Uma questão de matemática pode parecer simples à primeira vista, mas esconder uma armadilha que não está na fórmula nem na operação utilizada. Um exemplo comum envolve situações em que um produto recebe um desconto e, posteriormente, sofre um aumento percentual. O estudante pode somar ou subtrair as porcentagens automaticamente, marcar uma alternativa e seguir para a próxima questão. O problema é que cada percentual incide sobre um valor diferente.

A conta pode até estar correta, mas a interpretação do enunciado não. É justamente nesse ponto que muitos estudantes acabam perdendo questões no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

O exemplo é utilizado pelo professor de matemática Fábio Yamamoto, da Escola Bilíngue Pueri Domus, para explicar uma dificuldade recorrente entre os candidatos. Segundo ele, muitas vezes o erro começa ainda durante a leitura e somente aparece posteriormente como um erro de cálculo. Ou seja, o estudante domina determinada operação matemática, mas não consegue identificar exatamente o que a questão está pedindo.

Para quem se prepara para o Enem 2026, essa percepção ganha ainda mais importância na reta final. A prova de Matemática e suas Tecnologias terá 45 questões e será aplicada no segundo domingo do exame, em 15 de novembro, juntamente com as 45 questões de Ciências da Natureza.

A edição deste ano terá 5.055.818 inscritos, de acordo com o Ministério da Educação (MEC), o maior número de participantes desde 2022. Parte desse crescimento está relacionada à inscrição automática de estudantes concluintes do ensino médio da rede pública.

Desempenho em matemática exige mais do que decorar fórmulas

Os resultados mais recentes do Enem ajudam a dimensionar o desafio enfrentado pelos estudantes. Em 2024, a média nacional em Matemática caiu de 535 para 529 pontos, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Foi a maior queda entre as áreas avaliadas naquele exame.

No conjunto da prova, porém, a média geral apresentou crescimento, passando de 543 para 546 pontos.

Nesse cenário, a preparação para a reta final não precisa ser baseada na tentativa de revisar todo o conteúdo estudado ao longo do ensino médio. Para especialistas ouvidos pela CNN Brasil, uma estratégia mais eficiente é identificar dificuldades, resolver questões e utilizar os erros como instrumento de estudo.

O professor Fábio Yamamoto recomenda que aproximadamente 75% do tempo disponível seja dedicado à resolução de exercícios e provas anteriores, enquanto os outros 25% sejam destinados à revisão de conteúdos.

A proporção não deve ser entendida como uma regra obrigatória para todos os candidatos. A ideia principal é priorizar a prática, especialmente para quem já passou por grande parte dos conteúdos cobrados no exame.

Depois de resolver um exercício, o estudante também precisa analisar o motivo do erro. Não basta conferir o gabarito e simplesmente seguir adiante. É importante perguntar: faltou conhecimento sobre o assunto? Houve dificuldade para interpretar o enunciado? O erro ocorreu durante uma operação? Ou foi apenas uma distração?

Essa análise transforma uma questão errada em uma oportunidade de aprendizado.

Simulados podem mostrar onde está o problema

Outra estratégia recomendada é utilizar os simulados como uma espécie de diagnóstico. A professora de matemática Cristine Tolizano, da Escola Bilíngue Aubrick, orienta que o estudante registre os conteúdos em que apresenta maior dificuldade e retorne a eles periodicamente.

Nesse processo, a resolução de questões continua sendo importante. Em vez de simplesmente reler páginas e páginas de teoria, o candidato pode observar como determinado conceito aparece na prática e quais tipos de raciocínio são exigidos.

A matemática do Enem costuma ser apresentada dentro de situações do cotidiano. Por isso, reconhecer uma fórmula nem sempre é suficiente.

Uma questão envolvendo porcentagem pode aparecer em uma situação de compra, desconto, reajuste ou comparação de preços. Problemas de proporção podem estar relacionados a receitas, escalas, mapas, velocidade ou consumo. Gráficos e tabelas podem exigir tanto conhecimento matemático quanto capacidade de interpretar informações.

Por isso, compreender o contexto é parte importante da resolução.

Conteúdos básicos merecem atenção

Quando o tempo de preparação está chegando ao fim, também pode ser um erro deixar de lado conteúdos considerados básicos.

Yamamoto destaca a importância de revisar fundamentos como porcentagem, razão e proporção, leitura e interpretação de gráficos e tabelas, grandezas e medidas e geometria básica.

Muitos desses assuntos são trabalhados ainda no Ensino Fundamental, mas continuam aparecendo em questões do Enem. Ter segurança nesses conceitos pode facilitar a resolução de problemas mais complexos.

A porcentagem, por exemplo, merece atenção especial porque pode aparecer em diferentes formatos. Em aumentos e descontos sucessivos, o candidato precisa compreender que cada alteração é calculada sobre um valor específico. Dessa forma, simplesmente somar ou subtrair os percentuais pode levar a um resultado incorreto.

