Três anos após sua morte, João Donato volta a ocupar um lugar de destaque na música brasileira por meio de um tributo que procura traduzir, com delicadeza e criatividade, a dimensão de uma obra que nunca coube em um único gênero. Pianista, compositor, arranjador, acordeonista e cantor, o artista acreano deixou uma trajetória marcada pela mistura entre bossa nova, jazz, bolero, samba e ritmos latinos, sempre conduzida por um balanço particular e uma sofisticação harmônica que se tornou sua assinatura.

O álbum “Viva Donato”, produzido pelo Selo Sesc, chega às plataformas digitais na sexta-feira, 28 de agosto, reunindo gravações inéditas de 15 músicas do compositor. O projeto conta com arranjos de Dori Caymmi e Marcos Valle e reúne nomes importantes de diferentes gerações da música brasileira.

Mais do que uma homenagem póstuma, o disco representa uma tentativa de manter viva uma obra que continua influenciando intérpretes e músicos. Cada participante encontra uma maneira própria de se aproximar das composições de Donato, sem perder de vista a essência de seu universo musical.

Uma obra que ultrapassou rótulos

Nascido em Rio Branco, no Acre, em 17 de agosto de 1934, João Donato construiu uma carreira que atravessou diferentes períodos e movimentos da música brasileira.

Sua relação com a música começou cedo, especialmente por meio do acordeom e, posteriormente, do piano. Ao longo das décadas, Donato se tornou uma figura fundamental para compreender a aproximação entre a música brasileira e o jazz.

Seu trabalho dialogou intensamente com a bossa nova, mas não se limitou a ela. O compositor incorporou elementos de ritmos latino-americanos, do samba e do bolero, criando uma linguagem própria, marcada principalmente pelo balanço e pela harmonia.

Donato morreu em 17 de julho de 2023, aos 88 anos, próximo de completar 89. Sua partida encerrou uma trajetória de quase nove décadas, mas não interrompeu a circulação de sua música.

O álbum “Viva Donato” surge justamente nesse espaço: o de apresentar novamente suas composições ao público por meio de vozes e interpretações capazes de revelar diferentes aspectos de sua criação.

Gilberto Gil e Mônica Salmaso interpretam “A paz”

Entre os momentos mais delicados do álbum está “A paz”, composição de João Donato e Gilberto Gil lançada originalmente em 1987.

A música ganha a interpretação de Gilberto Gil ao lado de Mônica Salmaso. A combinação das duas vozes cria uma atmosfera serena e contemplativa, adequada à natureza da composição.

“A paz” já possui uma trajetória marcante dentro da música brasileira e foi registrada anteriormente por Zizi Possi em uma gravação que se tornou referência.

No novo tributo, a canção reaparece com uma leitura que valoriza sua dimensão emocional e sua simplicidade aparente.

Roberta Sá encontra a guitarra baiana

Outra abordagem que chama atenção é “Flor de maracujá”, parceria de Donato com Lysias Ênio, de 1974.

Roberta Sá assume os vocais em uma interpretação suave, enquanto a guitarra baiana de Roberto Barreto acrescenta uma sonoridade mais intensa à faixa.

O contraste entre a delicadeza da voz e a presença marcante do instrumento cria uma das combinações mais interessantes do álbum.

A escolha mostra que a obra de Donato permite diferentes caminhos interpretativos e pode dialogar com instrumentos e linguagens que, à primeira vista, parecem distantes de seu universo original.

Joyce Moreno é um dos destaques

Entre os grandes momentos de “Viva Donato” está “Até quem sabe”, composição de Donato e Lysias Ênio lançada em 1973.

Joyce Moreno interpreta a canção com uma leitura marcada pela delicadeza e pela melancolia.

A música integra o álbum “Quem é quem”, lançado naquele mesmo ano e considerado um dos trabalhos mais importantes da carreira de Donato. Foi nesse período que o músico também passou a assumir de maneira mais evidente seu lado de cantor.

Na nova gravação, Joyce encontra o tom exato da composição e valoriza suas nuances.

O resultado é apontado como um dos pontos altos do tributo, especialmente pela combinação entre o arranjo sofisticado e a interpretação da cantora.

Djavan entra no universo de Donato

Djavan também participa do projeto, interpretando “Falta de ar”, parceria de João Donato com Lysias Ênio lançada em 2000.

A música é menos conhecida do grande público, mas ganha uma nova dimensão na voz de Djavan.

A escolha faz sentido pela proximidade entre os universos harmônicos dos dois compositores. Ambos desenvolveram uma relação profunda com a sofisticação melódica e com estruturas musicais que ultrapassam fórmulas tradicionais.

Djavan, nesse caso, não apenas interpreta a composição, mas estabelece uma espécie de diálogo artístico com Donato.

