O Brasil está entre os países onde os professores demonstram maior insatisfação com os salários recebidos, segundo dados do Panorama da Educação 2026, divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O levantamento, publicado nesta terça-feira (29), analisou diferentes aspectos dos sistemas educacionais e deu atenção especial à escassez de professores e aos desafios para manter profissionais qualificados nas escolas.
De acordo com o estudo, apenas 22,3% dos professores brasileiros afirmam estar satisfeitos com seus salários, enquanto a média registrada entre os países analisados pela OCDE é de 38,7%. O resultado coloca o Brasil na quarta posição entre os países com menor nível de satisfação dos docentes em relação à remuneração.
A insatisfação não se limita ao salário. Quando os professores são questionados sobre as condições gerais de trabalho, o percentual de brasileiros satisfeitos sobe para 44,3%. Ainda assim, o índice permanece abaixo da média observada pela OCDE, de 68,4%.
Os números ajudam a dimensionar um problema que vai além da remuneração mensal. A profissão docente envolve carga de trabalho, planejamento, preparação de aulas, correção de atividades, acompanhamento dos estudantes e, em muitos casos, responsabilidades que ultrapassam o ambiente da sala de aula.
Escassez de professores preocupa países
A escassez de profissionais da educação é um dos principais temas abordados pela edição de 2026 do Panorama da Educação. A OCDE chama atenção para a necessidade de ampliar o número de professores qualificados em diferentes sistemas educacionais.
No Brasil, 9% dos professores do ensino fundamental e médio das instituições públicas não eram plenamente qualificados em 2024/25. O percentual é próximo da média registrada nos países da OCDE, que ficou em 9,1%.
Embora os números sejam semelhantes nesse indicador, outro dado chama atenção: a saída de professores plenamente qualificados das escolas públicas brasileiras.
Segundo o levantamento, 10,3% dos docentes plenamente qualificados do ensino fundamental e médio deixaram a profissão em 2022, seja por aposentadoria ou pedido de demissão. Na média da OCDE, o índice foi de 6,4% em 2024/25.
A comparação precisa levar em consideração que os períodos de referência não são exatamente os mesmos. Ainda assim, os dados mostram um desafio relacionado à permanência de profissionais experientes na rede pública brasileira.
Saída de professores exige atenção
O fato de um professor deixar uma escola pública não significa necessariamente que tenha abandonado completamente a profissão. Alguns profissionais podem migrar para instituições privadas ou para outras áreas de atuação dentro da educação.
A possibilidade foi destacada por Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco. Segundo ele, os dados devem ser observados com cuidado, mas também revelam um desafio para a rede pública.
A retenção de profissionais qualificados é considerada importante para a continuidade do trabalho pedagógico. Quando professores deixam as escolas, as redes de ensino precisam encontrar novos profissionais para preencher as vagas, além de lidar com a necessidade de adaptação dos novos docentes.
Esse processo pode se tornar ainda mais complexo em regiões onde já existe dificuldade para encontrar profissionais em determinadas disciplinas.
Ao mesmo tempo, o número de professores do ensino fundamental no Brasil cresceu 4%. O avanço, porém, foi inferior ao registrado na média dos países da OCDE, que chegou a 13%.
Os números indicam que o crescimento da quantidade de docentes não ocorre na mesma velocidade em todos os países, reforçando o debate sobre formação, valorização profissional e condições de trabalho.
Salário aparece como um dos principais desafios
A remuneração é um dos pontos que mais chamam atenção no levantamento. Com apenas 22,3% dos professores brasileiros declarando satisfação com seus salários, o indicador fica significativamente abaixo da média internacional de 38,7%.
A percepção sobre remuneração pode influenciar a maneira como profissionais avaliam a própria carreira e também pode estar relacionada à dificuldade de atrair novos trabalhadores para a área.
A docência exige formação específica e atualização constante. Além do conhecimento sobre a disciplina ministrada, o professor precisa desenvolver estratégias pedagógicas para lidar com diferentes perfis de estudantes e situações presentes no cotidiano escolar.
Quando essa responsabilidade é associada a condições de trabalho consideradas inadequadas ou a uma remuneração percebida como insuficiente, a carreira pode enfrentar dificuldades para atrair e manter profissionais.
