A relação entre a Uefa e a atual direção da Fifa entrou em uma nova fase de tensão. A entidade que administra o futebol europeu avalia a possibilidade de apresentar uma denúncia criminal contra Gianni Infantino, presidente da Fifa, em razão de um projeto empresarial que chegou a ser planejado pela entidade máxima do futebol mundial, mas acabou abandonado diante da forte reação de federações e confederações.

O centro da disputa é a chamada Fifa Forward Enterprises (FFE), uma empresa que seria criada para administrar competições da Fifa, incluindo a Copa do Mundo, e permitir a entrada de investidores externos na estrutura comercial da organização.

Documentos judiciais obtidos pelo jornal britânico The Times indicam que a Uefa considera que determinadas ações relacionadas ao projeto poderiam configurar “má gestão criminosa”, conforme previsto no Artigo 158 do Código Penal suíço. Em caso de condenação pela prática prevista na legislação, a pena pode chegar a três anos de prisão.

Até o momento, trata-se de uma possibilidade em análise e de uma disputa institucional que poderá ganhar novos capítulos nos tribunais. Não há, portanto, condenação contra Infantino relacionada ao caso.

Projeto provocou reação dentro da Fifa

A Fifa Forward Enterprises foi apresentada como uma alternativa para reorganizar e ampliar a estrutura comercial da Fifa. A proposta previa a participação de investidores privados e envolvia a administração de ativos e competições consideradas estratégicas para a entidade.

O projeto, entretanto, encontrou resistência significativa entre dirigentes do futebol internacional.

A Uefa passou a questionar principalmente a forma como a operação foi estruturada e o processo utilizado para avaliar os ativos que seriam transferidos para a nova companhia.

Segundo os documentos judiciais citados pelo The Times, a entidade europeia considera que a proposta de venda de 20% da futura empresa por US$ 4,2 bilhões — valor equivalente a aproximadamente R$ 21,7 bilhões na conversão mencionada — estaria muito abaixo do valor que esses ativos poderiam alcançar.

A Uefa também questiona o fato de a avaliação, segundo sua argumentação, não ter sido resultado de um processo aberto e competitivo entre potenciais investidores nem ter sido submetida a uma avaliação independente.

Para a entidade europeia, esses fatores levantam dúvidas sobre a condução do projeto e sobre os critérios utilizados para definir o valor da participação oferecida a investidores.

Incentivo de US$ 40 milhões virou ponto de conflito

Outro aspecto que aparece na documentação é um incentivo financeiro que teria sido prometido às associações-membros da Fifa em troca de apoio à proposta.

De acordo com a Uefa, Infantino teria oferecido US$ 40 milhões, aproximadamente R$ 206 milhões, às associações que integram a Fifa.

A entidade europeia questiona a velocidade com que os membros teriam sido chamados a analisar a proposta. Segundo a argumentação apresentada no documento judicial, as associações tiveram apenas 53 dias para responder sobre uma operação que envolveria uma grande reorganização dos ativos comerciais da Fifa.

A Uefa considera que o prazo foi insuficiente diante da dimensão do projeto e do fato de, segundo sua versão, a proposta ter sido desenvolvida de maneira reservada durante mais de um ano.

O questionamento não se limita ao valor financeiro. A discussão envolve também governança, transparência e a maneira como decisões de grande impacto comercial são tomadas dentro de uma organização que reúne federações de diferentes países e continentes.

Investidor ligado a Joshua Kushner

A disputa também envolve Joshua Kushner, empresário norte-americano e proprietário do fundo Thrive Capital, que teria sido escolhido como principal investidor da Fifa Forward Enterprises.

A Uefa busca uma ordem judicial para que Kushner apresente documentos relacionados ao projeto e seja chamado a prestar depoimento.

O objetivo da entidade europeia é obter mais informações sobre as negociações, os critérios utilizados na estruturação da empresa e os termos que teriam sido discutidos entre as partes.

