O Musical cinematográfico “Titanic”, que emocionou milhões de pessoas ao redor do mundo, ganha uma versão completamente diferente nos palcos brasileiros. O musical “Titanique”, conhecido por transformar a história do famoso navio em uma comédia repleta de exageros, improvisos e situações absurdas, chegou ao Rio de Janeiro neste mês de outubro com uma proposta que mistura os grandes sucessos de Celine Dion e referências à música popular brasileira.
Depois de conquistar o público durante uma temporada em São Paulo, no último trimestre de 2025, o espetáculo desembarca na capital fluminense com uma montagem que aposta no humor irreverente e na liberdade criativa. A produção está em cartaz no Teatro Claro Mais, de quinta-feira a domingo, com apresentações previstas até 7 de novembro.
Dirigida por Gustavo Barchilon, a versão brasileira reúne nomes conhecidos do teatro e do humor, como Alessandra Maestrini, Marcos Veras, Giulia Nadruz e Luis Lobianco. A proposta é revisitar a história de Jack Dawson e Rose DeWitt Bukater, personagens eternizados no cinema por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, mas sem compromisso com a seriedade do drama original.
Em vez de reproduzir fielmente a tragédia do transatlântico, “Titanique” transforma os acontecimentos em uma sequência de números musicais, piadas e situações inesperadas. A história é conduzida por uma versão cômica da cantora canadense Celine Dion, interpretada por Alessandra Maestrini, que narra os acontecimentos a partir de uma perspectiva exagerada e deliberadamente absurda.
O resultado é uma experiência teatral que mistura nostalgia, música, paródia e referências culturais de diferentes gerações.
Celine Dion conduz a história com muito humor
A estrutura do musical é inspirada nas canções mais conhecidas do repertório de Celine Dion, cuja interpretação de “My Heart Will Go On” se tornou um dos símbolos mais marcantes do filme “Titanic”, lançado em 1997.
Na produção teatral, porém, a cantora não aparece apenas como uma referência musical. Ela se transforma em personagem central da narrativa, conduzindo a história e interferindo nos acontecimentos com uma personalidade extravagante.
Alessandra Maestrini assume o desafio de interpretar essa versão cômica da artista canadense. Conhecida por sua capacidade vocal e presença de palco, a atriz combina interpretação musical e humor para dar vida a uma personagem que ultrapassa os limites da homenagem tradicional.
A proposta acompanha o espírito da montagem original, que estreou em junho de 2022 no circuito off-Broadway, em Nova York. Criado por Tye Blue, Marla Mindelle e Constantine Rousouli, o espetáculo conquistou espaço justamente por transformar uma história dramática em uma paródia musical sem compromisso com a lógica convencional.
Na adaptação brasileira, essa irreverência ganha novos elementos. As referências à música nacional aproximam a narrativa do público e criam situações que dialogam com diferentes épocas da cultura popular.
“Berimbau” transforma Jack em personagem de capoeira
Entre os momentos que mais chamam a atenção na montagem está a referência a “Berimbau”, clássico do afro-samba composto por Baden Powell e Vinicius de Moraes em 1963.
Durante uma cena no convés do navio, o personagem Jack, interpretado por Marcos Veras, canta e dança um trecho da música, incorporando movimentos e cadências associados à capoeira.
A escolha provoca uma ruptura proposital com o universo romântico do filme original. Em vez de manter o tom dramático da relação entre Jack e Rose, o espetáculo transforma a situação em uma sequência musical inesperada, na qual a cultura brasileira ocupa o centro da brincadeira.
Essa mistura de referências é uma das características mais marcantes de “Titanique”. A montagem não se limita a traduzir o espetáculo para o português: ela incorpora elementos reconhecíveis pelo público brasileiro e os utiliza para construir novas piadas.
A música de Baden Powell e Vinicius de Moraes, tradicionalmente associada à força rítmica e à expressividade do afro-samba, passa a integrar uma narrativa que brinca com os limites entre o drama, a música e o humor.
Bonde do Tigrão e Rosana entram na brincadeira
A irreverência também aparece nas referências ao funk brasileiro. Em uma das cenas, Luis Lobianco, que interpreta Ruth, a mãe de Rose, utiliza o refrão de “O baile todo”, sucesso associado ao Bonde do Tigrão, para provocar risadas na plateia.
O trecho “Só as cachorras / As preparadas” aparece como uma citação inesperada dentro da narrativa. A escolha reforça o caráter debochado da produção e aproxima o musical de uma tradição brasileira de humor baseada em referências populares, exageros e contrastes.
Lobianco é um dos destaques da montagem. Na pele de Ruth, a mãe preconceituosa e elitista de Rose, o ator explora o potencial cômico da personagem e utiliza improvisos para ampliar o efeito das cenas.
Outro momento musical importante envolve “O amor e o poder”, um dos maiores sucessos da cantora Rosana no Brasil. A canção é uma versão em português de “The Power of Love”, originalmente gravada por Jennifer Rush em 1984 e posteriormente popularizada mundialmente na interpretação de Celine Dion, lançada em 1993.
