O Fundo Monetário Internacional (FMI) elevou ligeiramente sua projeção para o crescimento da economia mundial em 2026, mas alertou que os benefícios dessa expansão estão distribuídos de maneira desigual entre os países. Segundo o relatório Perspectivas Econômicas Mundiais, divulgado nesta terça-feira (13), a economia global deverá crescer 3,1% neste ano, acima da estimativa de 3% apresentada em julho, mas abaixo dos 3,5% registrados em 2025.
Um dos principais fatores que ajudam a sustentar essa perspectiva é o avanço da inteligência artificial (IA), que impulsiona investimentos em tecnologia, semicondutores e equipamentos especializados. Entretanto, o organismo internacional destaca que os ganhos estão concentrados em determinadas economias, enquanto outros países enfrentam dificuldades provocadas pelo encarecimento da energia e por condições financeiras mais restritivas.
O cenário coloca a economia mundial diante de desafios simultâneos. De um lado, a expansão tecnológica abre oportunidades para empresas, investimentos e novos modelos de negócios. De outro, a alta dos preços do petróleo e do gás pressiona os custos de produção, influencia a inflação e reduz o espaço para o crescimento de países mais dependentes de energia importada.
As projeções foram divulgadas em meio aos encontros anuais do FMI e do Banco Mundial, realizados em Bangkok, na Tailândia, onde autoridades econômicas e financeiras discutem os principais riscos para a estabilidade internacional.
Inteligência artificial impulsiona parte da economia mundial
O FMI avalia que o crescimento dos investimentos relacionados à inteligência artificial está ajudando a compensar parte dos efeitos negativos provocados pela elevação dos preços da energia. A demanda por semicondutores, equipamentos de processamento e infraestrutura tecnológica favorece especialmente os países que concentram empresas e cadeias produtivas ligadas ao setor.
Estados Unidos e China respondem por mais de três quartos da demanda líquida mundial por importações de semicondutores e outros equipamentos associados à inteligência artificial, segundo o relatório. Essa concentração demonstra como os ganhos do desenvolvimento tecnológico podem beneficiar de maneira desproporcional as economias que já possuem maior capacidade industrial, financeira e tecnológica.
Durante a apresentação do documento em Bangkok, Silvana Tenreyro, diretora do departamento de pesquisa do FMI, destacou que as perspectivas econômicas são bastante desiguais entre os países.
O relatório aponta que a expansão mundial está cada vez mais concentrada em um grupo menor de economias. Atualmente, 32 países respondem por aproximadamente 95% do crescimento econômico global, enquanto, em abril, essa parcela estava distribuída por 54 países.
Na prática, isso significa que o desempenho da economia mundial depende cada vez mais de um conjunto restrito de nações. Países que conseguem aproveitar a expansão da inteligência artificial e que estão menos expostos à alta dos combustíveis tendem a enfrentar condições diferentes daquelas encontradas por economias com maior dependência energética.
O FMI ressalta que o crescimento global não está apenas acelerando ou desacelerando. Ele também está sendo redistribuído conforme a exposição de cada país aos choques de oferta e à força da demanda por tecnologias ligadas à inteligência artificial.
Alta do petróleo pode pressionar a inflação
Apesar da revisão positiva para a economia mundial, o FMI projeta uma forte elevação nos preços do petróleo. A expectativa apresentada no relatório é de que o barril avance quase 41% em 2026, alcançando uma média de US$ 96.
A alta da energia representa um risco para o controle da inflação porque o petróleo influencia os custos de transporte, produção industrial, distribuição de mercadorias e diversas atividades econômicas.
Quando os combustíveis ficam mais caros, empresas podem enfrentar despesas maiores e repassar parte desses custos aos consumidores. O impacto pode aparecer nos preços de produtos e serviços, reduzindo o poder de compra das famílias.
Nesse contexto, o Fundo prevê que a inflação global alcance 4,7% em 2026, acima dos 4,1% registrados no ano anterior.
O resultado poderá dificultar a atuação dos bancos centrais, que precisam equilibrar o controle dos preços com a necessidade de preservar a atividade econômica. Se a inflação permanecer elevada, a redução das taxas de juros poderá se tornar mais difícil em alguns países, mantendo o crédito caro para famílias e empresas.
As projeções do FMI consideram, entre outras hipóteses, a normalização dos embarques de petróleo e gás pelo Estreito de Ormuz até março e uma desaceleração parcial do crescimento da demanda por inteligência artificial. Caso essas condições não se confirmem, o cenário poderá mudar.
Inteligência artificial também preocupa pelo impacto no emprego
Além dos investimentos e da produtividade, os efeitos da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho estão entre os principais temas debatidos nos encontros internacionais.
Na segunda-feira (12), a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, comparou o avanço da tecnologia a um “tsunami em câmera lenta”, expressão utilizada para destacar a dimensão das transformações que podem ocorrer no mundo do trabalho.
