O nome de Ney Matogrosso atravessa gerações e continua associado a uma ideia de liberdade que ultrapassa a música. Aos 85 anos, completados em agosto, o cantor, ator e intérprete é homenageado em diferentes partes do Brasil e também fora do país, em uma sequência de tributos que evidencia a força de sua obra e o impacto de uma trajetória artística construída ao longo de mais de cinco décadas.
Uma das próximas homenagens acontecerá no domingo, 27 de setembro, às 18h, nos Arcos da Lapa, um dos cartões-postais do centro do Rio de Janeiro. Pela primeira vez, seis cantoras de diferentes trajetórias estarão juntas no mesmo palco para celebrar a obra do artista.
Juliana Linhares, Linn da Quebrada, MC Tha, Melly, Tássia Reis e Xênia França participam do espetáculo “Eu prefiro ser – Uma homenagem a Ney Matogrosso”. O encontro integra a programação da Semana de Arte do Rio e encerra a programação do festival promovido pelo Solar em homenagem ao cantor.
A apresentação também está relacionada à exposição dedicada a Ney Matogrosso, em cartaz desde junho. O espetáculo reúne diferentes gerações e linguagens musicais em torno de um artista cuja influência permanece presente muito além dos discos.
Uma homenagem que faz parte de uma sequência
O tributo programado para os Arcos da Lapa chama atenção pela reunião inédita das seis cantoras, mas está longe de ser uma iniciativa isolada.
Ao longo de 2026, diferentes artistas e segmentos culturais têm encontrado maneiras próprias de revisitar a obra e a estética de Ney Matogrosso. São shows, desfiles, performances e manifestações artísticas que apresentam novas interpretações para um repertório que há décadas faz parte da cultura brasileira.
A sequência começou ainda no Carnaval.
Em fevereiro, duas semanas antes da estreia, em São Paulo, do espetáculo do cantor e ator Fitti, que apresenta um show dedicado ao repertório de Ney com uma abordagem marcada pela teatralidade, a escola de samba Imperatriz Leopoldinense levou às ruas do Rio de Janeiro o enredo “Camaleônico”, construído em reverência ao artista.
A homenagem carnavalesca colocou a trajetória de Ney no centro de uma das maiores manifestações culturais do país.
Tributos também atravessaram o Atlântico
A influência de Ney Matogrosso não ficou restrita ao território brasileiro.
Em junho, o cantor César Soares abriu a temporada de verão da Casa da Música, na cidade do Porto, em Portugal, com uma apresentação dedicada ao repertório do artista brasileiro.
O tributo mostrou que a obra de Ney também encontra espaço fora do Brasil e continua despertando interesse de artistas que enxergam em sua música e em sua presença de palco elementos capazes de dialogar com diferentes públicos.
Em julho, foi a vez do cantor Gustavus apresentar “Eu bandoleiro – Um tributo a Ney Matogrosso” no teatro do Sesc de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul.
O título escolhido para o espetáculo remete a uma das facetas mais marcantes da obra de Ney: a liberdade de transitar por diferentes estilos, personagens e possibilidades artísticas sem se prender a padrões previamente estabelecidos.
Ney também inspira outras linguagens
As homenagens de 2026 não ficaram concentradas no universo da música.
Em agosto, mês em que Ney completou 85 anos, a ginasta Flávia Soares apresentou sua série solo para a temporada de 2026 com uma coreografia inspirada em “Homem com H”, composição de Antônio Barros lançada originalmente em 1974 e posteriormente regravada por Ney, tornando-se um dos grandes sucessos associados à carreira do cantor.
A escolha da música para uma apresentação esportiva mostra como a presença artística de Ney pode ultrapassar os limites do palco.
A interpretação corporal, a teatralidade e a força cênica presentes em sua trajetória também podem ser traduzidas por outras formas de expressão.
Já em setembro, o ator e cantor Fabiano Medeiros reapresentou, em São José dos Campos, no interior de São Paulo, o espetáculo “Pura alquimia”. O trabalho percorre algumas cidades brasileiras desde 2025 e busca celebrar a estética libertária associada a Ney em uma atmosfera psicodélica.
São manifestações diferentes, realizadas por artistas de áreas distintas, mas conectadas por uma mesma referência.
Uma carreira construída sobre a liberdade
A quantidade de homenagens recebidas por Ney Matogrosso ajuda a explicar a dimensão de sua influência.
