O Banco Central (BC) aprovou novas regras para ampliar a proteção de consumidores em situação de vulnerabilidade financeira e reduzir o risco de endividamento excessivo no Brasil. A partir de 31 de março de 2027, bancos e outras instituições financeiras precisarão obter autorização prévia, específica e inequívoca de clientes identificados como mais vulneráveis para realizar ofertas ativas de crédito.

A medida busca impedir que consumidores que já enfrentam dificuldades para pagar suas contas recebam propostas capazes de agravar ainda mais a situação financeira. Com a nova regulamentação, as instituições deverão observar critérios mais rigorosos antes de apresentar determinadas ofertas, priorizando alternativas que possam contribuir para melhorar as condições de pagamento das dívidas existentes.

Entre as operações permitidas nesse contexto estão a renegociação de dívidas, a portabilidade de crédito — quando o consumidor transfere uma operação de empréstimo de uma instituição financeira para outra — e a migração para produtos com condições mais vantajosas.

Por outro lado, as instituições não poderão utilizar essas abordagens direcionadas aos consumidores vulneráveis para oferecer novos recursos financeiros. A intenção é evitar que uma pessoa já comprometida com dívidas seja estimulada a assumir novas obrigações em um momento de fragilidade econômica.

As medidas fazem parte de um conjunto de três resoluções aprovadas pelo Banco Central e publicadas na sexta-feira (23). As normas também incluem mudanças na transparência das operações, mecanismos para consulta de dívidas e novas exigências para ofertas de crédito relacionadas ao Pix.

Autorização será obrigatória para ofertas direcionadas

A principal mudança diz respeito à forma como as instituições financeiras poderão abordar clientes que apresentam maior risco de endividamento. A partir do prazo estabelecido, não será suficiente que o banco tenha autorização genérica para entrar em contato com o consumidor: será necessário obter consentimento prévio, específico e inequívoco para as ofertas ativas previstas na regulamentação.

Na prática, a regra pretende dar ao consumidor maior controle sobre as propostas financeiras que recebe, especialmente quando já existem sinais de comprometimento excessivo da renda.

Uma pessoa que enfrenta dificuldades para pagar parcelas de empréstimos, por exemplo, poderá precisar de uma alternativa que reduza os juros, reorganize os vencimentos ou torne os pagamentos mais compatíveis com sua capacidade financeira. Nesses casos, a renegociação pode ajudar a evitar que a dívida continue crescendo.

A portabilidade também pode ser uma alternativa quando outra instituição oferece condições mais favoráveis para uma operação existente. Entretanto, a vantagem precisa ser avaliada considerando o custo total, o prazo e as condições contratuais, e não apenas o valor de uma parcela isolada.

A regulamentação busca direcionar as abordagens das instituições para soluções que possam contribuir para o equilíbrio financeiro do cliente, em vez de estimular novas contratações.

É importante destacar que as regras não impedem os consumidores de procurar espontaneamente os bancos, pesquisar produtos financeiros ou contratar crédito por iniciativa própria. A mudança está relacionada às ofertas ativas feitas pelas instituições nas situações abrangidas pela norma.

Consumidores poderão bloquear ofertas de crédito

Outro ponto previsto pelo Banco Central amplia as possibilidades de controle sobre a publicidade financeira. Independentemente da situação econômica, todos os consumidores deverão contar com um mecanismo claro para bloquear propagandas e ofertas ativas de crédito.

A iniciativa pretende oferecer mais autonomia a quem não deseja receber propostas de empréstimos, financiamentos ou outros produtos dessa natureza.

A possibilidade de bloqueio pode ser especialmente relevante para pessoas que recebem contatos frequentes por telefone, mensagens ou outros canais de comunicação. Embora o crédito possa ser uma ferramenta útil em determinadas circunstâncias, a repetição de ofertas pode dificultar a avaliação cuidadosa das condições de uma contratação.

Com a nova exigência, as instituições deverão disponibilizar meios claros para que o cliente manifeste sua preferência e interrompa esse tipo de abordagem.

A proteção, contudo, não substitui a necessidade de analisar as condições de cada operação. Antes de assumir um compromisso financeiro, o consumidor deve verificar os juros, o custo efetivo total, o prazo de pagamento, as tarifas aplicáveis e o impacto das parcelas no orçamento mensal.

Painel de Dívidas Consolidadas deverá facilitar a consulta

Outra medida aprovada pelo Banco Central prevê a criação do Painel de Dívidas Consolidadas, ferramenta que deverá ser disponibilizada pelas instituições financeiras a partir de 1º de julho de 2027.

O objetivo é permitir que os consumidores consultem informações sobre suas operações de crédito e compreendam melhor o peso das dívidas sobre a renda.

A ferramenta deverá reunir dados que ajudem a identificar quanto o cliente deve e qual parcela de seus rendimentos está comprometida com pagamentos. Esse tipo de informação pode ser importante para quem precisa reorganizar as despesas, comparar alternativas de renegociação ou avaliar se tem condições de assumir uma nova obrigação financeira.

