Tratamento médico foi a realidade de Mariah Victoria Soares Galvão durante praticamente toda a sua vida. Nascida com uma cardiopatia congênita grave e, posteriormente, diagnosticada com atresia das vias biliares, uma doença que compromete o funcionamento do fígado, a menina precisou de acompanhamento especializado desde os primeiros meses de vida. Ao longo desse período, a família também enfrentou uma longa disputa judicial para garantir transferências hospitalares e o custeio da assistência pelo plano de saúde.
Mariah nasceu em 28 de abril de 2025 e começou a apresentar sinais de problemas hepáticos pouco tempo depois. Exames realizados ainda nos primeiros meses apontaram icterícia, aumento de bilirrubinas e alterações nas enzimas do fígado, levantando a suspeita de atresia das vias biliares.
A doença dificulta ou impede o fluxo normal da bile e pode provocar danos progressivos ao fígado. No caso de Mariah, a situação era ainda mais delicada porque o problema hepático estava associado a uma cardiopatia congênita grave.
Documentos médicos analisados no processo indicavam a necessidade de uma avaliação multidisciplinar e de acompanhamento em um centro especializado. A Beneficência Portuguesa de São Paulo (BP), onde a criança já era acompanhada, foi apontada pelos médicos como referência para a continuidade da assistência.
Foi a partir desse cenário que começou uma batalha que acompanharia praticamente toda a vida da menina.
Primeiros meses foram marcados por internações
Em junho de 2025, quando Mariah tinha pouco mais de um mês, ela foi internada em estado grave na Unimed Poços de Caldas. A equipe médica identificou a necessidade de transferência para um serviço especializado, diante da complexidade do quadro.
A família procurou a Justiça para garantir que a transferência fosse realizada.
Decisões judiciais determinaram que a criança fosse encaminhada à Beneficência Portuguesa, com transporte especializado, incluindo ambulância de UTI móvel quando necessário. As decisões também estabeleceram que as despesas médicas, hospitalares e honorários profissionais deveriam ser custeados pelo plano de saúde.
Em uma das decisões, foi estabelecido prazo para que a transferência fosse realizada. Também houve determinação de multa diária em caso de descumprimento e bloqueio de valores destinados ao pagamento de profissionais envolvidos na assistência.
A gravidade da situação levou a Justiça a determinar, em determinado momento, que um oficial de Justiça acompanhasse a transferência para assegurar o cumprimento da ordem.
A família e a operadora apresentaram versões diferentes sobre as dificuldades enfrentadas durante o atendimento.
Transferência e tratamento especializado
Segundo os documentos apresentados pela família, a Unimed Poços de Caldas teria indicado a transferência para uma unidade hospitalar em Ribeirão Preto. A família questionou a alternativa porque, segundo os registros apresentados no processo, a unidade não teria estrutura especializada para algumas das necessidades da criança, incluindo procedimentos de cardiologia pediátrica.
Mariah acabou sendo transferida em 13 de junho de 2025.
Cinco dias depois, passou por uma cirurgia destinada ao tratamento da atresia das vias biliares. Posteriormente, os médicos avaliaram a possibilidade de um transplante de fígado diante da gravidade do quadro.
A menina recebeu alta em 21 de julho e continuou sendo acompanhada pelos profissionais de saúde.
O objetivo era permitir que Mariah ganhasse peso e tivesse melhores condições para enfrentar os próximos procedimentos relacionados à sua condição cardíaca e ao tratamento do fígado.
Mas a alta não significou o fim dos problemas.
Novas internações e decisões judiciais
Em outubro de 2025, Mariah voltou a ser internada e a família novamente recorreu ao Judiciário para garantir a continuidade do atendimento e discutir despesas relacionadas ao tratamento.
Documentos apresentados no processo registram manifestações do Ministério Público de Minas Gerais em favor do cumprimento das determinações judiciais.
Também houve discussões envolvendo pagamentos e bloqueios de valores. Um comprovante anexado ao processo registra um depósito judicial de R$ 15 mil realizado em 23 de outubro.
Nos meses seguintes, novas internações fizeram com que a família continuasse buscando medidas judiciais.
Em dezembro, outra hospitalização levou a um novo pedido. Já em abril de 2026, uma sentença confirmou a obrigação de custeio do tratamento de Mariah na Beneficência Portuguesa pela Unimed Poços de Caldas.
A família, entretanto, ainda enfrentaria uma situação dramática poucas semanas depois.
Última internação aconteceu em maio de 2026
Às 23h do dia 25 de maio de 2026, Mariah deu entrada no Hospital Universitário São Francisco na Providência de Deus, em Bragança Paulista, no interior de São Paulo.
De acordo com o relatório médico, a criança chegou apresentando cianose central, característica associada à baixa oxigenação do sangue, além de desconforto respiratório.
A mãe relatou que Mariah estava com tosse e coriza havia aproximadamente seis dias. Nos dois dias anteriores à internação, os sintomas haviam piorado.
Diante da situação e considerando que o hospital não possuía cardiologia pediátrica, a médica responsável solicitou a transferência da menina para a Beneficência Portuguesa, em São Paulo, utilizando uma ambulância equipada com UTI.
Pouco depois da meia-noite, a advogada da família comunicou a Unimed Poços de Caldas e encaminhou os documentos médicos e judiciais relacionados ao caso.
