Pitty está de volta ao território do rock pesado, urgente e provocador com “Sobremesa”, primeiro aperitivo de seu sexto álbum solo de estúdio. Lançado nesta sexta-feira (18), o single chega cercado de expectativa para o novo trabalho da cantora, previsto para 16 de outubro, mas também provoca uma sensação de familiaridade para quem acompanha de perto a trajetória da artista.

Musicalmente, “Sobremesa” não economiza energia. A faixa aposta em guitarras fortes, bateria marcada e uma interpretação vocal que mantém a atitude característica de Pitty. A guitarra de Martin Mendonça e a bateria de Nico ajudam a construir uma sonoridade encorpada, enquanto a produção musical fica sob responsabilidade de Rafael Ramos, em parceria com a própria cantora.

O resultado é uma música que funciona muito bem quando analisada individualmente. É direta, provocadora e tem um refrão que rapidamente se encaixa na estrutura da composição.

Ao mesmo tempo, quando colocada dentro da discografia de Pitty, a faixa levanta uma questão inevitável: onde está a novidade?

Um rock que chega com força

“Sobremesa” apresenta uma Pitty confortável dentro de uma linguagem que o público conhece há mais de duas décadas.

A música tem riffs marcantes, bateria firme e uma construção que privilegia a força do rock tradicional. A produção evita excessos e deixa os instrumentos ocuparem um espaço importante na gravação.

A letra segue o tom provocador que acompanha boa parte da carreira da cantora. A metáfora da comida é utilizada para falar de desejo, intensidade e disposição para viver experiências sem aceitar situações mornas.

Versos como “Aquele alvoroço na hora da fome” e “Não vou segurar mais nada que seja morno” reforçam essa atmosfera.

No refrão, a música assume uma postura ainda mais direta e transforma a metáfora em uma declaração de atitude.

É uma composição que conversa com a personalidade artística construída por Pitty desde o início da carreira.

A força de Martin Mendonça e Nico

Um dos destaques da gravação está na instrumentação.

A guitarra de Martin Mendonça aparece com peso e personalidade, contribuindo para que “Sobremesa” tenha a densidade necessária para sustentar a proposta da faixa.

A bateria de Nico também exerce papel fundamental. A marcação firme conduz a música e cria uma sensação de urgência que combina com a interpretação vocal de Pitty.

O baixo de Paulo Kishimoto completa a estrutura instrumental.

A produção de Rafael Ramos, feita em parceria com Pitty, procura preservar justamente essa característica mais crua e energética.

A faixa foi mixada por Rafael Ramos no Estúdio Tambor, no Rio de Janeiro, e masterizada por Randy Merrill no Sterling Sound, nos Estados Unidos.

Tecnicamente, portanto, “Sobremesa” apresenta uma produção cuidadosa e compatível com a dimensão de um lançamento de uma artista que possui longa experiência no mercado musical.

A comparação inevitável com “Matriz”

É justamente quando “Sobremesa” é comparada com o trabalho anterior que surge a principal ressalva sobre o lançamento.

Em 2019, Pitty lançou “Matriz”, álbum que representou uma mudança importante em sua trajetória.

Naquele trabalho, a cantora ampliou suas referências e aproximou o rock de elementos ligados à cultura e à música da Bahia, sua terra natal.

“Matriz” mostrou uma artista disposta a experimentar novas possibilidades sem abandonar completamente a identidade construída ao longo dos anos.

A proposta fazia com que cada faixa apresentasse uma sensação de descoberta.

“Sobremesa”, por outro lado, parece caminhar em direção contrária.

A música retoma com bastante intensidade uma sonoridade que Pitty domina há muito tempo. Isso não significa que o single seja fraco. Pelo contrário: a composição funciona, a produção é eficiente e a interpretação mantém a personalidade da cantora.

A questão está justamente na sensação de repetição.

Quando qualidade e novidade não caminham juntas

Existe uma diferença importante entre uma música ser boa e uma música apresentar algo novo.

“Sobremesa” consegue entregar um rock competente, pesado e com refrão memorável. Para quem gosta da fase mais tradicional de Pitty, a faixa pode representar exatamente o que estava esperando.

