Funk: a história por trás do chamado “Solinho do Fora PT” revela uma trajetória musical que atravessou gerações e fronteiras. O ritmo que ganhou espaço no cenário político brasileiro em 2026 tem raízes em uma antiga composição russa, passou pelo universo dos videogames com o sucesso de Tetris e chegou ao funk brasileiro no início dos anos 2000.

O caminho percorrido pela melodia chama atenção pela quantidade de transformações. Uma canção popular russa, que originalmente narrava o encontro entre um vendedor ambulante e uma jovem, acabou se tornando trilha de um dos jogos eletrônicos mais conhecidos do mundo. Décadas depois, sua sonoridade foi adaptada para o funk brasileiro e, em 2026, recebeu versos de conteúdo político direcionados ao Partido dos Trabalhadores (PT) e à esquerda.

A música ganhou projeção durante a campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL), sendo utilizada em vídeos, comemorações e manifestações de apoiadores. A repercussão aumentou depois que Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano, eleitos deputado federal e deputada estadual por São Paulo, respectivamente, apareceram dançando ao som da faixa após a vitória eleitoral.

A origem está na Rússia do século XIX

A história começa em 1861, quando o poeta russo Nikolai Nekrasov publicou o poema “Korobeiniki”, palavra que pode ser traduzida como “mascates” ou vendedores ambulantes.

A obra foi publicada durante o Império Russo e retratava personagens populares, especialmente pessoas que percorriam diferentes localidades comercializando mercadorias. Nekrasov era conhecido por abordar aspectos da vida cotidiana e as dificuldades enfrentadas pela população russa.

No poema, um vendedor ambulante encontra uma jovem e apresenta seus produtos, em uma narrativa que mistura comércio, aproximação amorosa e elementos da vida rural. A história ganhou popularidade e, posteriormente, recebeu uma versão musical que passou a circular como canção folclórica.

A melodia ficou conhecida como “Korobeiniki” e atravessou gerações, tornando-se parte do repertório tradicional russo.

Um detalhe importante é que a composição surgiu muito antes da criação da União Soviética, estabelecida após a Revolução Russa de 1917. Portanto, sua origem não está em um movimento comunista ou em uma música de propaganda política, mas em uma obra literária do período imperial.

Canção também entrou no repertório do Exército Soviético

Com o passar do tempo, “Korobeiniki” ganhou espaço na cultura musical russa e passou a ser interpretada por diferentes grupos. A melodia também entrou no repertório de conjuntos ligados ao Exército Soviético, conhecidos internacionalmente como Coro do Exército Vermelho.

Uma das gravações mais conhecidas foi registrada durante uma apresentação no Royal Albert Hall, em Londres, em março de 1988. A interpretação integrou um álbum que reunia músicas de diferentes estilos e origens, incluindo o hino britânico e “Yesterday”, dos Beatles.

Apesar dessa associação com um grupo militar soviético, “Korobeiniki” não nasceu como marcha militar nem como hino revolucionário. Sua origem permanece ligada à tradição popular e ao poema de Nekrasov.

A trajetória da canção também apresenta uma curiosidade histórica: nos anos 1930, um musicólogo soviético teria demonstrado insatisfação com a popularidade da música, cujo personagem central era um comerciante, em comparação com canções revolucionárias da época. A observação evidencia como uma composição popular pode atravessar diferentes contextos políticos sem perder sua identidade cultural.

Como a melodia chegou ao videogame Tetris

Outro capítulo importante começou em 1984, quando o programador soviético Alexey Pajitnov criou o Tetris, um jogo de encaixe de peças geométricas desenvolvido em Moscou.

A primeira versão do jogo não contava com a trilha sonora que milhões de pessoas conheceriam posteriormente. A associação entre Tetris e “Korobeiniki” ganhou força em 1989, quando o compositor japonês Hirokazu Tanaka preparou um arranjo da melodia para a versão do Game Boy, console portátil da Nintendo.