Segundo Georgieva, a instituição estima que cerca de 40% dos empregos no mundo poderão ser afetados pela inteligência artificial, seja por mudanças nas tarefas realizadas pelos profissionais, seja pela transformação ou eliminação de determinadas funções.
Isso não significa que 40% dos postos de trabalho necessariamente desaparecerão. O impacto pode ocorrer de diferentes maneiras: algumas ocupações poderão ser automatizadas, outras terão suas atividades modificadas, e novas funções poderão surgir à medida que as empresas adotarem ferramentas tecnológicas.
A transformação exigirá adaptação de trabalhadores, empresas e governos. A qualificação profissional, o desenvolvimento de novas competências e o acesso à educação tecnológica podem se tornar fatores importantes para que mais pessoas aproveitem as oportunidades criadas pela inovação.
Ao mesmo tempo, a velocidade das mudanças poderá ampliar desigualdades quando determinados grupos não tiverem acesso à formação necessária ou quando os benefícios da tecnologia permanecerem concentrados em poucas empresas e economias.
Endividamento público continua no radar do FMI
Outro ponto de preocupação é o aumento das dívidas públicas. Na semana anterior à divulgação do relatório, Georgieva pediu que países ricos e pobres reforçassem os esforços para melhorar suas finanças públicas.
O endividamento elevado pode reduzir a capacidade dos governos de responder a crises econômicas, financiar serviços públicos e realizar investimentos. O problema se torna mais complexo quando as taxas de juros estão altas, porque o custo de refinanciar dívidas e pagar encargos aumenta.
Silvana Tenreyro também destacou a relevância desse tema em um ambiente de financiamento mais caro.
Para os governos, o desafio consiste em equilibrar a necessidade de manter as contas públicas sustentáveis com a realização de investimentos capazes de estimular o desenvolvimento. Uma deterioração das condições financeiras pode limitar a margem de atuação das autoridades, especialmente em países que já enfrentam pressões fiscais.
Estados Unidos devem manter crescimento de 2,3%
Entre as principais economias, os Estados Unidos devem registrar crescimento de 2,3% em 2026 e repetir o mesmo resultado em 2027, conforme as estimativas do FMI.
As economias avançadas, consideradas em conjunto, devem crescer 2,1% neste ano, acima dos 2% registrados em 2025. Para 2027, a projeção indica uma desaceleração para 1,9%.
Já os mercados emergentes e as economias em desenvolvimento mais vulneráveis à alta dos preços do petróleo e do gás deverão enfrentar um cenário mais difícil. Para esse grupo, o FMI projeta crescimento de 3,7% em 2026, abaixo dos 4,5% observados em 2025. Em 2027, a expectativa é de recuperação para 4,4%.
A situação é particularmente delicada no Oriente Médio e na Ásia Central, regiões que, segundo as projeções apresentadas, devem registrar contração econômica em 2026 antes de voltar a crescer. Para 2027, o Fundo estima expansão de 6,3%.
China, Índia e Europa apresentam cenários diferentes
Na zona do euro, que reúne 21 países na projeção citada pelo relatório, a expectativa é de crescimento de 1,1% em 2026 e de 1,2% em 2027.
A China, segunda maior economia do mundo, deverá crescer 4,5% neste ano, abaixo dos 5% registrados em 2025. A previsão está alinhada à meta oficial de crescimento do país.
A Índia, por sua vez, deverá continuar entre as grandes economias de expansão mais acelerada, com crescimento projetado de 7% em 2026, após avançar 7,7% no ano anterior.
As diferenças refletem condições econômicas distintas, níveis variados de exposição à crise energética e capacidades diferentes de aproveitar a expansão dos investimentos em tecnologia.
Economia global enfrenta um período de transformação
O relatório do FMI apresenta um cenário em que a economia mundial continua crescendo, mas enfrenta riscos relacionados à energia, ao endividamento, à inflação e às mudanças provocadas pela inteligência artificial.
A tecnologia pode ampliar a produtividade e abrir novas oportunidades, mas seus benefícios não estão chegando de forma igualitária a todos os países e trabalhadores. Paralelamente, o encarecimento do petróleo e do gás ameaça elevar os custos e dificultar a recuperação de economias mais vulneráveis.
Para o Brasil e outras nações emergentes, acompanhar essas mudanças é importante para compreender os possíveis efeitos sobre o comércio, os investimentos, os preços e o mercado de trabalho.
O desafio global será transformar os avanços tecnológicos em oportunidades mais amplas, preservar a estabilidade financeira e reduzir os impactos dos choques econômicos sobre a população.
O JRT News continuará acompanhando as projeções e os desdobramentos da economia internacional, levando aos leitores informações sobre os fatores que podem influenciar o crescimento, o custo de vida e as perspectivas econômicas nos próximos anos.















