Travessia é mais do que o título do terceiro álbum de Nara Couto. Na obra, a cantora e compositora baiana transforma a música em uma espécie de ponte entre territórios separados pelo oceano, mas unidos por histórias, culturas, sonoridades e laços ancestrais. O primeiro volume do projeto chega aos aplicativos de áudio nesta sexta-feira (25), reunindo sete faixas que aproximam a Bahia de países africanos de língua portuguesa, especialmente Cabo Verde e Guiné-Bissau.

A ideia central do trabalho começou a ser apresentada ao público em 21 de agosto, quando Nara Couto lançou o single “Laço ancestral”, composição de Mateus Aleluia gravada em parceria com o artista bissau-guineense Mû Mbana. A música funciona como uma espécie de porta de entrada para o universo do álbum e apresenta, já em sua letra, uma frase que resume a proposta da obra: “O outro lado da Bahia vem da África”.

A afirmação ganha ainda mais força quando a canção incorpora instrumentos tradicionais africanos, como o simbi e o tonkorongh, ampliando a conexão entre as culturas por meio dos sons.

Uma travessia construída pelo Atlântico

Nascida em Salvador, criada no bairro da Liberdade e atualmente vivendo em São Paulo, Nara Couto carrega em sua trajetória diferentes experiências culturais brasileiras. Em “Travessia”, essas referências encontram novas possibilidades de diálogo com artistas africanos e de outras regiões que compartilham a língua portuguesa.

O resultado é um projeto que utiliza a música para olhar para o Atlântico não apenas como uma distância geográfica, mas como um espaço de encontros históricos.

A Bahia ocupa posição central nessa construção. O estado possui uma profunda relação histórica com diferentes povos africanos, especialmente em sua cultura, religiosidade, culinária, dança e música. Ao aproximar essas referências de artistas contemporâneos de Cabo Verde e Guiné-Bissau, Nara amplia o diálogo para além das fronteiras brasileiras.

“Travessia” sucede dois trabalhos importantes da carreira da cantora: “Retinta”, lançado em 2022, e “Ori”, de 2024. Se os projetos anteriores já apresentavam uma pesquisa voltada para identidade, ancestralidade e diversidade de sonoridades, o novo álbum aprofunda essa investigação por meio de uma perspectiva intercontinental.

Primeiro volume terá sete faixas

O primeiro volume de “Travessia” foi produzido musicalmente por Ndu Carlos, com coprodução de Otis Selimane e da própria Nara Couto em três das faixas.

A opção de dividir o álbum em dois volumes permite que a artista desenvolva sua proposta em etapas. O segundo volume está previsto para chegar ao público em 2027.

No primeiro capítulo dessa jornada estão sete músicas que percorrem diferentes caminhos da música de matriz africana e da produção contemporânea em língua portuguesa.

Além de Mû Mbana, Nara Couto convidou dois artistas de Cabo Verde para participar do projeto. Kady aparece em “Herança sagrada”, composição assinada por Nara em parceria com François Muleka.

A faixa amplia a ideia de ancestralidade presente em todo o álbum e estabelece uma conexão direta entre a artista baiana e a música cabo-verdiana.

Outro representante de Cabo Verde no projeto é Zidi Andrade, autor e convidado de “Djunto”. A participação reforça a proposta de construir um repertório marcado pela colaboração entre artistas de diferentes territórios.

Bahia também está representada

Embora a proposta de “Travessia” atravesse o oceano, a Bahia permanece como um dos principais pontos de partida do álbum.

Um dos encontros brasileiros presentes no primeiro volume acontece em “Promessa”, música que reúne Nara Couto e o também baiano Tiganá Santana. A composição é assinada por Nara em parceria com Sued Nunes.

A colaboração aproxima duas trajetórias que têm em comum a pesquisa de sonoridades ligadas à ancestralidade e à identidade afro-brasileira.

Nesse sentido, “Travessia” não apresenta a África como uma referência distante ou meramente estética. O projeto procura estabelecer relações contemporâneas entre artistas que compartilham elementos históricos, culturais e linguísticos.

A presença de músicos de diferentes países também permite que cada faixa tenha uma identidade própria, sem abandonar o conceito que conecta todo o álbum.

Música como instrumento de memória

Entre as características mais marcantes do trabalho está a utilização da música como ferramenta de memória.

