Carly Rae Jepsen chegou aos 40 anos com uma certeza que nem sempre acompanha artistas que alcançaram o sucesso mundial: ela não precisa estar no topo absoluto da indústria pop para se sentir realizada. Quase duas décadas depois do fenômeno “Call Me Maybe”, a cantora canadense afirma ter encontrado um ponto de equilíbrio entre música, reconhecimento, vida pessoal e liberdade.

A própria artista já foi descrita como integrante da chamada “classe média do pop”, expressão utilizada pelo New York Times em uma reportagem publicada em 2023. O rótulo faz referência a uma posição curiosa dentro da indústria: Carly é conhecida mundialmente, possui uma carreira consolidada e uma base de fãs fiel, mas não vive sob o mesmo nível de exposição permanente das maiores estrelas do pop.

Para ela, porém, essa condição está longe de ser um problema. Pelo contrário. Carly considera que encontrou exatamente o espaço que precisava para continuar produzindo música sem abrir mão de uma vida pessoal mais reservada.

“Encontrei para mim o ponto ideal de poder fazer a música que eu amo, ser capaz de viajar com ela e ter uma família e uma vida fora disso também”, afirmou a cantora em entrevista ao g1 antes do lançamento de seu novo álbum.

Uma carreira construída além de um único sucesso

Embora muitas pessoas ainda associem Carly Rae Jepsen imediatamente a “Call Me Maybe”, lançada em 2011, a trajetória da artista foi muito além do enorme sucesso comercial da música.

Ao longo dos anos, Carly construiu uma discografia marcada por melodias pop elaboradas, letras sobre relacionamentos, descobertas pessoais, desejos e diferentes fases da vida. Essa característica fez com que ela conquistasse uma comunidade particularmente fiel de admiradores.

É justamente essa relação com o público que parece ter se tornado um dos pilares de sua carreira.

Carly afirma que não se imagina vivendo em um patamar de fama no qual todos os aspectos de sua vida sejam constantemente observados. Para ela, uma exposição excessiva poderia acabar ocupando o espaço que deveria pertencer à música.

A cantora também ressalta que não critica quem escolhe viver sob os holofotes. Sua percepção é pessoal e está diretamente relacionada ao tipo de vida que deseja construir.

“Para mim, esse equilíbrio é crucial para a minha longevidade”, explicou.

Segundo Carly, o conceito de sucesso também mudou ao longo de sua trajetória. Depois de experimentar a dimensão mundial alcançada por “Call Me Maybe”, ela passou a entender que sucesso não precisa necessariamente significar fama crescente ou exposição permanente.

Para a artista, poder viajar pelo mundo, apresentar suas músicas e, ao mesmo tempo, preservar uma vida familiar representa uma conquista.

‘Day and Night’ reúne duas facetas da cantora

Essa visão aparece também em “Day and Night”, novo álbum lançado nesta sexta-feira (18). O projeto reúne 24 faixas e representa uma nova maneira de Carly organizar sua produção musical.

Nos últimos trabalhos, a cantora havia adotado o conceito de dividir os projetos em “lado A” e “lado B”, lançados em momentos diferentes. Desta vez, decidiu colocar as duas partes juntas.

O resultado é um álbum que transita entre momentos mais confessionais e faixas voltadas para a pista de dança.

Carly explica que cada música encontrou uma razão para fazer parte do projeto. Em vez de criar uma experiência necessariamente linear, ela procurou construir dois ambientes que pudessem coexistir.

A ideia é que o ouvinte possa entrar nesse universo aos poucos, escolhendo diferentes momentos para ouvir o disco.

A cantora também buscou inspiração em artistas de diferentes gerações. Entre as referências estão Minnie Riperton, o grupo ABBA e a cantora de jazz Blossom Dearie.

A escolha mostra uma característica importante de Carly: sua relação com a música não está limitada ao que é lançado atualmente. Ela também procura referências em obras antigas que permaneceram relevantes com o passar do tempo.

“Quando eu exploro música, eu não vou apenas atrás do que é novo”, explicou.

Maternidade transformou a rotina da artista

“Day and Night” também chega em um momento particularmente importante da vida pessoal de Carly Rae Jepsen.

A cantora se casou em 2025 com o produtor Cole MGN, que também colaborou na produção do novo álbum. Em março de 2026, o casal recebeu o primeiro filho, Ilya.

A maternidade passou a ocupar um espaço central na rotina da artista. Carly conta que grande parte do álbum já estava concluída antes do nascimento do bebê, mas reconhece que algumas das músicas carregam elementos relacionados ao desejo de construir uma família.

Por isso, ela considera o disco um registro especial do momento que vive.

A nova rotina também mudou completamente a organização dos dias. Segundo Carly, tudo passou a ser planejado em torno do filho, enquanto ela e o marido tentam conciliar os cuidados com a criança e os compromissos profissionais.

A cantora destaca a importância do apoio de Cole MGN nesse processo.

Apesar das mudanças, Carly demonstra entusiasmo com a nova etapa. O álbum, nesse sentido, funciona não apenas como mais um capítulo musical, mas também como uma espécie de retrato de uma fase marcada pela família, pela maturidade e por novas prioridades.

Brasil ocupa lugar especial nas lembranças

Entre as memórias recentes mais queridas de Carly está a passagem pelo Brasil em 2023.

Naquele ano, a cantora participou do Primavera Sound São Paulo e também realizou um show solo no Rio de Janeiro. A experiência, segundo ela, está entre as melhores viagens de sua vida.

Carly lembra especialmente da relação estabelecida com o público brasileiro. Para uma artista que valoriza profundamente a conexão com fãs apaixonados por música, a recepção encontrada no país teve um significado especial.

Ela conta que se sentiu livre durante a viagem e cercada por pessoas que compartilhavam sua paixão pela música.

A experiência também ultrapassou os palcos. Com a ajuda de um segurança que acompanhava a equipe, Carly conheceu lugares menos turísticos e viveu experiências que dificilmente fariam parte de uma agenda tradicional de celebridade.

Entre elas esteve uma aventura de parapente no Rio de Janeiro.

Mesmo admitindo ter medo de altura, a cantora decidiu encarar o desafio. A experiência, segundo ela, foi surreal e representou a realização de algo que sempre teve vontade de fazer.

Mas a passagem pelo Brasil não terminou nas praias e nos esportes radicais. Carly também conta que teve contato com a vida noturna e chegou a participar de momentos de dança.

Entre as lembranças está uma experiência que sugere até mesmo um contato com o forró brasileiro.

Uma artista confortável com seu próprio caminho

A história de Carly Rae Jepsen ajuda a mostrar que a trajetória de um artista não precisa seguir necessariamente uma única fórmula de sucesso.

Depois de alcançar fama mundial com “Call Me Maybe”, ela poderia ter buscado constantemente ampliar sua exposição. Em vez disso, escolheu construir uma carreira baseada em música, público e liberdade pessoal.

Hoje, aos 40 anos, Carly parece confortável com essa decisão.

“Day and Night” chega justamente nesse contexto: um trabalho extenso, dividido conceitualmente entre diferentes atmosferas e criado em um momento de profundas transformações pessoais.

Entre a maternidade, o casamento, as viagens e a música, Carly encontrou uma definição própria para o sucesso.

E talvez seja justamente essa tranquilidade que permita que sua carreira continue avançando sem a necessidade de seguir os padrões tradicionais da indústria pop. Para uma artista que construiu uma comunidade fiel ao redor de suas canções, permanecer próxima do público e continuar fazendo a música que ama parece ser, neste momento, mais importante do que ocupar qualquer ranking de celebridade.