A cantora e compositora Mariana Matsui prepara o lançamento de seu primeiro álbum, um trabalho que conecta diferentes gerações da música brasileira e aproxima as sonoridades do Brasil e do Japão. Entre as nove faixas do disco, a artista revisita “Mentira”, composição de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle originalmente gravada em 1973, e apresenta uma nova leitura de “Fotografia”, clássico composto por Tom Jobim em 1959.
Intitulado “Mariana Matsui”, o álbum tem lançamento previsto para quarta-feira, 28 de outubro, pela gravadora japonesa Rambling Records, com edição também em CD. O projeto reúne participações de nomes importantes da música, como o próprio Marcos Valle, a cantora Lisa Ono e o violoncelista Jaques Morelenbaum.
A proposta combina referências da bossa nova, do samba, do jazz e da música japonesa, construindo um repertório que valoriza tanto composições consagradas quanto criações autorais da artista. O resultado é um trabalho que busca aproximar tradições musicais diferentes sem perder de vista a identidade brasileira presente em cada interpretação.
“Mentira” atravessa mais de cinco décadas da música brasileira
A história de “Mentira” começou em 1973, quando Marcos Valle lançou o álbum “Previsão do tempo”. Naquele período, o músico explorava novas possibilidades sonoras ao lado do Azymuth, trio carioca que desenvolveu uma linguagem própria a partir da combinação de samba, funk e jazz.
O resultado foi um disco marcado por grooves, arranjos instrumentais elaborados e uma sonoridade que dialogava com as transformações da música popular brasileira durante a década de 1970.
A composição “Mentira”, assinada por Marcos Valle e seu irmão Paulo Sérgio Valle, destacou-se pelo ritmo e pela força do arranjo. A faixa também ganhou visibilidade ao integrar a trilha sonora da novela “Carinhoso”, exibida pela TV Globo em 1973, e chegou a ser lançada em compacto simples, formato bastante utilizado pelo mercado fonográfico da época.
O contexto histórico daquele período também ajuda a compreender o ambiente em que o álbum foi produzido. O Brasil vivia a ditadura militar, marcada pela repressão política e pelas restrições às liberdades individuais. Embora a música não se limite a uma interpretação política, a atmosfera cultural daquele momento influenciou diferentes artistas e suas formas de expressão.
Décadas depois, a gravação original de “Mentira” voltou a circular em outro contexto musical. Em 2000, o Planet Hemp utilizou um sample da faixa em “Contexto”, demonstrando como a produção de Marcos Valle continuou servindo de referência para artistas de diferentes estilos.
Agora, mais de meio século depois da gravação original, Mariana Matsui apresenta uma nova interpretação da composição, desta vez com a participação do próprio Marcos Valle. A colaboração estabelece uma ligação direta entre a versão histórica e a releitura contemporânea, ampliando a trajetória de uma música que atravessou diferentes gerações.
“Fotografia” ganha nova interpretação
Outro destaque do álbum é “Fotografia”, composição de Tom Jobim lançada em 1959. A canção faz parte do repertório mais delicado do compositor e se consolidou como uma das obras reconhecidas de sua produção autoral.
A música apresenta características associadas à bossa nova, com melodia sofisticada, atmosfera intimista e uma construção harmônica que favorece interpretações sensíveis. Ao longo das décadas, a composição foi revisitada por diferentes intérpretes, mantendo sua presença no repertório da música brasileira.
Na versão de Mariana Matsui, a escolha reforça o diálogo do álbum com a tradição musical do país. Ao revisitar uma obra de Tom Jobim, a cantora se aproxima de um repertório que ultrapassou fronteiras e ajudou a tornar a bossa nova conhecida internacionalmente.
A interpretação também se encaixa na proposta geral do disco: recuperar composições importantes sem tratá-las apenas como peças de memória. A intenção é apresentar novas leituras, respeitando a identidade das obras e permitindo que elas encontrem outros públicos.
Álbum reúne músicos de diferentes experiências
O disco foi gravado no estúdio Da Pá Virada, em São Paulo, e conta com produção musical de Thiago Big Rabello, responsável também pela bateria e pela percussão.