Desde o início da carreira, o artista construiu uma identidade que desafiou expectativas sobre como um cantor deveria se apresentar no palco. Figurinos, maquiagem, movimentos corporais, interpretação e escolhas musicais fizeram parte de uma linguagem artística própria.
Ney nunca se limitou a ser apenas um intérprete. Sua apresentação sempre esteve ligada à performance.
Essa característica fez com que sua presença nos palcos se tornasse tão importante quanto as gravações. Em muitos momentos de sua carreira, o público não foi ao show apenas para ouvir determinadas músicas, mas para acompanhar a experiência visual e cênica construída pelo artista.
Essa relação com o palco ajudou a transformar Ney em uma referência para artistas que vieram depois.
Uma inspiração para novas gerações
A influência de Ney Matogrosso também pode ser percebida na diversidade dos artistas que prestam homenagens à sua trajetória.
Entre os nomes envolvidos nos tributos estão músicos de diferentes gerações e estilos, além de artistas ligados a outras expressões culturais.
Parte dessas homenagens também surge entre artistas associados ao universo LGBTQIA+, grupo que historicamente encontrou na postura de Ney uma referência de liberdade de expressão e de ruptura com padrões sociais.
Sua trajetória foi construída em um período em que determinadas manifestações de identidade e comportamento enfrentavam forte resistência social. Ainda assim, Ney escolheu desenvolver uma carreira fiel à sua personalidade artística.
Essa postura ajudou a fazer com que sua imagem ultrapassasse a dimensão musical.
Para muitos admiradores, Ney representa a possibilidade de existir artisticamente sem abrir mão da própria individualidade.
“Homem com H” e outras marcas de uma obra singular
O repertório de Ney Matogrosso também contribuiu para consolidar essa imagem.
Canções como “Homem com H” se tornaram marcas de uma discografia extensa, que atravessou diferentes fases da música brasileira. Ao longo dos anos, o cantor interpretou obras de compositores variados e transitou por gêneros e sonoridades distintas.
Sua capacidade de transformar cada música em uma experiência interpretativa foi um dos elementos que ajudaram a diferenciá-lo.
Em “Bandolero”, composição de Luhli e Lucina gravada no álbum “Feitiço”, de 1978, aparece outra dimensão frequentemente associada à trajetória do artista: a ideia de liberdade, movimento, fantasia e transformação.
Esses elementos ajudam a compreender por que sua obra continua sendo revisitada décadas depois de suas primeiras apresentações.
Uma lenda que prefere a naturalidade
Aos 85 anos, Ney Matogrosso ocupa um lugar singular na história da música popular brasileira.
Embora seja frequentemente tratado como uma lenda viva da MPB, o artista mantém uma relação aparentemente distante da imagem tradicional de celebridade. Sua trajetória é marcada por uma postura que privilegia a arte e a presença em cena.
Essa característica também ajuda a explicar a permanência de seu trabalho.
Ney não precisou abandonar sua identidade para acompanhar mudanças de época. Ao contrário, foi justamente sua capacidade de permanecer fiel à própria linguagem que permitiu que diferentes gerações encontrassem novos significados em sua obra.
O artista que continua provocando
Mais de cinco décadas depois do início de sua carreira, Ney Matogrosso continua sendo lembrado, reinterpretado e homenageado.
Os tributos realizados em 2026 mostram que sua influência não pertence apenas ao passado. Ela continua sendo reconstruída por artistas que nasceram em diferentes períodos e que encontram na obra do cantor novas possibilidades de expressão.
O espetáculo “Eu prefiro ser”, no Rio de Janeiro, será mais um capítulo dessa história. Ao reunir seis cantoras pela primeira vez, a apresentação também demonstra como o legado de Ney pode ganhar novas vozes sem perder a essência que o tornou reconhecido.
No fim, talvez seja justamente essa a maior marca de sua trajetória: Ney Matogrosso nunca precisou seguir um único caminho.
Sua carreira foi construída sobre a liberdade de experimentar, mudar, provocar, interpretar e existir em seus próprios termos. E é essa liberdade que continua chegando a novas gerações.
Por isso, os tributos se multiplicam. Porque, para muitos artistas e admiradores, Ney Matogrosso não é apenas alguém cuja música merece ser lembrada.
É um símbolo de que a arte também pode ser uma forma de liberdade.