A partir daquele momento, começaram novas tratativas para viabilizar a transferência.
Família relata horas de espera
Segundo a cronologia apresentada pela família à Justiça e os e-mails anexados ao processo, mais de dez horas se passaram entre os primeiros contatos e a efetivação da transferência.
Durante a madrugada, houve comunicação entre a operadora, o hospital de origem e a Beneficência Portuguesa sobre a disponibilidade de vaga e as condições necessárias para a remoção.
Às 4h24, o setor de gerenciamento de leitos da BP informou por e-mail que o hospital funcionava como porta aberta para atendimento, mas esclareceu que a transferência diretamente para o pronto atendimento dependia de procedimentos específicos para garantir a segurança assistencial.
Mais tarde, foram apresentadas exigências relacionadas à autorização, ao custeio integral do atendimento, aos honorários médicos e ao transporte especializado.
Às 13h55, segundo os documentos apresentados pela família, a operadora informou que o transporte ainda estava em processo de logística.
Às 14h20, teria sido comunicada uma previsão de chegada da ambulância de UTI para o fim da tarde.
Diante da espera e preocupada com o estado da filha, a mãe decidiu buscar uma alternativa por conta própria.
Mãe pediu R$ 6 mil emprestados
Segundo o relato da família apresentado à Justiça, a mãe conseguiu R$ 6 mil emprestados para contratar uma ambulância particular equipada para transportar Mariah até a Beneficência Portuguesa.
A criança finalmente chegou ao hospital de referência.
A família também afirma ter desembolsado R$ 2.235 por um exame considerado necessário durante a internação e posteriormente solicitou o custeio ou reembolso do valor.
Apesar de todo o esforço para garantir o tratamento, a situação de saúde de Mariah continuava extremamente delicada.
A menina permaneceu internada na Beneficência Portuguesa até 3 de junho, segundo os registros apresentados pela operadora.
Dias depois, Mariah morreu, aos 1 ano de idade.
Família busca responsabilização
Após a morte da criança, a família ingressou com uma ação para discutir a conduta do plano de saúde durante o tratamento.
Também foi instaurado um inquérito criminal para apurar as circunstâncias relacionadas ao caso.
É importante destacar que a existência de uma investigação não significa, por si só, que a operadora ou seus representantes tenham sido responsabilizados criminalmente.
Os documentos analisados comprovam a existência de decisões judiciais relacionadas ao tratamento, às transferências e ao custeio. No entanto, eles não permitem estabelecer, por si só, uma relação direta de causa e efeito entre os impasses envolvendo a assistência e a morte da criança.
A apuração das responsabilidades caberá às autoridades competentes.
Unimed apresenta outra versão
Em manifestação enviada à reportagem, a Unimed Poços de Caldas afirmou que acompanhou Mariah desde a gestação e negou que tenha ocorrido negativa de cobertura ou interrupção da assistência.
Segundo a operadora, os atendimentos, internações, procedimentos e transferências indicados pelas equipes médicas foram autorizados e custeados, inclusive após as decisões judiciais.
A empresa também apresentou uma versão diferente sobre a última transferência.
De acordo com a Unimed, o transporte especializado teria sido acionado às 1h15 do dia 26 de maio e a remoção dependeria da confirmação de vaga e do aceite da Beneficência Portuguesa.
A operadora afirma ainda que, às 14h20, a transferência estava programada, com previsão de saída para as 17h35, mas que a família optou por contratar uma ambulância particular antes da remoção disponibilizada pelo plano.
Sobre os R$ 6 mil gastos pela família, a empresa informou que ainda não havia recebido os documentos necessários para analisar eventual reembolso.
Em relação ao exame de R$ 2.235, a Unimed afirmou que o procedimento já teria sido custeado e que a cobrança à família teria ocorrido por uma inconsistência da Beneficência Portuguesa, que deveria restituir o valor pago em duplicidade.
A operadora também negou a existência de pendências relacionadas a despesas e honorários médicos.
Uma história marcada pela busca por tratamento
A trajetória de Mariah foi marcada desde os primeiros meses pela necessidade de cuidados médicos complexos.
Para a família, cada internação significava uma nova batalha: lidar com a fragilidade da criança, acompanhar procedimentos, buscar especialistas e, em determinados momentos, recorrer à Justiça para garantir aquilo que considerava necessário para o tratamento.
A morte da menina encerra uma história de apenas um ano, mas deixa perguntas que agora deverão ser analisadas pelas autoridades.
Enquanto a investigação prossegue, a família enfrenta o luto pela perda de uma criança que passou praticamente toda a vida em hospitais e que dependia de cuidados especializados.
O caso também chama atenção para os desafios enfrentados por famílias de crianças com doenças complexas, que muitas vezes precisam lidar simultaneamente com a fragilidade da saúde, a burocracia do sistema e as dificuldades financeiras provocadas por tratamentos prolongados.
Mais do que uma disputa entre documentos, decisões e versões diferentes, a história de Mariah representa a luta de uma família para tentar garantir assistência à filha.
Agora, caberá à Justiça e às autoridades responsáveis esclarecer os fatos, avaliar as responsabilidades eventualmente existentes e determinar os próximos passos do caso.














