Chico Lobo apresenta seu 36º álbum, “Recibo de violeiro”, um trabalho que percorre diferentes sonoridades do Brasil rural sem abandonar a essência da viola caipira. A obra reafirma a ligação do artista com as tradições musicais do interior e demonstra como a cultura popular pode dialogar com diferentes estilos sem perder sua identidade.

Com lançamento pela gravadora Kuarup previsto para sexta-feira, 30 de outubro de 2026, inclusive em edição física em CD, o disco representa mais um capítulo de uma trajetória dedicada à valorização das tradições musicais do interior. Ao longo de dez composições autorais, o artista transita por toadas, modas de viola, folias de reis, batuques e ritmos populares, além de se aproximar do rock rural e explorar uma combinação delicada entre a música interiorana e a bossa nova.

O projeto também reúne convidados de diferentes gerações e estilos, mostrando que a viola pode dialogar com universos musicais diversos sem perder sua personalidade. Entre os artistas que participam do álbum estão Zeca Baleiro, Leila Pinheiro, Fernanda Takai, Humberto Gessinger, Jane Duboc, John Ulhoa e o Grupo Mutirão.

Mais do que apresentar novas canções, “Recibo de violeiro” funciona como uma declaração de pertencimento. Chico Lobo reafirma sua ligação com as raízes mineiras e demonstra que a cultura rural brasileira permanece viva, aberta a transformações e capaz de conquistar públicos para além das fronteiras do interior.

Uma trajetória construída ao som da viola

Nascido em São João del-Rei, Minas Gerais, em 1964, Chico Lobo construiu uma carreira marcada pela defesa e pela renovação da música de viola. Sua história artística começou a ganhar forma em 1981, quando subiu pela primeira vez a um palco como integrante do Grupo Mutirão, no Teatro Municipal de sua cidade natal.

Quarenta e cinco anos depois dessa estreia, o músico mantém a mesma conexão com o instrumento que o acompanha desde o início da trajetória. O novo álbum também marca os 30 anos do lançamento de seu primeiro disco solo, “No braço dessa viola”, de 1996.

Essa continuidade ajuda a compreender a identidade artística do violeiro. Em vez de tratar a tradição como algo parado no tempo, Chico Lobo procura mantê-la em movimento, incorporando novas influências e estabelecendo parcerias com artistas que transitam por diferentes estilos.

A viola caipira ocupa o centro dessa caminhada. Instrumento associado à cultura sertaneja, às festas populares e às rodas de música do interior, ela ganha novas possibilidades nas mãos do compositor, que utiliza suas sonoridades para falar de afetos, paisagens, memória, natureza e identidade.

O título “Recibo de violeiro” também sugere uma espécie de testemunho artístico: um registro da caminhada de quem dedicou décadas à música e continua encontrando histórias para contar por meio das cordas.

Um mapa musical que atravessa diferentes tradições

Entre os destaques do álbum está a diversidade de ritmos. O samba rural “Cantar é um dom maior” apresenta uma das faces do trabalho, enquanto “Viola do tempo”, parceria de Chico Lobo com o poeta gaúcho Carlos Di Jaguarão, mergulha na tradição da moda de viola.

A dimensão romântica aparece em “A manteiga e o pão”, canção que segue a delicadeza característica das composições voltadas aos sentimentos e aos relacionamentos. Já “Goiabada com queijo” aproxima o calango mineiro de uma sonoridade marcada pela colaboração entre Chico Lobo e John Ulhoa, com participação de Fernanda Takai.

O reencontro com o Grupo Mutirão acontece em “Batuquinho”, faixa que recupera a força rítmica do batuque de viola e reforça a importância dos laços construídos no início da carreira do artista.

A tradição das festas populares também ganha espaço em “Na companhia de bichos”, composição que percorre o universo da folia de reis, manifestação cultural e religiosa presente em diferentes regiões brasileiras. Nessas celebrações, música, fé, personagens e convivência comunitária se unem para manter vivas práticas transmitidas entre gerações.

Ao reunir essas referências, o disco oferece ao ouvinte uma espécie de viagem sonora por diferentes expressões da cultura popular. Cada faixa apresenta uma paisagem particular, mas todas compartilham o compromisso de reconhecer a riqueza musical existente fora dos grandes centros urbanos.

