Uma viagem pelo interior do Maranhão mostrou como empreendedorismo, cultura, memória e geração de renda podem caminhar lado a lado na preservação das tradições quilombolas. Nesta segunda-feira (28), uma comitiva do Sebrae Nacional e do Sebrae Maranhão visitou as comunidades quilombolas de Itamatatiua, em Alcântara, e Frechal, em Mirinzal, conhecendo iniciativas que transformam histórias de resistência em oportunidades para as novas gerações.

A agenda começou pelas águas da Baía de São Marcos, com destino a Alcântara. Na Comunidade Quilombola de Itamatatiua, a comitiva foi recebida pelo som dos tambores das Caixeiras de Santa Tereza. O acolhimento revelou, logo nos primeiros momentos, a força de uma tradição que permanece viva e que encontrou no empreendedorismo uma forma de continuar sendo transmitida.

Participaram da visita o presidente do Sebrae Nacional, Rodrigo Soares; o diretor-superintendente do Sebrae Maranhão, Albertino Leal; o gerente adjunto de Empreendedorismo Feminino, Diversidade e Inclusão do Sebrae Nacional, Eraldo Ricardo; o gerente de Comunicação do Sebrae Maranhão, João Torres; a gerente da unidade de Ambiente de Negócios, Larissa Leite; e a gerente da unidade de Gestão Estratégica, Cristiane Corrêa.

Tradição que se transforma em renda

Depois da recepção musical, a comitiva conheceu o Museu Quilombola de Itamatatiua, espaço dedicado à preservação da memória e da identidade da comunidade. Em seguida, os visitantes acompanharam o trabalho realizado no Centro de Produção de Cerâmica, onde artesãs apresentaram cada etapa da produção, desde o preparo da argila até a criação das peças.

O artesanato produzido no local representa mais do que uma atividade econômica. O barro carrega histórias, conhecimentos transmitidos entre gerações e a identidade de mulheres que transformaram uma tradição ancestral em fonte de renda para suas famílias.

A liderança comunitária dona Neide de Jesus foi responsável pela acolhida e destacou a transformação vivenciada pela comunidade ao longo dos anos.

Segundo ela, a parceria com o Sebrae contribuiu para ampliar a estrutura disponível e criar novas possibilidades para os moradores.

A relação entre o Sebrae e as artesãs de Itamatatiua já ultrapassa três décadas. A maioria das produtoras atendidas é formada por mulheres quilombolas que participam de iniciativas voltadas ao desenvolvimento do empreendedorismo e à valorização da produção local.

Estrutura para fortalecer o artesanato

O apoio oferecido pelo Sebrae alcançou diferentes áreas da cadeia produtiva. O Centro de Produção de Artesanato foi reformado e ampliado, passando a contar com novos fornos, tanques e equipamentos utilizados no preparo da argila.

Também foram instaladas bancadas e melhorias na iluminação, além da organização dos ambientes destinados à produção, secagem e exposição das peças.

A loja da comunidade também passou por uma reestruturação, com o objetivo de oferecer maior visibilidade aos produtos e melhorar as condições de comercialização.

Além da infraestrutura, as artesãs receberam capacitações e consultorias voltadas à melhoria da qualidade dos produtos, diversificação da produção, gestão e sustentabilidade dos negócios.

Com o fortalecimento da estrutura e da capacitação, o artesanato produzido em Itamatatiua passou a ocupar novos espaços de comercialização. As peças foram apresentadas em eventos como a Feira do Empreendedor 2026, em São Luís, a Feira Inova Agro, em Pinheiro, e a Feira dos Empreendedores de Alcântara.

Para o presidente do Sebrae Nacional, Rodrigo Soares, iniciativas como essa mostram a importância da atuação conjunta entre instituições públicas e comunidades.

O objetivo, segundo ele, é contribuir para a melhoria do ambiente de negócios e criar condições para que a população tenha acesso a oportunidades capazes de gerar renda e melhorar a qualidade de vida.

Liderança comunitária como força de transformação

O diretor-superintendente do Sebrae Maranhão, Albertino Leal, destacou o papel das lideranças locais na construção dos resultados alcançados em Itamatatiua.

Para ele, o trabalho desenvolvido na comunidade demonstra que projetos de desenvolvimento podem produzir efeitos mais amplos quando encontram pessoas dispostas a conduzir e fortalecer as iniciativas.