Mas, considerando a evolução artística da cantora, o single deixa uma impressão de retorno a uma fórmula já conhecida.

É como se a artista tivesse encontrado novamente uma estrada que conhece muito bem depois de ter experimentado caminhos diferentes.

Esse movimento pode ser intencional.

Um artista com mais de 20 anos de carreira não precisa necessariamente reinventar sua sonoridade a cada lançamento. Também existe valor em retornar às próprias raízes e apresentar ao público uma música que dialogue diretamente com sua identidade.

O desafio é fazer esse retorno parecer uma escolha artística atual, e não simplesmente uma repetição do passado.

Uma letra que combina com a personalidade da cantora

Se existe algo que “Sobremesa” mantém intacto, é a atitude.

A letra trabalha com desejo, intensidade e liberdade de maneira direta. A metáfora da comida aparece como uma forma de falar sobre experiências que não devem ser vividas pela metade.

A própria escolha do título já cria uma provocação.

A música sugere que não é preciso seguir necessariamente a ordem esperada. A ideia de pular etapas e ir diretamente à “sobremesa” funciona como metáfora para uma postura mais impulsiva e determinada diante da vida.

Essa característica aproxima a nova composição da imagem que Pitty construiu ao longo da carreira.

Desde os primeiros trabalhos, a cantora ficou conhecida por letras que misturam força, questionamento e uma atitude pouco disposta a aceitar convenções.

Em “Sobremesa”, essa personalidade continua presente.

Uma carreira construída sobre identidade

Pitty surgiu nacionalmente com “Admirável Chip Novo”, lançado em 2003.

O álbum marcou uma geração e transformou a cantora em um dos principais nomes do rock brasileiro dos anos 2000.

Ao longo dos anos seguintes, ela construiu uma discografia marcada por diferentes fases, experimentações e mudanças de linguagem.

Essa trajetória torna qualquer novo lançamento especialmente interessante.

O público não escuta apenas uma música isolada. Existe uma história por trás dela.

É justamente por isso que “Sobremesa” provoca uma avaliação dupla.

Como faixa independente, entrega um rock forte e bem produzido.

Como primeiro contato com um novo álbum, entretanto, poderia apresentar mais elementos capazes de indicar uma nova direção artística.

O que esperar do álbum “Pitty”

O single funciona como primeiro contato com o sexto álbum solo de estúdio da cantora, que será lançado em 16 de outubro.

Por isso, ainda é cedo para concluir qual será a identidade completa do projeto.

Um primeiro single não necessariamente representa todas as possibilidades exploradas em um álbum. A faixa pode funcionar justamente como uma porta de entrada para um trabalho que apresente outras sonoridades, temas e experiências.

A expectativa, portanto, fica concentrada nas próximas músicas.

Se “Sobremesa” representa o lado mais direto e pesado do novo disco, outras faixas poderão revelar se Pitty pretende continuar nessa direção ou novamente ampliar seus horizontes musicais.

Rock para quem sente falta da velha Pitty

Apesar das ressalvas, “Sobremesa” tem um mérito evidente: ela não tenta esconder quem é Pitty.

A cantora entrega uma música com guitarras fortes, bateria presente, refrão marcante e uma letra carregada de atitude.

Para os fãs que acompanharam sua carreira desde “Admirável Chip Novo”, existe algo familiar e confortável na faixa.

Talvez esse seja justamente o objetivo.

Depois das experimentações de “Matriz”, Pitty pode estar escolhendo voltar ao rock mais direto para iniciar uma nova etapa.

O resultado, por enquanto, é uma música que funciona melhor pelo que entrega do que pelo que apresenta de novo.

“Sobremesa” é saborosa, intensa e suficientemente forte para despertar o apetite pelo álbum de outubro. Falta, porém, aquele ingrediente capaz de provocar surpresa e fazer o ouvinte pensar que está diante de uma Pitty que ainda não conhecia.

Mas há tempo para descobrir.

O verdadeiro banquete ainda será servido em 16 de outubro. E, até lá, “Sobremesa” cumpre sua função: abre o apetite, reafirma a identidade de uma das principais vozes do rock brasileiro e deixa no ar a pergunta sobre quais sabores a cantora ainda guarda para o restante do novo álbum.