Convidados ampliam os horizontes da viola

Um dos aspectos mais interessantes de “Recibo de violeiro” é o encontro entre Chico Lobo e artistas conhecidos por trajetórias bastante distintas.

Na canção “Seu olhar”, o violeiro recebe a cantora e pianista paraense Leila Pinheiro. A música parte da toada rural, mas ganha uma atmosfera próxima da bossa nova, criando uma combinação entre a delicadeza do piano, a interpretação vocal e a identidade da viola.

A participação demonstra que a tradição não precisa ficar restrita a um único formato. Quando diferentes linguagens se encontram, surgem possibilidades de interpretação que ampliam o alcance da música sem apagar suas origens.

Em “Coração de sertãozinho”, Chico Lobo divide a composição e a interpretação com Zeca Baleiro. O artista maranhense, conhecido por transitar entre diferentes estilos da música brasileira, contribui para uma canção de inspiração folk.

Baleiro também define Chico Lobo como um “mapeador musical do Brasil”, expressão que sintetiza a proposta do violeiro de reunir ritmos, festas e referências de diferentes partes do país. A descrição destaca uma característica central do trabalho: a capacidade de transformar a diversidade cultural em matéria-prima para a criação artística.

A lista de convidados inclui ainda Humberto Gessinger, que participa da faixa-título “Recibo de violeiro”. A música, parceria de Chico Lobo com Thales Martinez, aproxima a viola do rock rural e estabelece uma ponte entre a tradição interiorana e a experiência de um artista reconhecido por sua trajetória no rock brasileiro.

Jane Duboc também participa do projeto em “Águas do meu amor”, canção que leva a preocupação ambiental para o universo da toada.

A natureza também tem lugar no repertório

A preocupação com o meio ambiente aparece de forma direta em “Águas do meu amor”. Com a participação de Jane Duboc, a composição utiliza a música como espaço para refletir sobre a importância da água e a necessidade de preservar os recursos naturais.

O tema estabelece uma ligação natural com o universo rural retratado pelo álbum. Para comunidades que mantêm uma relação próxima com a terra, os rios, as plantações e os ciclos da natureza fazem parte não apenas da paisagem, mas também da memória, do trabalho e da sobrevivência.

Ao incorporar essa dimensão ao repertório, Chico Lobo amplia o alcance de sua obra. A música de raiz deixa de falar somente de costumes antigos e passa a dialogar também com questões contemporâneas, mostrando que a cultura popular pode contribuir para debates importantes da sociedade.

O disco, assim, combina celebração e reflexão. Há espaço para o romantismo, para a dança, para as manifestações religiosas, para as amizades construídas ao longo da vida e para a defesa do patrimônio natural.

Um tributo às origens e aos companheiros de caminhada

“Recibo de violeiro” é dedicado por Chico Lobo aos integrantes do Grupo Mutirão, com quem dividiu o palco pela primeira vez em 1981. A homenagem acrescenta um significado pessoal ao projeto, que reúne décadas de experiências e reafirma o valor das parcerias construídas ao longo da carreira.

A dedicação ao grupo também evidencia que uma trajetória artística não se desenvolve de maneira isolada. Ao lado do talento individual, existem encontros, amizades, aprendizados e pessoas que ajudam a manter viva uma tradição musical.

Sob a direção musical de Ricardo Gomes, produtor dos discos do violeiro desde 2016, o álbum organiza essas influências em um repertório que procura equilibrar identidade e diversidade.

Com dez músicas autorais, participações especiais e referências que atravessam diferentes regiões e estilos, Chico Lobo apresenta um trabalho que olha para o passado sem deixar de conversar com o presente.

O lançamento de “Recibo de violeiro” reafirma a importância da viola caipira como instrumento de expressão da cultura brasileira. Em suas cordas, permanecem os sons das festas populares, das histórias do interior e das relações humanas que ajudam a formar a identidade do país.

Aos 45 anos de sua estreia nos palcos e três décadas depois do primeiro álbum solo, Chico Lobo segue fiel às próprias raízes. Seu novo trabalho mostra que a música rural não é apenas lembrança de outros tempos: é uma tradição viva, capaz de se reinventar e continuar emocionando diferentes gerações.

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