Bebel Gilberto e Silva em diferentes momentos

Bebel Gilberto participa do álbum com “Nua ideia”, parceria de Donato com Caetano Veloso, de 1990.

A música integra a série de temas conhecida como “Leilíadas” e recebe uma interpretação que procura preservar seu caráter particular.

Silva, por sua vez, aparece em uma das duas músicas inéditas do álbum: “Aquela delícia singela”, parceria póstuma de João Donato com Joyce Moreno.

A composição, apresentada como obra de 2026, amplia o repertório conhecido do compositor e mostra que sua produção continua revelando novidades mesmo após sua morte.

Marcos Valle também participa da homenagem

Marcos Valle ocupa um papel especial no projeto, não apenas como responsável pelos arranjos, mas também como parceiro musical de Donato.

“Cadê Jodel?”, composição dos dois apresentada originalmente no álbum “A bad Donato”, de 1970, ganha uma nova interpretação pelas irmãs Paula Morelenbaum e Dora Morelenbaum.

A gravação evidencia a complexidade harmônica da composição e reforça a importância de Donato dentro de uma tradição musical que valoriza tanto o ritmo quanto a sofisticação.

Já “Vamos combinar”, parceria inédita entre Donato e Marcos Valle, aparece em dueto de Valle com Patrícia Alví.

A faixa foi gravada entre junho e julho de 2025 e conta com músicos de destaque, entre eles o violoncelista Jaques Morelenbaum.

João Bosco e “A rã”

“A rã”, composição de João Donato e Caetano Veloso, recebe uma interpretação especialmente significativa de João Bosco.

A música, lançada originalmente em 1974, ganha nova vida no canto sagaz de Bosco, que preserva o suingue característico de Donato e acrescenta elementos de sua própria identidade musical.

O resultado é uma gravação vibrante, capaz de aproximar dois universos artísticos sem que nenhum deles desapareça.

É outro dos momentos mais fortes do álbum.

Margareth Menezes resgata “Emoriô”

“Emoriô”, parceria de Donato com Gilberto Gil lançada em 1975, recebe a voz de Margareth Menezes.

A cantora acrescenta à composição sua força vocal e elementos ligados à tradição musical baiana.

A interpretação amplia a dimensão espiritual da música e estabelece uma conexão entre a obra de Donato e a ancestralidade presente em diferentes manifestações da cultura brasileira.

Donatinho mantém a herança familiar

Filho de João Donato, Donatinho participa do álbum interpretando “Lua dourada (Leila VI)”, parceria de Donato com Fausto Nilo.

A gravação recebe elementos de groove associados ao universo de Marcos Valle e mistura português com alguns versos em inglês.

A participação possui também um significado afetivo: Donatinho assume a responsabilidade de continuar dialogando com a obra do pai a partir de sua própria linguagem.

É uma forma simbólica de mostrar que a música de João Donato não termina com sua geração.

Fernanda Abreu encerra o tributo

O álbum chega ao fim com Fernanda Abreu interpretando “Nasci para bailar”, parceria de Donato com Paulo André Barata.

A composição, de forte influência latina, ganha uma leitura com elementos de funk e sabor caribenho.

A escolha de Fernanda Abreu para encerrar o projeto reforça justamente uma das principais características da obra de Donato: sua capacidade de transitar entre diferentes gêneros sem perder identidade.

Uma celebração que mantém Donato presente

“Viva Donato” cumpre uma função importante ao apresentar a obra do compositor para diferentes gerações.

O álbum mostra que João Donato não pertence apenas a um determinado período da música brasileira. Seu trabalho continua aberto a novas interpretações, vozes e arranjos.

Produzido por Regina Oreiro e Ivone Belém, viúva de Donato, o projeto reúne artistas consagrados e intérpretes de diferentes estilos em torno de um repertório que exige sensibilidade e conhecimento musical.

João Donato morreu em julho de 2023, mas sua música permanece em movimento.

Ao reunir 15 composições em novas gravações, “Viva Donato” não tenta simplesmente reproduzir o passado. O álbum procura fazê-lo dialogar com o presente.

E talvez esteja justamente aí a força maior da homenagem: mostrar que uma obra verdadeiramente original não desaparece com seu autor. Ela continua sendo descoberta, reinterpretada e compartilhada.

João Donato construiu uma bossa própria, sofisticada e livre de fronteiras. Uma música que nasceu brasileira, dialogou com o jazz e com os ritmos latinos e, ao longo de décadas, conseguiu ultrapassar até mesmo os limites da própria bossa nova.

“Viva Donato” é, portanto, mais do que um disco de homenagem. É uma celebração da permanência de um artista que transformou balanço, harmonia e simplicidade em uma das linguagens mais singulares da música brasileira.