O Brasil se despede de um dos nomes marcantes da música baiana. O cantor Netinho morreu nesta terça-feira (13), aos 60 anos, em um hospital de Salvador, na Bahia. Reconhecido nacionalmente por sua contribuição ao axé music, o artista enfrentava um câncer do sistema linfático havia mais de um ano. Sua morte representa uma perda para a música brasileira e para milhares de fãs que acompanharam sua carreira ao longo de décadas.
Dono de uma voz conhecida pelo público e de um repertório que atravessou gerações, Netinho construiu uma trajetória marcada por grandes sucessos, apresentações em carnavais e momentos importantes da história da música popular brasileira. Entre suas canções mais conhecidas estão “Beijo na Boca”, “Fim de Semana” e “Milla”, música que se transformou em um dos grandes símbolos do axé music.
Segundo informações divulgadas pela assessoria do cantor, o velório e a cremação serão realizados de maneira reservada, conforme desejo expresso pelo próprio artista. A cerimônia será restrita aos familiares e amigos próximos, em um momento de despedida marcado pela privacidade.
A notícia da morte mobiliza fãs e admiradores que encontraram nas músicas de Netinho trilhas sonoras para festas, encontros familiares, viagens e celebrações do Carnaval. Sua história se confunde com a expansão do axé para além da Bahia, ajudando a levar a energia da música baiana a diferentes regiões do Brasil e também ao exterior.
A luta contra o câncer
Netinho tornou público o diagnóstico de câncer do sistema linfático em 22 de março de 2025, após ser internado no Hospital Aliança Star, em Salvador, com fortes dores nas pernas. A partir daquele momento, o cantor passou a compartilhar informações sobre sua saúde e etapas do tratamento com seus seguidores nas redes sociais.
Ao dividir parte dessa experiência com o público, o artista permitiu que admiradores acompanhassem um período delicado de sua vida, marcado por consultas, procedimentos médicos e pela necessidade de enfrentar uma doença grave.
O sistema linfático faz parte da estrutura de defesa do organismo e desempenha funções importantes no transporte de líquidos e no funcionamento do sistema imunológico. Os cânceres que atingem essa região podem apresentar diferentes características, dependendo do tipo da doença, e exigem acompanhamento médico especializado.
Durante o tratamento, Netinho manteve os fãs informados sobre sua condição, reforçando o vínculo construído ao longo de sua carreira. Para muitas pessoas, acompanhar suas atualizações significava continuar perto de um artista que havia feito parte de momentos importantes de suas vidas.
A trajetória de Netinho também foi marcada por outros desafios de saúde. Em 2013, ele sofreu três acidentes vasculares cerebrais (AVCs), episódios que provocaram complicações e afetaram sua capacidade de cantar. A recuperação exigiu tempo e dedicação, afastando-o dos palcos em um período importante para sua carreira.
Da infância na Bahia ao sucesso nacional
Netinho nasceu em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano, em 12 de julho de 1966. Ainda criança, mudou-se com a família para Salvador, onde começou a desenvolver sua relação com a música e a descobrir o caminho que, anos depois, o transformaria em um dos artistas populares de sua geração.
O interesse musical surgiu cedo. Aos 10 anos, já vivendo na capital baiana, o futuro cantor começou a se aproximar de diferentes estilos e referências. Aos 14, ganhou da mãe seu primeiro violão, presente que ajudou a fortalecer a paixão pela música.
Apesar da vocação artística, Netinho também investiu nos estudos. Aos 16 anos, ingressou no curso de Engenharia Civil da Universidade Católica do Salvador (Ucsal). Naquele período, dividia o tempo entre a vida acadêmica e pequenas apresentações musicais em escolas.
Aos poucos, as apresentações deixaram de ser apenas uma atividade paralela. O cantor começou a tocar profissionalmente em bares, interpretando músicas da MPB e da bossa nova. Essas experiências contribuíram para o desenvolvimento de sua presença de palco e para a construção de seu repertório.
A virada aconteceu em 1988, quando Netinho assumiu os vocais da Banda Beijo durante o Carnaval de Salvador. No mesmo ano, ganhou projeção nacional com “Beijo na Boca”, canção que ajudou a consolidar seu nome no cenário musical.
O sucesso abriu caminho para outras músicas conhecidas, como “Estrela Primeira”, “Barracos” e “A Vida É Festa”. O cantor passou a integrar uma geração de artistas que ajudaram a transformar o Carnaval baiano em um fenômeno de alcance nacional.
“Milla” se tornou um dos símbolos do axé
Entre os inúmeros momentos da carreira de Netinho, poucos tiveram impacto semelhante ao sucesso de “Milla”. Lançada em 1996, três anos depois de o artista iniciar sua trajetória solo, a música se tornou uma de suas principais marcas e atravessou diferentes gerações.
