Câncer e tratamento oncológico costumam exigir uma rotina de cuidados que vai muito além das consultas e sessões de quimioterapia ou radioterapia. Entre as complicações que podem surgir durante esse período está a mucosite oral, uma inflamação da mucosa da boca que pode provocar vermelhidão, feridas, dor e dificuldade para realizar atividades simples, como comer, beber água e falar.

Embora possa causar grande desconforto, existem estratégias capazes de reduzir a intensidade dos sintomas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Entre elas estão a fotobiomodulação, conhecida como laserterapia de baixa potência, os cuidados rigorosos com a higiene bucal e adaptações na alimentação.

A mucosite oral ocorre porque as células que formam as mucosas possuem uma elevada capacidade de renovação. Durante determinados tratamentos contra o câncer, medicamentos podem atingir essas células e provocar danos que desencadeiam um processo inflamatório. A radioterapia realizada na região da cabeça e do pescoço também pode contribuir para o aparecimento das lesões.

De acordo com o cirurgião-dentista Fábio de Abreu, especialista e presidente da Câmara Técnica de Estomatologia do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), a intensidade da mucosite varia de acordo com o tratamento utilizado.

A condição pode aparecer durante determinados protocolos de quimioterapia e radioterapia e, nos casos mais intensos, comprometer significativamente a rotina do paciente. A dor pode tornar a alimentação difícil e, consequentemente, prejudicar a ingestão de calorias, proteínas, vitaminas e líquidos.

Laserterapia pode ajudar no controle das lesões

Uma das estratégias utilizadas para prevenção e controle da mucosite oral é a fotobiomodulação. O procedimento utiliza luz de baixa intensidade para estimular processos celulares relacionados à reparação dos tecidos.

Segundo Fábio de Abreu, a técnica pode apresentar efeitos anti-inflamatórios e analgésicos, além de contribuir para a cicatrização das lesões.

Estudos publicados pela Multinational Association of Supportive Care in Cancer (MASCC) apontam a fotobiomodulação preventiva como uma das intervenções utilizadas para reduzir a ocorrência e a intensidade da mucosite em determinados tratamentos oncológicos.

A estratégia é especialmente considerada em protocolos que utilizam medicamentos com potencial elevado de causar lesões na mucosa, entre eles alguns esquemas que envolvem metotrexato, 5-fluorouracil e medicamentos à base de platina.

A aplicação, entretanto, não deve ser realizada de maneira improvisada. O acompanhamento precisa ser feito por profissionais capacitados e integrado ao tratamento definido pela equipe responsável pelo paciente.

Quando utilizada antes do aparecimento das lesões, a fotobiomodulação pode contribuir para reduzir a frequência e a intensidade da mucosite. Quando o problema já está instalado, pode auxiliar no controle da dor e no processo de recuperação dos tecidos.

Alimentação precisa ser adaptada

A presença de feridas na boca também pode transformar a alimentação em um momento difícil. Alimentos que normalmente seriam consumidos sem qualquer problema podem provocar ardência, dor ou irritação quando entram em contato com a mucosa lesionada.

Por isso, a alimentação precisa ser individualizada. A nutricionista Laita Balbio, que trabalha com estratégias nutricionais individualizadas, explica que o primeiro objetivo diante de feridas ou dor durante a deglutição é reduzir o atrito e tornar as refeições mais confortáveis.

Preparações macias, úmidas, cremosas ou pastosas podem ser alternativas mais adequadas durante os períodos de maior sensibilidade. Purês, cremes, mingaus, sopas batidas, vitaminas e alimentos bem cozidos são alguns exemplos que podem facilitar a ingestão.

A temperatura também merece atenção. Alimentos e bebidas muito quentes podem aumentar o desconforto em uma mucosa já inflamada. Por isso, preparações frias, frescas ou em temperatura ambiente podem ser melhor toleradas, dependendo da preferência e da sensibilidade de cada paciente.

O objetivo, porém, não é simplesmente retirar alimentos da dieta. É necessário preservar o valor nutricional das refeições para evitar perda de peso e deficiência de nutrientes.

Alimentos que podem aumentar a irritação

Durante os períodos de crise, alguns alimentos podem intensificar a ardência e o desconforto. Entre eles estão preparações muito ácidas, apimentadas, condimentadas ou excessivamente salgadas.