A obtenção desses documentos pode ser importante para a estratégia jurídica da Uefa, especialmente caso a entidade decida avançar com uma denúncia criminal.

A participação de investidores externos em estruturas ligadas ao futebol internacional é um tema sensível porque envolve competições de enorme valor econômico e impacto global.

A Copa do Mundo, principal torneio organizado pela Fifa, movimenta contratos de transmissão, patrocínios, direitos comerciais e outras receitas bilionárias. Por isso, qualquer mudança na forma de administrar esses ativos tende a provocar atenção entre as federações.

“O futebol não está à venda”

O projeto provocou uma reação política dentro do futebol internacional. Parte das federações manifestou oposição à proposta, com a frase “o futebol não está à venda” se tornando um dos símbolos da resistência ao projeto.

A Uefa assumiu papel central na contestação e chegou a ameaçar um possível boicote a competições organizadas pela Fifa.

O conflito colocou Infantino diante de uma das maiores crises políticas de sua gestão à frente da entidade.

A relação entre a Fifa e a Uefa já vinha sendo marcada por divergências sobre diferentes temas envolvendo calendário internacional, distribuição de receitas, competições e poder de decisão.

A proposta da FFE ampliou essas diferenças e levou a uma disputa que agora pode chegar também ao campo jurídico.

Pressão sobre a reeleição de Infantino

A crise também tem reflexos políticos para o futuro da presidência da Fifa.

Gianni Infantino busca permanecer no comando da entidade e tem sua reeleição prevista para 27 de março de 2027.

A Uefa, entretanto, trabalha com outras confederações para tentar construir uma candidatura capaz de desafiar o atual presidente.

A entidade europeia conta com o apoio da Concacaf, responsável pelo futebol da América do Norte, Central e Caribe, e da Confederação Asiática de Futebol (AFC) nas articulações relacionadas à oposição.

Um dos nomes considerados para representar esse movimento é o canadense Victor Montagliani, atual presidente da Concacaf.

Já Aleksander Ceferin, presidente da Uefa e uma das principais vozes críticas a Infantino, descartou a possibilidade de concorrer diretamente à presidência da Fifa.

A eventual escolha de um candidato de oposição poderá transformar a eleição de 2027 em uma disputa política especialmente relevante para o futebol mundial.

Uma disputa que vai além do dinheiro

Embora a discussão tenha como ponto de partida uma empresa e valores bilionários, o conflito revela uma questão maior: quem deve controlar os principais ativos comerciais do futebol internacional e de que maneira essas decisões devem ser tomadas.

Para a Uefa, o caso envolve transparência e governança. Para a direção da Fifa, a reorganização comercial pode ser interpretada como uma estratégia para ampliar receitas e modernizar a estrutura de negócios da entidade.

O embate, porém, mostra que mudanças dessa dimensão precisam enfrentar não apenas cálculos financeiros, mas também interesses políticos de federações e confederações espalhadas pelo mundo.

A possível denúncia criminal contra Infantino acrescenta uma dimensão ainda mais grave à disputa.

Caso a Uefa decida realmente avançar pela via judicial, o episódio poderá provocar uma investigação formal sobre as circunstâncias que envolveram a criação e posterior abandono da Fifa Forward Enterprises.

Por enquanto, o projeto foi deixado de lado, mas seus efeitos políticos continuam presentes.

A discussão deverá permanecer no centro do futebol internacional nos próximos meses, especialmente com a aproximação da eleição presidencial da Fifa em 2027.

O que começou como uma proposta de reorganização comercial acabou se transformando em uma disputa envolvendo dinheiro, governança, poder e o futuro da principal entidade do futebol mundial.

Enquanto a Uefa avalia seus próximos passos jurídicos e políticos, Infantino permanece no comando da Fifa e deverá enfrentar uma oposição cada vez mais articulada à medida que se aproxima a eleição de março de 2027.