A transformação também pode ser percebida na integração entre diferentes áreas. O museu preserva a memória da comunidade, a produção artesanal movimenta a economia, a música tradicional mantém vivas manifestações culturais e novas ferramentas de comercialização ampliam o alcance dos produtos.

A presença da universidade, melhorias na infraestrutura e a possibilidade de vendas pela internet também fazem parte desse processo.

Dessa forma, o desenvolvimento econômico não aparece separado da cultura. Pelo contrário: as tradições passam a ser valorizadas como parte da identidade e também como elemento capaz de gerar oportunidades.

Frechal ganha primeira Sala do Empreendedor Quilombola do Brasil

A agenda do Sebrae seguiu durante a tarde no Quilombo Frechal, em Mirinzal. No local, um prédio que no passado esteve relacionado à luta pela terra ganhou uma nova função: tornou-se a primeira Sala do Empreendedor Quilombola do Brasil.

O espaço é resultado de uma parceria entre o Sebrae Maranhão, a Prefeitura de Mirinzal e o Governo do Estado.

A agente de desenvolvimento Joselene de Jesus apresentou a estrutura à comitiva. Filha do Quilombo Frechal e parceira do Sebrae desde 2011, ela explicou que a Sala foi planejada para oferecer atendimento a produtores e associados da comunidade.

A iniciativa pretende aproximar os moradores de serviços, informações e oportunidades relacionadas ao empreendedorismo, facilitando o acesso a orientações que podem contribuir para a formalização e o desenvolvimento de pequenos negócios.

Para o prefeito de Mirinzal, Deyvison do Posto, a instalação da Sala representa mais um capítulo na história do território.

O espaço passa a simbolizar uma nova etapa para uma comunidade marcada por uma trajetória de luta e resistência, agora incorporando também ferramentas voltadas ao desenvolvimento econômico.

Mulheres no centro do empreendedorismo

Outro momento importante da visita ocorreu com a entrega dos kits do programa Força Mulher. A iniciativa vai atender 20 mulheres do Quilombo Frechal.

A partir de outubro, as participantes iniciarão um curso de ofício voltado à produção de doces e salgados.

A proposta ganha um significado especial dentro da comunidade, onde as mulheres tiveram participação histórica na organização e na luta pelo território.

Joselene de Jesus ressaltou que foram elas que ajudaram a construir caminhos e tomar decisões importantes ao longo da trajetória de Frechal.

Por isso, a capacitação representa não apenas uma oportunidade de aprendizado profissional, mas também uma forma de fortalecer o protagonismo feminino dentro da própria comunidade.

O gerente adjunto de Empreendedorismo Feminino, Diversidade e Inclusão do Sebrae Nacional, Eraldo Ricardo, destacou a importância de garantir conhecimento e oportunidades para mulheres quilombolas.

A expectativa é que a capacitação possa contribuir para o surgimento ou fortalecimento de atividades que gerem renda e movimentem a economia local.

Cultura e desenvolvimento caminham juntos

A visita foi encerrada ao som do tambor de crioula, uma das manifestações culturais afro-brasileiras mais tradicionais do Maranhão.

O encerramento reforçou a mensagem presente durante toda a agenda: desenvolvimento econômico e preservação cultural podem fazer parte de um mesmo projeto.

Em Itamatatiua, o barro utilizado pelas artesãs representa uma tradição transformada em produto e oportunidade de renda. Em Frechal, uma estrutura ligada à história da luta pela terra passou a abrigar um espaço dedicado ao empreendedorismo.

Em ambos os territórios, as comunidades permanecem como protagonistas das próprias histórias.

O trabalho desenvolvido pelo Sebrae busca oferecer ferramentas para que essas iniciativas possam se fortalecer sem perder a identidade que as torna únicas.

Mais do que levar capacitação ou melhorar estruturas, a presença da instituição representa uma tentativa de aproximar políticas de desenvolvimento das realidades vivenciadas pelas comunidades.

No Maranhão, onde a cultura quilombola possui forte presença e importância histórica, experiências como as de Itamatatiua e Frechal mostram que preservar o passado não significa deixar de construir o futuro.

Ao contrário, quando conhecimento tradicional, organização comunitária, empreendedorismo e acesso a novos mercados se encontram, a história pode continuar sendo escrita pelas próprias comunidades.

E, em cada peça de cerâmica, em cada negócio criado, em cada mulher capacitada e em cada manifestação cultural preservada, permanece uma parte da memória de um povo que encontrou no trabalho e na união novas maneiras de manter viva a sua identidade.