A música brasileira ganha uma nova leitura com o lançamento de “R&Belo”, álbum em que o cantor e compositor Maui revisita parte do repertório de Belo, um dos nomes mais conhecidos do pagode nacional. Lançado em 14 de outubro, o projeto aposta no encontro entre a memória afetiva de canções populares e a sonoridade contemporânea do rhythm and blues (R&B), criando novas possibilidades para músicas que marcaram diferentes gerações.
Nascido Gabriel dos Santos Silva, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, Maui construiu o trabalho a partir de sua relação pessoal com as canções de Belo. A proposta não se limita a reproduzir os sucessos do artista: a intenção é reinterpretá-los, explorando novas texturas, ritmos e arranjos sem perder de vista a identidade emocional das composições.
O próprio título do álbum resume a ideia de maneira direta e criativa. A combinação entre “R&B” e “Belo” apresenta a principal característica do projeto: transportar músicas conhecidas do pagode para um universo musical influenciado pelo R&B, pelo soul e por vertentes contemporâneas da música urbana.
O conceito também aparece na identidade visual do lançamento. O cabelo loiro platinado de Maui, presente na capa e nas fotografias promocionais, remete à imagem de Belo e reforça o caráter de homenagem do trabalho.
A conexão entre Maui, o R&B e o pagode
A escolha do repertório de Belo tem relação com a história musical de Maui. O cantor cresceu ouvindo e cantando músicas que fizeram parte da trajetória do artista, tanto na época em que ele era vocalista do grupo Soweto quanto durante sua carreira solo, iniciada em 2000.
Belo, nome artístico de Marcelo Pires Vieira, consolidou seu espaço no cenário musical brasileiro com interpretações marcadas pela emoção, pelo romantismo e pela proximidade com o público. Embora seja reconhecido principalmente pelo pagode, sua maneira de cantar também apresenta características associadas ao R&B, gênero de origem norte-americana que combina elementos do soul, do blues e de outras tradições musicais.
Essa aproximação ajudou Maui a encontrar um caminho próprio para desenvolver “R&Belo”. O artista relata que, depois de passar por uma fase de maior aproximação com o rock, descobriu o R&B e o soul, estilos que passaram a fazer parte de sua identidade musical.
A experiência permitiu que ele se aproximasse do repertório de Belo sem tratar as canções apenas como releituras nostálgicas. O projeto procura destacar elementos que já estavam presentes nas gravações originais e ampliá-los por meio de novas escolhas rítmicas e instrumentais.
O resultado é uma proposta que conecta diferentes gerações e estilos, aproximando o romantismo do pagode de uma linguagem contemporânea.
Produção musical aposta em novas sonoridades
Maui assina a produção do álbum ao lado de Machadez, responsável por instrumentos e elementos como guitarra, teclados, baixo e bateria eletrônica. O trabalho também reúne contribuições de produtores como Caetanoprod, CL Fez o Beat, DJ 2F e Taleko.
Essa colaboração ajuda a construir a diversidade sonora do projeto. Em vez de adotar uma única fórmula para todas as faixas, o álbum explora diferentes caminhos para reinterpretar as canções escolhidas.
O R&B funciona como elemento central, mas dialoga com estilos como trap soul, afrobeat, dancehall e amapiano. Essas influências permitem alterar a atmosfera das músicas e criar novas relações entre melodia, ritmo e interpretação vocal.
A proposta também evidencia como repertórios populares podem continuar vivos por meio de novas leituras. Quando uma canção é reinterpretada, ela pode alcançar ouvintes que não acompanharam seu lançamento original e, ao mesmo tempo, despertar lembranças em quem já conhece a obra.
Em “R&Belo”, esse encontro entre passado e presente é parte fundamental da identidade artística.
“Agenda” tem significado especial para o cantor
Entre as faixas do álbum, “Agenda” ocupa um lugar especial na história pessoal de Maui. A música, composta por Alexandre Lucas, Umberto Tavares e Douglas Raphael, ficou conhecida nas vozes de Belo e Ornella Di Santis.
Na nova versão, Maui divide a interpretação com Melly e aposta em uma atmosfera inspirada no R&B das décadas de 1990 e 2000. A escolha reforça o caráter romântico da composição e evidencia a afinidade entre o repertório original e a proposta do álbum.