Frutas cítricas, como limão, laranja e abacaxi, além de determinados sucos e molhos ácidos, podem provocar ardência quando entram em contato com feridas.

Também é recomendável observar a tolerância a alimentos secos, duros, crocantes ou ásperos. Torradas, biscoitos e outras preparações com textura rígida podem causar trauma mecânico nas áreas lesionadas.

A nutricionista destaca que não existe necessariamente uma lista universal de alimentos proibidos. Cada pessoa apresenta uma tolerância diferente, e aquilo que causa dor em um paciente pode ser bem tolerado por outro.

Por isso, a recomendação é observar a resposta do organismo. Se determinado alimento provocar dor ou ardência, ele pode ser temporariamente retirado ou adaptado, sempre considerando a necessidade de manter uma alimentação equilibrada.

Outra estratégia importante é fracionar as refeições. Em vez de grandes volumes de comida de uma só vez, o paciente pode realizar pequenas refeições ao longo do dia, desde que essa estratégia seja adequada à sua condição clínica.

Hidratação também merece atenção

A hidratação é outro ponto fundamental durante o tratamento. A dificuldade para engolir pode fazer com que o paciente reduza espontaneamente o consumo de água e outros líquidos.

Uma alternativa pode ser distribuir a ingestão ao longo do dia, com pequenos goles em intervalos regulares, caso essa forma seja mais confortável.

Em situações nas quais a alimentação oral se torna insuficiente, a equipe de saúde pode avaliar a necessidade de suplementos nutricionais. A indicação deve ser individualizada, principalmente quando existe perda de peso ou dificuldade significativa para alcançar as necessidades nutricionais.

Higiene bucal ajuda a prevenir complicações

Manter a boca limpa durante o tratamento também é uma medida importante. A higiene adequada pode ajudar a reduzir o acúmulo de microrganismos e diminuir o risco de complicações que possam dificultar ainda mais a recuperação da mucosa.

Escovas dentais com cerdas extramacias podem ser indicadas para reduzir o trauma durante a escovação. Cremes dentais com formulações suaves também podem ser melhor tolerados por pessoas com mucosa sensibilizada.

Produtos que provocam ardência ou ressecamento devem ser avaliados com cautela. Enxaguantes bucais que contêm álcool, por exemplo, podem aumentar o ressecamento e o desconforto.

O uso de medicamentos para controlar a dor também precisa seguir orientação profissional. Analgésicos sistêmicos e anestésicos tópicos podem fazer parte do cuidado em determinadas situações, mas não devem ser utilizados por conta própria.

O dentista Fábio de Abreu alerta ainda que anestésicos podem diminuir temporariamente a sensibilidade da boca e da garganta. Quando utilizados imediatamente antes ou durante uma refeição, podem aumentar o risco de mordidas, queimaduras com alimentos quentes e dificuldades relacionadas à deglutição.

Prevenção começa antes da quimioterapia

Os cuidados odontológicos podem começar antes mesmo da primeira sessão de quimioterapia. Uma avaliação realizada previamente permite identificar e tratar possíveis focos de infecção, como cáries e doenças gengivais.

Essa preparação é importante porque problemas bucais preexistentes podem se tornar mais difíceis de controlar durante o tratamento oncológico, especialmente quando o paciente apresenta alterações na imunidade.

O acompanhamento odontológico também permite que o profissional desenvolva, em conjunto com a equipe de oncologia, um plano individualizado para preservar a saúde da boca durante os ciclos de tratamento.

A mucosite pode representar um obstáculo significativo para quem enfrenta o câncer, mas o cuidado multidisciplinar pode ajudar a reduzir seus impactos. Odontologia, nutrição e oncologia podem atuar de maneira integrada para controlar sintomas, preservar a alimentação e evitar complicações.

Mais do que tratar as feridas depois que elas aparecem, a estratégia envolve prevenção, acompanhamento e adaptação da rotina. Para o paciente, isso pode significar menos dor, maior facilidade para se alimentar e manter a hidratação e melhores condições para atravessar uma etapa delicada do tratamento.

Por isso, qualquer alteração na boca durante a quimioterapia ou radioterapia deve ser comunicada à equipe responsável. A avaliação precoce permite identificar a causa dos sintomas e definir medidas adequadas para cada caso, sem interromper ou modificar o tratamento por conta própria.