A escolha ajudou a transformar a música em uma das trilhas mais reconhecidas da história dos videogames. Para muitos jogadores, a melodia passou a ser identificada imediatamente com as peças que caem na tela e precisam ser organizadas para completar linhas.

O sucesso internacional do Tetris fez com que uma antiga canção russa alcançasse públicos de diferentes países, inclusive pessoas que nunca tiveram contato com o poema original ou com a tradição musical da Rússia.

Assim, uma composição do século XIX ganhou uma nova identidade no universo dos jogos eletrônicos e se tornou parte da memória afetiva de várias gerações.

Do Tetris ao funk carioca

Antes de chegar às manifestações políticas de 2026, a melodia já havia conquistado espaço no funk brasileiro.

No início dos anos 2000, montagens musicais inspiradas no tema do Tetris começaram a circular nos bailes cariocas. Um dos exemplos foi a música “Jonathan da Nova Geração”, associada à equipe Furacão 2000 e interpretada por Jonathan Costa, que ainda era criança na época.

A faixa combinava a melodia conhecida pelo videogame com elementos característicos do funk carioca. A produção também utilizava o chamado Volt Mix, uma batida criada pelo DJ norte-americano Battery Brain em 1988 e bastante aproveitada em montagens do gênero.

O reaproveitamento de melodias, samples e bases conhecidas é uma característica presente em diferentes vertentes da música eletrônica e do funk. Essa prática permite que uma composição antiga seja reconstruída com novos ritmos, letras e referências culturais.

Em 2026, a mesma combinação musical voltou a ganhar destaque com o “Solinho do Fora PT”, agora acompanhado de versos políticos direcionados ao PT e a grupos de esquerda.

Música virou símbolo de mobilização política

A popularização da faixa ocorreu em meio à campanha presidencial de 2026. A música passou a ser utilizada em vídeos de apoiadores, encontros políticos e manifestações associadas à direita.

Além de Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano, outros nomes ligados ao campo conservador também apareceram em conteúdos que utilizaram o funk como trilha. A melodia ajudou a criar uma identidade sonora para vídeos e eventos, aproveitando uma música que já era familiar a parte do público.

O uso do funk em campanhas políticas também provocou discussões sobre a relação de setores conservadores com o gênero musical. Parte dos críticos apontou uma contradição entre discursos que associam determinados bailes e letras de funk à criminalidade e a utilização da mesma estética musical em campanhas eleitorais.

Lucas Pavanato, que teve atuação relacionada à CPI dos Pancadões na Câmara Municipal de São Paulo, defendeu a distinção entre ritmo e conteúdo das letras, afirmando que sua crítica ao gênero estaria relacionada às mensagens de determinadas músicas, e não ao estilo musical em si.

O debate mostra que o funk não pertence a um único grupo político. O gênero reúne artistas, produtores e ouvintes com diferentes visões de mundo, além de ocupar espaços importantes na cultura popular brasileira.

Uma melodia, muitas identidades

A história de “Korobeiniki” demonstra como a música pode ganhar novos significados ao atravessar fronteiras e gerações. O que começou como um poema russo publicado em 1861 tornou-se canção folclórica, passou pelo repertório de um coro soviético, ganhou fama mundial no Tetris e encontrou espaço no funk carioca.

Agora, mais de 160 anos depois de sua origem literária, a melodia aparece novamente em evidência, desta vez associada a uma disputa política brasileira.

O percurso também revela que uma música não permanece necessariamente ligada ao contexto em que foi criada. Seus arranjos, letras e interpretações podem mudar conforme o período histórico e o público que a incorpora.

Para quem conhece a faixa apenas pelo verso “quem ficar parado é petista disfarçado”, talvez seja difícil imaginar que a mesma melodia já embalou jogadores de videogame, apresentações musicais na Europa e interpretações tradicionais russas.

A curiosidade está justamente nessa transformação: uma composição que atravessou impérios, regimes políticos, consoles e bailes populares agora faz parte da memória sonora de uma campanha eleitoral brasileira.