Durante mais de uma década, a enfermeira Lidia Oliveira Cunha, hoje com 55 anos, conviveu com tosse persistente, cansaço extremo e falta de ar sem imaginar que enfrentava uma doença grave. Acostumada a cuidar de pacientes, ela escondia o próprio sofrimento durante os plantões, até que o avanço da enfermidade mudou completamente sua rotina.

Após 11 anos de sintomas, Lidia recebeu o diagnóstico de esclerodermia, uma doença autoimune rara que provocou fibrose pulmonar, condição caracterizada pela formação de cicatrizes nos pulmões, reduzindo progressivamente a capacidade respiratória.

Hoje, aposentada precocemente, ela depende de oxigênio suplementar por cerca de 18 horas por dia e afirma que tarefas simples se tornaram verdadeiros desafios.

“Me canso até para tomar banho”, relata.

Sintomas foram confundidos durante anos

Os primeiros sinais apareceram quando Lidia tinha cerca de 40 anos. A tosse seca constante, o cansaço e a dificuldade para respirar pareciam compatíveis com bronquite, asma ou até consequências do tabagismo, já que ela fumou durante 16 anos.

Outros sintomas, como o embranquecimento das mãos quando expostas ao frio — conhecido como fenômeno de Raynaud — também passaram despercebidos.

Durante anos, cada manifestação foi tratada de forma isolada, atrasando o diagnóstico correto.

Segundo especialistas, essa demora é comum. Os sintomas iniciais da fibrose pulmonar costumam ser confundidos com doenças respiratórias frequentes ou até mesmo com o envelhecimento natural.

Quando a doença atinge os pulmões

A esclerodermia é uma doença autoimune em que o sistema imunológico passa a atacar tecidos saudáveis do próprio organismo.

Embora muitas pessoas associem a enfermidade ao endurecimento da pele, especialistas alertam que o comprometimento dos pulmões representa uma das complicações mais graves.

Estudos apontam que mais de 70% dos pacientes com esclerodermia desenvolvem algum grau de comprometimento pulmonar, podendo evoluir para fibrose pulmonar, responsável pela perda progressiva da função respiratória.

Nessa fase, o pulmão sofre um processo de cicatrização que dificulta a entrada de oxigênio no organismo.

Diagnóstico precoce pode fazer diferença

Médicos ressaltam que identificar a doença logo nos primeiros sinais pode aumentar significativamente as chances de controlar sua evolução.

Enquanto predomina a inflamação, os tratamentos conseguem preservar parte da função pulmonar. Porém, quando as cicatrizes já estão formadas, o dano costuma ser permanente.

Por isso, sintomas persistentes como falta de ar, tosse seca, cansaço sem causa aparente, alterações na circulação das mãos, refluxo frequente e dificuldade para engolir merecem avaliação médica especializada.

A rotina mudou completamente

A doença transformou o cotidiano de Lidia.

Atividades antes simples, como subir escadas, caminhar pequenas distâncias, vestir a roupa ou tomar banho, passaram a exigir pausas constantes por falta de ar.

Ela também precisou abandonar a profissão que exerceu por tantos anos e passou a depender da ajuda da família em diversas tarefas.

Apesar das limitações, busca manter o otimismo.

“A gente acha que perde a utilidade, mas não perde nada. Só precisa ressignificar o que é ser útil”, afirma.

Novos tratamentos trazem esperança

Nos últimos anos, a medicina avançou no tratamento da fibrose pulmonar associada à esclerodermia.

Além dos medicamentos imunossupressores utilizados para controlar a doença autoimune, novos antifibróticos vêm sendo incorporados para retardar a progressão da fibrose.

Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou um novo medicamento voltado ao tratamento da fibrose pulmonar progressiva, ampliando as perspectivas para pacientes que convivem com a doença.

Entretanto, especialistas destacam que o acesso às terapias ainda representa um desafio, principalmente na rede pública de saúde.

Informação pode salvar vidas

O caso de Lidia reforça a importância do diagnóstico precoce das doenças autoimunes e da investigação adequada de sintomas respiratórios persistentes.

Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as chances de preservar a função pulmonar, manter a qualidade de vida e evitar complicações irreversíveis.

Para especialistas, conhecer os sinais de alerta e procurar atendimento médico diante de sintomas persistentes pode fazer toda a diferença no sucesso do tratamento e na vida dos pacientes.