A expressão “laço ancestral”, presente no primeiro single, ajuda a explicar o caminho escolhido por Nara. A artista parte da compreensão de que as relações entre Bahia e África não pertencem apenas ao passado. Elas continuam presentes em manifestações culturais, palavras, ritmos, crenças, costumes e formas de expressão.

Ao colocar diferentes artistas em diálogo, “Travessia” transforma essa memória em criação contemporânea.

A escolha de repertório e convidados também evidencia a importância da língua portuguesa como elemento de aproximação. Bahia, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Portugal aparecem conectados por uma mesma língua, ainda que cada território tenha desenvolvido suas próprias identidades, sotaques, ritmos e tradições.

É justamente essa diversidade dentro de uma mesma comunidade linguística que o álbum explora.

Portugal aparece na rota do álbum

A música “Si ma bô” acrescenta mais uma parada à viagem proposta por Nara Couto.

A faixa é assinada por Ricardo Alves, Ricardo Quintas e Nara Couto e estabelece uma conexão com Portugal, país de origem dos parceiros envolvidos na composição.

Com isso, a trajetória de “Travessia” não se limita a uma ligação direta entre Bahia e África. Portugal também entra no percurso, formando uma espécie de triângulo cultural construído a partir da língua portuguesa e de diferentes histórias conectadas pelo Atlântico.

O álbum, portanto, utiliza a música para estabelecer conversas entre lugares que possuem trajetórias distintas, mas que também compartilham vínculos históricos.

Repertório reúne diferentes gerações e territórios

Além das parcerias internacionais, o repertório inclui “Mindjer doce mel”, de Admir Lopes e Mimito, e “Preta portê”, composição de Rafael Mike e Lucas Ramaciotti.

As duas músicas completam a seleção de sete faixas do primeiro volume e ajudam a ampliar a diversidade sonora do projeto.

A construção do álbum demonstra uma preocupação em reunir diferentes artistas e perspectivas em torno de uma mesma ideia. Em vez de apresentar uma única interpretação sobre ancestralidade, Nara Couto cria um espaço para que diferentes vozes participem da narrativa.

Esse aspecto é importante para compreender o título “Travessia”. A viagem apresentada pela artista não possui apenas um destino. Ela acontece em várias direções, conectando memórias, territórios e experiências.

Um álbum que olha para o passado sem deixar de ser contemporâneo

O projeto também chama atenção por tratar da ancestralidade sem transformar o passado em algo distante.

As músicas são produzidas dentro de uma linguagem contemporânea e dialogam com diferentes vertentes da música brasileira e africana. A presença de instrumentos tradicionais, por exemplo, convive com uma produção musical atual.

Essa combinação permite que referências históricas sejam apresentadas a novos públicos sem perder sua identidade.

Para Nara Couto, a travessia proposta pelo álbum representa também uma forma de reconhecer as origens e compreender como diferentes culturas continuam influenciando a criação artística no presente.

“Travessia” terá continuidade em 2027

O lançamento desta sexta-feira marca apenas a primeira parte do projeto. O segundo volume do álbum está previsto para 2027, dando continuidade à pesquisa musical iniciada pela cantora.

A divisão da obra em dois capítulos permite que a artista desenvolva gradualmente as conexões apresentadas no projeto e amplie a rota musical construída a partir da Bahia.

Enquanto o segundo volume não chega, “Travessia vol. 1” apresenta ao público sete faixas que atravessam fronteiras e aproximam artistas de diferentes países.

Mais do que uma coleção de músicas, o projeto se apresenta como uma experiência de encontro. A Bahia aparece como ponto de partida, mas a narrativa se expande pelo Atlântico, alcançando Cabo Verde, Guiné-Bissau e Portugal.

Com “Laço ancestral”, Mû Mbana, Kady, Zidi Andrade, Tiganá Santana e os demais participantes, Nara Couto constrói uma obra que transforma memória em som e distância em conexão.

Em tempos de fronteiras cada vez mais marcadas, “Travessia” escolhe justamente o caminho contrário: aproximar. A partir da música, o álbum mostra que o oceano que separa territórios também pode ser compreendido como espaço de encontro, circulação e continuidade cultural.

O primeiro volume chega às plataformas digitais nesta sexta-feira (25), dando início a uma nova etapa na trajetória de Nara Couto e reforçando sua pesquisa sobre identidade, ancestralidade e as múltiplas formas de diálogo entre a Bahia e o mundo de língua portuguesa.