A formação instrumental inclui Conrado Goys, no violão e na guitarra; Fábio Sá, no baixo; e Salomão Soares, no piano, piano elétrico Rhodes e sintetizadores.
A combinação desses instrumentos oferece possibilidades para explorar diferentes atmosferas musicais, aproximando elementos acústicos e eletrônicos sem perder a conexão com as raízes da música brasileira.
A participação dos músicos é importante para a construção da identidade sonora do álbum. Em um repertório que reúne clássicos, composições autorais e referências culturais distintas, os arranjos ajudam a estabelecer unidade entre as faixas.
O projeto também aposta na diversidade de interpretações, alternando momentos de maior presença rítmica com passagens mais intimistas. Essa variedade contribui para que o álbum percorra diferentes emoções e estilos sem abandonar sua proposta central.
“Lullaby” traduz uma experiência pessoal
Entre as composições próprias de Mariana Matsui está “Lullaby”, um acalanto criado após a cantora descobrir que estava grávida do primeiro filho.
A música representa um momento particular da trajetória pessoal da artista e transforma a expectativa da maternidade em expressão musical. O tema amplia a dimensão íntima do álbum, que não se limita à interpretação de obras de outros compositores.
A faixa conta com a participação do violoncelista Jaques Morelenbaum, músico reconhecido por sua atuação em projetos ligados à música brasileira e por suas colaborações com artistas de diferentes gerações.
Um detalhe chama a atenção na gravação: “Lullaby” foi registrada em um único take, com o piano de Salomão Soares. A escolha preserva a espontaneidade da execução e reforça a atmosfera delicada proposta pela composição.
A canção funciona como um registro afetivo de uma mudança importante na vida da cantora. Ao compartilhar essa experiência por meio da música, Mariana acrescenta ao repertório uma dimensão autobiográfica que contrasta com as releituras de clássicos e amplia a personalidade do disco.
Mariana Matsui e Lisa Ono aproximam Brasil e Japão
A conexão entre as duas culturas também aparece em “Kawa no nagare no yō ni”, composição de Akira Mitake e Yasushi Akimoto que se tornou um sucesso da música japonesa na voz de Hibari Misora.
A canção foi lançada em janeiro de 1989, poucos meses antes da morte de Misora, e passou a ocupar um lugar importante no repertório popular japonês.
No álbum, Mariana Matsui apresenta uma versão com influência da bossa nova e participação de Lisa Ono. A cantora construiu sua identidade musical a partir da aproximação entre Brasil e Japão, tornando-se uma referência nesse diálogo cultural.
A escolha da música reforça a proposta de unir repertórios que, apesar de suas origens distintas, podem encontrar pontos de contato na melodia, na interpretação e na sensibilidade dos arranjos.
Ao incorporar uma composição conhecida do público japonês a um projeto que também valoriza a música brasileira, Mariana amplia o alcance cultural do álbum e evidencia como a música pode estabelecer pontes entre países e gerações.
Um primeiro álbum marcado por encontros musicais
O lançamento de “Mariana Matsui” reúne diferentes dimensões da trajetória da cantora: a valorização da música brasileira, a aproximação com o repertório japonês e a apresentação de composições próprias inspiradas em experiências pessoais.
A presença de Marcos Valle em “Mentira” estabelece uma ligação entre a história da música brasileira dos anos 1970 e uma nova interpretação da obra. Já “Fotografia” reafirma a permanência da criação de Tom Jobim, enquanto “Lullaby” revela uma faceta íntima da artista.
A participação de Lisa Ono em “Kawa no nagare no yō ni” completa esse diálogo entre culturas, demonstrando como referências musicais distintas podem coexistir em um mesmo projeto.
Com lançamento previsto para 28 de outubro pela Rambling Records, inclusive em formato físico de CD, o álbum chega como uma apresentação da identidade artística de Mariana Matsui. Mais do que reunir canções conhecidas, o trabalho propõe uma escuta que conecta memória, renovação e experiências pessoais.
Ao recuperar “Mentira” e revisitar “Fotografia”, a cantora contribui para manter vivo um repertório que continua inspirando músicos e ouvintes. Ao mesmo tempo, abre espaço para novas composições e encontros que mostram a capacidade da música de atravessar décadas, idiomas e fronteiras culturais.
