Inicialmente, o painel deverá apresentar apenas as operações contratadas na própria instituição. Em uma etapa posterior, a proposta é incorporar informações do Sistema de Informações de Crédito (SCR), mantido pelo Banco Central, e do Open Finance, mecanismo que permite o compartilhamento de dados financeiros entre instituições mediante autorização do cliente.

Com a integração gradual dessas informações, a ferramenta poderá oferecer uma visão mais abrangente das dívidas, permitindo uma avaliação mais completa do comprometimento financeiro.

A consolidação dos dados também poderá contribuir para decisões mais conscientes. Ao conhecer melhor o conjunto de suas obrigações, o consumidor terá mais condições de identificar prioridades, comparar propostas e evitar contratações incompatíveis com sua capacidade de pagamento.

Bancos deverão apresentar custos e alertas antes de novas contratações

As resoluções também estabelecem exigências relacionadas à informação oferecida ao consumidor antes da contratação de crédito.

As instituições financeiras deverão apresentar simulações dos custos das operações, explicar seus impactos financeiros e emitir alertas quando forem identificadas situações de maior risco.

A proposta é que o cliente tenha acesso a informações suficientes para compreender as consequências de um empréstimo antes de assumir o compromisso.

Uma parcela aparentemente baixa, por exemplo, pode estar associada a um prazo longo e resultar em um custo total elevado. Da mesma forma, contratar diferentes operações ao mesmo tempo pode comprometer uma parte significativa da renda, reduzindo os recursos disponíveis para despesas essenciais, como alimentação, moradia, transporte e saúde.

Por isso, a transparência sobre juros, prazos e valores totais é fundamental para uma decisão financeira responsável.

Os alertas previstos na regulamentação devem ajudar a chamar a atenção para situações que mereçam maior cuidado. A medida também reforça a responsabilidade das instituições na apresentação de produtos financeiros, especialmente quando a contratação pode ampliar o risco de inadimplência.

Novas regras também alcançam ofertas de crédito pelo Pix

O Banco Central estabeleceu ainda exigências específicas para ofertas de crédito realizadas durante a iniciação de transações pelo Pix.

A partir de 1º de julho de 2027, as instituições precisarão obter consentimento prévio e específico do usuário para apresentar esse tipo de oferta. A regulamentação também determina um intervalo mínimo de 24 horas entre a habilitação do serviço e a primeira oferta de crédito.

Além disso, os bancos deverão disponibilizar ferramentas como simuladores e ambientes para consulta das operações contratadas.

As mudanças pretendem garantir que o consumidor tenha tempo e informações para avaliar uma proposta, evitando que uma decisão financeira seja tomada sem a compreensão adequada das condições envolvidas.

A norma também estabelece restrições para determinadas modalidades de crédito relacionadas ao Pix e define regras para devoluções associadas a essas operações.

O Banco Central ressalta, porém, que o dinheiro continuará sendo recebido de forma instantânea e integral pelo beneficiário da transação. Portanto, as novas exigências voltadas às ofertas de crédito não alteram essa característica central do sistema de pagamentos.

Medidas buscam prevenir o superendividamento

O conjunto de resoluções representa uma ampliação das medidas de proteção nas relações entre consumidores e instituições financeiras. Ao estabelecer regras para ofertas direcionadas, exigir informações mais claras e prever instrumentos para consulta de dívidas, o Banco Central busca reduzir situações em que a contratação de crédito agrava dificuldades econômicas.

O superendividamento pode afetar diferentes aspectos da vida cotidiana, comprometendo o pagamento de despesas essenciais e aumentando a pressão sobre o orçamento familiar. Quando uma parte excessiva da renda fica destinada a empréstimos e financiamentos, torna-se mais difícil lidar com gastos inesperados ou manter as contas em dia.

Nesse cenário, o acesso a informações claras e a alternativas de renegociação pode ajudar o consumidor a tomar decisões mais adequadas à sua realidade financeira.

As novas regras também reforçam que a oferta de crédito deve considerar não apenas a possibilidade de contratação, mas os riscos envolvidos para quem assume a dívida.

As datas de implementação serão importantes para que as instituições adaptem seus sistemas, canais de atendimento e procedimentos internos às exigências. As regras sobre ofertas direcionadas a consumidores vulneráveis começam a valer em 31 de março de 2027, enquanto o painel de dívidas e as mudanças específicas relacionadas ao Pix têm previsão de implementação a partir de 1º de julho de 2027.

Com as três resoluções, o Banco Central pretende ampliar a transparência, fortalecer a proteção dos consumidores e incentivar relações de crédito mais responsáveis. Para quem utiliza empréstimos e financiamentos, a mudança reforça a importância de conhecer as próprias dívidas, comparar condições e avaliar cuidadosamente o impacto de cada contratação no orçamento.