destacou a importância estratégica da relação entre Brasília e Pequim e apontou possibilidades de ampliar a cooperação em áreas consideradas relevantes para os projetos de desenvolvimento dos dois países.
Carta aborda inteligência artificial e novas tecnologias
Um dos assuntos destacados na mensagem encaminhada por Lula foi o desenvolvimento de inteligência artificial com código aberto. A discussão envolve a possibilidade de ampliar a cooperação tecnológica entre Brasil e China em um setor que ganhou importância econômica e estratégica nos últimos anos.
A proposta de utilização de sistemas de código aberto está relacionada à possibilidade de ampliar o acesso às tecnologias e estimular o desenvolvimento de soluções por diferentes instituições e empresas. No encontro, o tema também apareceu associado a princípios de ética e inclusão, conforme informações divulgadas após a reunião.
A inteligência artificial se tornou uma área de disputa tecnológica internacional, envolvendo países, universidades e grandes empresas. Para o Brasil, a aproximação com diferentes parceiros pode representar uma oportunidade de ampliar sua capacidade de pesquisa, desenvolvimento e aplicação dessas ferramentas em setores econômicos e sociais.
A conversa entre Amorim e Wang Yi, portanto, ocorreu em um contexto no qual tecnologia e soberania passaram a ocupar espaço cada vez maior nas relações internacionais.
Minerais críticos e terras raras entram na agenda
Outro ponto importante da reunião foi a discussão sobre minerais críticos e terras raras. O objetivo mencionado nas conversas é ampliar as capacidades produtivas e tecnológicas relacionadas a esses recursos, buscando agregar valor às cadeias de produção.
As terras raras são utilizadas na fabricação de diversos equipamentos e tecnologias modernas, incluindo componentes eletrônicos, veículos elétricos e sistemas ligados à transição energética. Por isso, o controle das cadeias de produção e processamento desses materiais ganhou importância estratégica no cenário internacional.
O Brasil possui reservas e potencial de exploração de diferentes minerais considerados estratégicos. A discussão com a China ocorre justamente em um momento em que o país busca desenvolver uma cadeia produtiva nacional capaz de ir além da simples exportação de matérias-primas.
Em 16 de setembro, o governo brasileiro também sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras, estabelecendo medidas para incentivar o desenvolvimento dessas cadeias no país. A iniciativa busca aumentar o beneficiamento e o processamento nacional dos recursos.
Nesse cenário, a cooperação internacional aparece como uma das possibilidades para ampliar investimentos, tecnologia e capacidade industrial.
Brasil e China discutem cenário internacional
Além dos assuntos econômicos e tecnológicos, Celso Amorim e Wang Yi discutiram questões relacionadas ao cenário internacional.
A guerra entre Rússia e Ucrânia e as tensões no Oriente Médio estiveram entre os temas abordados. Os representantes também defenderam o diálogo e o multilateralismo como instrumentos para enfrentar conflitos e buscar soluções diplomáticas.
Outro assunto foi o papel do BRICS, grupo que reúne países de diferentes regiões e que passou por uma ampliação nos últimos anos. Brasil e China discutiram a possibilidade de o bloco atuar como espaço de diálogo entre seus integrantes e de articulação em temas internacionais.
A China assumiu a presidência do BRICS em 2026, o que aumenta a relevância da interlocução entre os dois países dentro do grupo.
Críticas a interferências em assuntos internos
Durante a reunião, Amorim e Wang Yi também condenaram tentativas de interferência em assuntos internos de outros países. A declaração ocorreu em um contexto de tensão diplomática envolvendo o governo brasileiro e os Estados Unidos.
A posição apresentada pelos representantes foi associada à defesa da soberania nacional e do princípio de não ingerência. A China mantém historicamente uma posição oficial de defesa da não interferência nos assuntos internos de outros Estados, enquanto o governo brasileiro também tem utilizado esse princípio em manifestações diplomáticas.
A discussão ganhou maior relevância diante das recentes divergências entre Brasília e Washington.
É importante, porém, separar a posição diplomática apresentada no encontro de interpretações sobre seus possíveis efeitos políticos. A reunião teve caráter oficial e tratou de diferentes temas da agenda bilateral e internacional.
Relação entre Brasil e China
A relação entre Brasil e China possui forte dimensão econômica e diplomática. A China é um dos principais parceiros comerciais do Brasil e ocupa posição importante nas exportações brasileiras.
Para Pequim, o Brasil também representa um parceiro relevante na América Latina e dentro das discussões envolvendo o chamado Sul Global.
Durante o encontro, Wang Yi afirmou que, sob a orientação dos presidentes Xi Jinping e Lula, as relações entre China e Brasil avançaram nos últimos anos. Segundo declaração divulgada pela agência estatal chinesa Xinhua e reproduzida por veículos de imprensa, o chanceler afirmou que os dois países passaram de uma parceria estratégica abrangente para uma relação descrita como uma “comunidade com um futuro compartilhado”.
A formulação utilizada pelo governo chinês reforça a intenção de manter a relação bilateral em um patamar considerado estratégico por Pequim.
Carta reforça continuidade da cooperação
A entrega da mensagem de Lula por Celso Amorim também funciona como um canal diplomático de alto nível entre os governos brasileiro e chinês.
Embora uma carta presidencial não represente, por si só, a assinatura de novos acordos, ela pode estabelecer prioridades para futuras negociações e orientar conversas entre autoridades dos dois países.
Nesse caso, os temas destacados apontam para áreas que devem continuar no centro da relação Brasil-China: tecnologia, inteligência artificial, minerais críticos, terras raras e desenvolvimento produtivo.
A discussão sobre agregação de valor aos minerais é especialmente relevante para o Brasil. O país busca ampliar sua participação em etapas industriais e tecnológicas das cadeias produtivas, reduzindo a dependência da exportação de recursos naturais sem processamento.
Um relacionamento que vai além do comércio
A agenda de Amorim em Pequim mostra que a relação entre Brasil e China ultrapassa as questões comerciais tradicionais.
Tecnologia, energia, indústria, recursos minerais, inteligência artificial e governança internacional passaram a fazer parte de uma relação cada vez mais ampla.
Ao mesmo tempo, os dois países possuem interesses próprios e nem sempre necessariamente coincidentes em todas as questões internacionais. A cooperação, portanto, envolve negociações contínuas e diferentes áreas de interesse.
O encontro de Celso Amorim com Wang Yi representa mais um capítulo dessa relação. A carta entregue ao governo chinês reforça a disposição brasileira de manter o diálogo direto com Pequim e buscar novas possibilidades de parceria.
Para os próximos meses, temas como inteligência artificial, minerais críticos e terras raras tendem a permanecer no centro das conversas entre Brasil e China, especialmente diante da crescente importância econômica e estratégica desses setores.
A mensagem de Lula a Xi Jinping, nesse contexto, sinaliza a intenção do governo brasileiro de aprofundar uma relação que envolve comércio, investimentos, tecnologia, diplomacia e desenvolvimento industrial. O resultado concreto dessas discussões dependerá das negociações futuras entre os dois governos, mas a reunião em Pequim já estabeleceu uma agenda ampla para a continuidade da cooperação bilateral.