Em relato sobre a música, Maui explicou que aprendeu a cantá-la ainda na infância, quando costumava interpretar a canção com a tia, assumindo as duas vozes.
“Eu cresci cantando essas músicas. ‘Agenda’, por exemplo, eu cantava com a minha tia, fazendo as duas vozes. É uma música que já tinha muito de R&B na versão do Belo”, contou o artista.
A lembrança ajuda a compreender a dimensão afetiva do projeto. Para Maui, revisitar essas canções significa voltar a experiências pessoais que contribuíram para sua formação musical.
Ao lado de Melly, a nova interpretação procura preservar o sentimento da composição, mas acrescenta uma abordagem sonora própria, aproximando a canção das referências musicais que orientam o álbum.
Afreekassia participa de nova versão de “Vi amor no seu olhar”
Outra faixa que chama a atenção é “Vi amor no seu olhar”, composição de Umberto Tavares, Jefferson Junior e R. Kauê, lançada originalmente em 2013.
Na releitura de Maui, a música aproxima o pagode do trap soul e conta com a participação da cantora Afreekassia. A combinação modifica a textura da faixa e oferece uma interpretação alinhada à proposta de atualização do repertório de Belo.
O trap soul, que mistura elementos do R&B com influências do trap e da música urbana contemporânea, contribui para criar uma atmosfera diferente da versão original. A participação de Afreekassia acrescenta outra presença vocal à gravação e amplia as possibilidades de interpretação da composição.
A escolha mostra que o álbum não pretende seguir uma fórmula rígida. Cada música recebe um tratamento específico, de acordo com as características da composição e as referências sonoras exploradas pelos artistas envolvidos.
KBrum e Darlan ampliam a diversidade do projeto
Em “Contramão”, composição de Umberto Tavares e Jefferson Junior, Maui divide os vocais com KBrum. A releitura combina afrobeat, R&B, dancehall e amapiano, estilos que oferecem uma abordagem rítmica diferente para a música.
A presença dessas influências amplia o alcance sonoro do álbum e aproxima o repertório de tendências contemporâneas da música internacional. Ao incorporar esses elementos, Maui procura demonstrar que canções originalmente ligadas ao pagode podem dialogar com outras linguagens sem perder sua essência.
Já “Feito meu”, composição de Umberto Tavares, Jefferson Junior e Prateado, de 2001, aproxima o pagode do R&B por meio do trap soul. A escolha reforça o caráter experimental do projeto e a intenção de explorar diferentes formas de interpretação.
Em “Pra ver o sol brilhar”, composição de Umberto Tavares, Jefferson Junior e Léo Shanty, lançada em 2008, a participação de Darlan acrescenta uma nova dimensão vocal à gravação.
Essas colaborações ajudam a construir um álbum que valoriza tanto a interpretação de Maui quanto a contribuição dos artistas convidados. Cada participação acrescenta características próprias ao repertório e amplia a variedade de atmosferas presentes no trabalho.
Uma homenagem que conecta gerações
“R&Belo” se apresenta como um projeto de homenagem, mas também como uma experiência de experimentação musical. Ao revisitar canções importantes da trajetória de Belo, Maui reconhece a influência do artista sobre sua formação e propõe uma maneira diferente de ouvir esse repertório.
A iniciativa evidencia a capacidade de músicas românticas e populares de atravessar gerações, ganhar novos arranjos e encontrar públicos diferentes. O pagode permanece como referência central, enquanto o R&B e outros estilos ampliam as possibilidades de interpretação.
Mais do que reproduzir sucessos conhecidos, Maui procura estabelecer um diálogo entre suas memórias, suas influências e a linguagem musical que desenvolveu ao longo da carreira.
Com participações de Melly, KBrum, Afreekassia e Darlan, além de uma produção que reúne diferentes referências, “R&Belo” apresenta uma leitura contemporânea de canções que continuam presentes na memória afetiva do público.
O álbum transforma essa relação com o passado em um projeto de identidade própria, mostrando como a homenagem a um artista pode servir também como ponto de partida para novas experiências sonoras na música brasileira.
