O levantamento da OCDE coloca esse cenário dentro de uma discussão internacional sobre o futuro da profissão docente.
Escolaridade dos adultos também é analisada
O Panorama da Educação 2026 também avaliou o nível de escolaridade da população adulta brasileira.
Entre as pessoas de 25 a 64 anos, 22% possuem ensino superior no Brasil. O percentual está abaixo da média dos países da OCDE, que chega a 43%.
Já a parcela de adultos nessa faixa etária que concluiu o ensino médio ou possui formação técnica é de 39% no Brasil, próxima da média registrada pela OCDE, de 40%.
Os dados mostram que o país avançou em determinados indicadores educacionais, mas ainda apresenta uma diferença significativa quando o assunto é acesso ao ensino superior.
A expansão da escolarização da população adulta é considerada um dos elementos importantes para a formação profissional e para a inserção no mercado de trabalho. Quanto maior o nível de escolaridade, maiores também tendem a ser as possibilidades de acesso a diferentes trajetórias educacionais e profissionais, embora fatores econômicos e sociais também tenham influência.
Menos jovens deixam a escola sem concluir o ensino médio
O levantamento também identificou uma melhora entre os jovens adultos brasileiros.
A proporção de pessoas entre 25 e 34 anos que não concluíram o ensino médio caiu de 35% em 2016 para 26% em 2024.
Apesar da redução, mais de um quarto dos jovens adultos ainda não havia concluído essa etapa da educação formal no período analisado.
A conclusão do ensino médio representa uma etapa importante da trajetória educacional e pode influenciar tanto o acesso ao ensino superior quanto as oportunidades de formação profissional.
Outro indicador apresentou evolução nos últimos anos: a parcela de jovens que não estão trabalhando nem estudando.
Segundo os dados apresentados no relatório, esse percentual caiu de 27% para 22% no período analisado, mostrando uma redução na quantidade de jovens nessa situação.
A mudança, porém, não elimina o desafio. Milhões de jovens ainda permanecem fora simultaneamente do mercado de trabalho e do sistema educacional, o que mantém o tema entre as questões relevantes das políticas públicas voltadas à juventude.
Continuidade dos estudos após o ensino fundamental
A OCDE também avaliou o que acontece com os estudantes brasileiros após a conclusão do ensino fundamental II.
Um ano depois dessa etapa, 87% dos estudantes estão matriculados no ensino médio ou em algum outro programa educacional.
Outros 4% permanecem repetindo o último ano do ensino fundamental II, enquanto 8% não estão matriculados em nenhum tipo de educação formal.
Os dados ajudam a compreender os desafios existentes na transição entre diferentes etapas da educação básica.
Garantir que os estudantes permaneçam na escola é uma tarefa que envolve diversos fatores, incluindo condições econômicas das famílias, qualidade da educação, infraestrutura, transporte, segurança e perspectivas profissionais.
A permanência também depende da capacidade de a escola oferecer um ambiente em que o estudante consiga acompanhar as atividades e enxergar sentido na continuidade dos estudos.
Um retrato dos desafios da educação brasileira
Os dados apresentados no Panorama da Educação 2026 formam um retrato amplo da educação brasileira. De um lado, existem avanços, como a redução da parcela de jovens adultos sem ensino médio e a diminuição do número de jovens que não estudam nem trabalham.
De outro, permanecem desafios relacionados à formação e à permanência dos professores, às condições de trabalho e à remuneração dos profissionais da educação.
A insatisfação salarial aparece como um dos pontos mais evidentes. Com apenas 22,3% dos docentes satisfeitos com seus salários, o Brasil apresenta um índice inferior à média dos países analisados pela OCDE.
Ao mesmo tempo, a saída de profissionais plenamente qualificados das escolas públicas chama atenção para a necessidade de compreender os motivos que levam professores a deixar essas instituições.
Mais do que números, os dados representam pessoas que estão diariamente envolvidas com a formação de crianças, adolescentes e jovens.
O cenário apresentado pela OCDE reforça, portanto, que discutir o futuro da educação brasileira também significa discutir as condições oferecidas aos profissionais responsáveis por colocá-la em prática. A valorização docente, a formação continuada, a permanência dos professores nas escolas e a melhoria das condições de trabalho permanecem entre os principais pontos do debate educacional brasileiro.