No musical, Rose demonstra o desejo de conquistar espaço para um solo e acaba incorporando o refrão da música brasileira. A referência dialoga com o repertório da própria Celine Dion e, ao mesmo tempo, brinca com a memória afetiva do público que conhece a versão de Rosana.
A sobreposição de versões, intérpretes e estilos faz parte da lógica do espetáculo. O humor surge justamente da mistura de elementos que, em uma produção tradicional, dificilmente seriam colocados lado a lado.
Marcos Veras arranca risadas ao imitar Daniel
A música sertaneja também ganha espaço na montagem. Marcos Veras protagoniza um dos momentos cômicos ao imitar o cantor Daniel interpretando “Te amo cada vez mais”, canção que fez sucesso na voz de Celine Dion com o título original “To Love You More”.
A versão em português, adaptada por Roberto Merli, foi gravada por Daniel quando ele ainda formava dupla com João Paulo, que morreu em 1997. Posteriormente, a música continuou presente no repertório da carreira solo do cantor.
Ao incorporar a interpretação associada a Daniel, Veras cria uma situação que mistura memória musical e paródia. O número explora o reconhecimento imediato da canção e transforma a diferença entre as versões em combustível para a comédia.
A cena também exemplifica a maneira como “Titanique” utiliza músicas conhecidas para provocar identificação com o público. Em vez de depender exclusivamente das referências internacionais de Celine Dion, a montagem recorre a artistas brasileiros que marcaram diferentes gerações.
O resultado é um repertório que pode surpreender tanto os admiradores do filme original quanto os espectadores que reconhecem os sucessos da música nacional.
Elenco aposta em potência vocal e personagens exagerados
Apesar da forte presença do humor, o espetáculo também funciona como uma vitrine para o talento vocal do elenco. Alessandra Maestrini, Giulia Nadruz, Talita Real e Valéria Barcellos participam de números que exigem interpretação musical, presença cênica e capacidade de transitar entre o exagero e a precisão vocal.
Talita Real interpreta Molly Brown, personagem que no filme de 1997 foi vivida pela atriz Kathy Bates. Já Valéria Barcellos assume uma representação bem-humorada de Tina Turner, apresentada como a personificação do iceberg responsável pelo naufrágio do navio.
A transformação do iceberg em uma figura inspirada em uma estrela da música reforça o estilo absurdo da montagem. Em vez de tratar o desastre marítimo como uma tragédia, o musical utiliza o acontecimento como ponto de partida para novas situações cômicas.
George Sauma também se destaca no papel de Cal, o noivo de Rose. A interação do ator com Luis Lobianco é apontada como um dos pontos fortes da produção, graças à combinação de exagero, improviso e ritmo de comédia.
A química entre os integrantes do elenco ajuda a sustentar o espetáculo ao longo de aproximadamente duas horas, período em que os números musicais se alternam com diálogos e situações inesperadas.
Uma comédia que resgata a tradição do besteirol
A montagem brasileira de “Titanique” dialoga com a tradição do besteirol, gênero de humor marcado pela irreverência, pelo exagero e pela disposição de romper com convenções narrativas.
As referências a Celine Dion, Rosana, Bonde do Tigrão, Daniel e Sandy & Junior mostram que a produção não pretende se limitar a uma paródia do cinema americano. O espetáculo constrói uma linguagem própria ao misturar repertórios musicais, referências populares e personagens que desafiam a lógica da história original.
A presença de músicas brasileiras de diferentes épocas também ajuda a ampliar o alcance da comédia. O público encontra referências que vão da música popular romântica ao funk, passando pelo sertanejo e por composições consagradas da música brasileira.
Essa combinação transforma a experiência em uma brincadeira com a memória cultural dos espectadores. Cada citação musical funciona como uma surpresa, especialmente quando surge em uma cena que, originalmente, teria um significado dramático.
“Titanique” transforma tragédia em diversão nos palcos cariocas
Ao chegar ao Rio de Janeiro, “Titanique” aposta em uma fórmula que combina grandes sucessos musicais, referências nacionais e humor sem compromisso com a lógica tradicional.
O espetáculo mantém Celine Dion no centro da narrativa, mas amplia o universo da cantora com participações musicais inesperadas e personagens que transformam a história de “Titanic” em uma sucessão de situações absurdas.
Com Alessandra Maestrini à frente do elenco, além das participações de Marcos Veras, Giulia Nadruz, Luis Lobianco, Talita Real, Valéria Barcellos e George Sauma, a montagem procura conquistar o público pela combinação de talento vocal e liberdade cômica.
Em cartaz no Teatro Claro Mais, de quinta-feira a domingo, até 7 de novembro, o musical oferece uma alternativa para quem deseja revisitar a história de “Titanic” sem o peso emocional do drama cinematográfico.
Na versão de “Titanique”, o navio continua destinado a afundar. A diferença é que, entre uma canção e outra, a plateia é convidada a mergulhar em uma comédia que transforma a tragédia em música, improviso e muitas gargalhadas.
