O mesmo cuidado vale para probabilidade. Um pequeno detalhe no enunciado pode modificar completamente o caminho necessário para chegar à resposta.

Na geometria, por outro lado, uma estratégia simples pode ajudar. Em determinadas questões, desenhar uma linha adicional ou reorganizar visualmente as informações pode tornar mais claro o conceito que está sendo cobrado.

Como administrar o tempo no segundo dia

O segundo dia do Enem exige bastante atenção à administração do tempo. São 90 questões divididas entre Matemática e Ciências da Natureza, além do preenchimento do cartão de respostas.

Considerando apenas as questões, o candidato dispõe de pouco mais de três minutos, em média, para cada item. Na prática, porém, algumas perguntas exigirão muito menos tempo, enquanto outras poderão demandar cálculos mais longos.

Por isso, uma das estratégias recomendadas pelos especialistas é fazer uma triagem durante a prova.

Questões cujo caminho de resolução é conhecido podem ser resolvidas primeiro. Já aquelas que apresentam um enunciado muito complexo ou para as quais o candidato não identifica rapidamente uma estratégia podem ser deixadas para uma segunda passagem.

Isso não significa abandonar uma questão. A ideia é evitar que um único problema consuma vários minutos e comprometa o desempenho no restante da prova.

A importância da Teoria de Resposta ao Item

Outro aspecto que merece atenção é a Teoria de Resposta ao Item (TRI), metodologia utilizada pelo Enem para calcular as notas.

O sistema não considera apenas o número total de acertos. A coerência do conjunto de respostas também é levada em conta. Por isso, um candidato que acerta muitas questões difíceis, mas erra diversas questões consideradas mais fáceis, pode ter um resultado diferente daquele esperado apenas pela contagem de acertos.

É importante destacar que errar uma questão não gera desconto direto na pontuação. O cálculo da nota depende do padrão geral de respostas e das características dos itens.

Por isso, uma estratégia de prova precisa considerar tanto o conhecimento quanto a capacidade de identificar quais questões podem ser resolvidas com maior segurança.

Leia antes de calcular

Uma das recomendações mais importantes para a prova de matemática é evitar começar imediatamente pelas contas.

Em questões acompanhadas de textos longos, gráficos ou tabelas, a leitura deve ser cuidadosa. A orientação de Cristine Tolizano é compreender primeiro a apresentação do problema, identificar exatamente o que está sendo perguntado e, somente depois, analisar os dados disponíveis.

Esse procedimento ajuda a evitar que o estudante gaste tempo calculando informações que não são necessárias para responder ao item.

Gráficos também exigem atenção especial. É preciso observar título, eixos, unidades, legendas e valores antes de iniciar qualquer operação.

A mesma lógica vale para tabelas. Nem sempre todos os números apresentados são necessários para encontrar a resposta.

Treinar sem calculadora pode fazer diferença

O Enem não permite o uso de calculadora durante a prova. Por isso, uma parte da preparação precisa reproduzir as condições encontradas no exame.

Porcentagens, frações, números decimais e conversões de unidades estão entre os pontos que podem exigir mais atenção durante os cálculos.

Resolver provas anteriores com cronômetro pode ajudar o estudante a desenvolver agilidade. Com a prática, operações simples podem ser realizadas mentalmente ou por meio de estimativas.

A estimativa também funciona como mecanismo de conferência. Antes de marcar uma alternativa, o estudante pode avaliar se o resultado encontrado é razoável diante dos dados apresentados.

Essa prática pode evitar erros causados por operações simples.

Reta final deve priorizar estratégia

Com a aproximação do Enem 2026, a preparação precisa ser cada vez mais direcionada. Tentar aprender todo o conteúdo novamente nas últimas semanas pode não ser a estratégia mais produtiva.

O estudante pode aproveitar esse período para resolver provas anteriores, analisar os próprios erros, revisar conteúdos básicos e identificar os assuntos em que ainda apresenta dificuldade.

Mais do que decorar fórmulas, a matemática do Enem exige leitura, interpretação, raciocínio lógico e capacidade de tomar decisões sob pressão de tempo.

Na hora da prova, manter a calma também pode contribuir para que o conhecimento adquirido durante a preparação seja utilizado de maneira adequada.

O objetivo não é transformar cada questão em uma corrida contra o relógio, mas aprender a administrar o tempo disponível, reconhecer os caminhos de resolução e evitar que uma dificuldade pontual comprometa todo o desempenho.

Para quem ainda está se preparando, cada exercício pode funcionar como uma oportunidade de identificar uma falha antes do dia da prova. E, quando o assunto é matemática, muitas vezes a diferença entre acertar e errar não está apenas em saber fazer a conta, mas em compreender exatamente o que ela está pedindo.