A canção ganhou espaço em festas, micaretas, eventos populares e carnavais pelo Brasil. Seu refrão marcante ajudou a ampliar a identificação do público com o cantor, que passou a ser reconhecido mesmo por pessoas que não acompanhavam regularmente a cena musical baiana.
O sucesso de “Milla” também contribuiu para a expansão do axé music, gênero que ganhou projeção nacional a partir da Bahia e passou a ocupar espaço importante na indústria fonográfica brasileira.
Netinho levou seu repertório para diferentes países, incluindo Itália e Chile, ampliando o alcance de sua música. Suas apresentações ajudaram a mostrar ao público internacional a força de um movimento musical ligado à cultura baiana, à dança e às grandes celebrações populares.
Para os fãs, “Milla” ultrapassou a condição de uma canção de sucesso. A música passou a representar uma época, evocando lembranças de carnavais, encontros e momentos compartilhados entre amigos e familiares.
Além dos palcos, também investiu no mercado musical
A atuação de Netinho não ficou restrita às apresentações e aos lançamentos de discos. O cantor também investiu no setor empresarial, demonstrando interesse pelos bastidores da produção musical.
Entre seus projetos, esteve a criação de um grande estúdio de gravação e mixagem no Rio de Janeiro. O espaço recebeu artistas conhecidos da música brasileira e internacional, entre eles Maria Bethânia, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Laura Pausini e Lenny Kravitz.
O empreendimento aproximou Netinho de diferentes profissionais da indústria fonográfica e ampliou sua participação em atividades ligadas à produção musical.
O artista também criou um selo voltado ao lançamento de novos talentos baianos. A iniciativa refletia o interesse em abrir espaço para outros músicos e contribuir para a continuidade da produção artística da Bahia.
Na vida pessoal, Netinho foi casado com a jornalista Mariana Trindade entre 1997 e 2003. Da união nasceu sua filha, Bruna Trindade.
Problemas de saúde afastaram o cantor do Carnaval
Em 2013, Netinho enfrentou um dos períodos mais difíceis de sua trajetória. Os três AVCs provocaram complicações que afetaram sua saúde e comprometeram temporariamente sua capacidade vocal, justamente o instrumento que havia sustentado sua carreira.
O afastamento dos palcos representou uma mudança profunda para um artista acostumado à rotina intensa de shows e grandes apresentações. Netinho ficou quatro anos sem se apresentar no Carnaval de Salvador.
A pausa mostrou os desafios enfrentados por músicos que precisam reconstruir suas rotinas profissionais depois de problemas graves de saúde. Para o cantor, voltar a se apresentar exigiu adaptação, recuperação e o enfrentamento de limitações que não faziam parte de sua vida antes dos episódios.
Mesmo diante dessas dificuldades, sua ligação com o público permaneceu presente. A história de Netinho continuou sendo acompanhada por admiradores que reconheciam nele uma figura importante da música baiana.
Vida pública também foi marcada por posicionamentos políticos
Além da carreira artística, Netinho ganhou destaque por suas manifestações políticas. Em 2010, declarou publicamente ser bissexual. Dois anos depois, ao abordar o tema em entrevista ao programa Fantástico, afirmou que preferia não prolongar a discussão sobre sua sexualidade.
Em 2022, o cantor concorreu a uma vaga de deputado federal pelo Partido Liberal (PL), mas não conseguiu se eleger. Segundo os dados eleitorais citados na época, recebeu aproximadamente 31 mil votos e ficou na condição de suplente da legenda.
Netinho também manifestou apoio ao então presidente Jair Bolsonaro e participou de um ato político em 2021. Seu posicionamento gerou repercussão e críticas de parte do público, tornando sua atuação fora dos palcos outro aspecto conhecido de sua vida pública.
Esses episódios fizeram parte de uma trajetória que, além da música, também envolveu escolhas pessoais e manifestações que despertaram diferentes reações entre admiradores.
Um legado que permanece na música brasileira
A morte de Netinho encerra a trajetória de um artista que ajudou a levar o axé music a milhões de brasileiros. Sua carreira foi construída entre os carnavais de Salvador, os grandes palcos, os sucessos radiofônicos e a capacidade de transformar canções em lembranças coletivas.
De “Beijo na Boca” a “Milla”, seu repertório permanece associado a uma fase importante da música popular brasileira. Suas apresentações contribuíram para consolidar a força cultural da Bahia e ampliar o espaço do axé no cenário nacional.
A despedida reservada, conforme o desejo do cantor, não diminui a dimensão pública de sua história. Para os fãs, a lembrança de Netinho continuará presente nas músicas que marcaram suas vidas e nas memórias construídas ao som de sua voz.
Neste momento de luto, familiares, amigos e admiradores se despedem de um nome que deixou sua marca na cultura brasileira. A obra de Netinho permanece como parte da história do axé music e como testemunho de uma carreira que atravessou gerações.
















