O tratamento da obesidade está entrando em uma nova fase, marcada pela busca por alternativas mais práticas e pela evolução de medicamentos capazes de atuar diretamente nos mecanismos que regulam a fome, a saciedade e o metabolismo. Se as chamadas “canetas emagrecedoras” ganharam espaço nos últimos anos, a próxima transformação pode estar nas versões em comprimidos.
Entre as principais apostas da indústria farmacêutica estão medicamentos orais que reproduzem ou estimulam a ação de hormônios envolvidos no controle metabólico. Um dos exemplos mais avançados é o orforglipron, desenvolvido pela Eli Lilly e aprovado pela agência reguladora dos Estados Unidos em abril de 2026 para o controle do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso associado a pelo menos uma condição relacionada ao excesso de peso.
A novidade chama atenção porque o medicamento é administrado em comprimido, uma alternativa que pode ser considerada mais simples por pacientes que têm dificuldades ou resistência ao uso de medicamentos injetáveis.
No Brasil, entretanto, a situação é diferente. A aprovação nos Estados Unidos não significa que o medicamento esteja automaticamente liberado para comercialização no país. Para ser disponibilizado aos brasileiros, o produto precisa passar pelo processo regulatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A mudança representa uma possibilidade importante em uma área que vem crescendo rapidamente e que busca oferecer tratamentos cada vez mais personalizados.
Orforglipron chega ao mercado americano
O orforglipron, comercializado nos Estados Unidos como Foundayo, é um agonista do receptor de GLP-1 administrado por via oral. A FDA aprovou o medicamento em abril de 2026 para adultos com obesidade ou adultos com sobrepeso que apresentem pelo menos uma condição relacionada ao peso, sempre associado a uma dieta com redução de calorias e aumento da atividade física.
A bula americana estabelece o uso de um comprimido uma vez ao dia, com possibilidade de administração com ou sem alimentos.
O avanço é significativo porque medicamentos que atuam sobre o GLP-1 se tornaram uma das principais ferramentas farmacológicas utilizadas no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2.
A proposta dos comprimidos é ampliar o acesso e a conveniência sem abandonar os mecanismos que ajudaram a transformar o tratamento da obesidade nos últimos anos.
Mas a facilidade de tomar um comprimido não significa que o medicamento seja indicado para qualquer pessoa.
A própria documentação regulatória americana apresenta contraindicações e alertas importantes. Entre eles estão histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide e síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2. Também são descritos riscos relacionados a pancreatite, efeitos gastrointestinais importantes e lesão renal associada à desidratação.
Por isso, o uso deve ocorrer exclusivamente com acompanhamento médico.
Uma alternativa às aplicações
A popularização dos medicamentos injetáveis para controle do peso mudou a maneira como muitas pessoas enxergam o tratamento da obesidade.
As chamadas canetas passaram a fazer parte da rotina de pacientes que buscam reduzir o peso e controlar doenças metabólicas. Porém, nem todas as pessoas se sentem confortáveis com aplicações.
É nesse cenário que os medicamentos orais ganham importância.
Um comprimido diário pode representar uma alternativa para pacientes que têm aversão a agulhas, dificuldades com aplicações ou simplesmente preferência por uma forma diferente de tratamento.
Essa mudança também pode contribuir para ampliar as possibilidades terapêuticas oferecidas pelos médicos.
O objetivo, entretanto, não é transformar o comprimido em uma solução milagrosa. A obesidade é uma doença complexa, influenciada por fatores genéticos, hormonais, metabólicos, comportamentais, ambientais e sociais.
O tratamento adequado precisa considerar o conjunto dessas características.
Elecoglipron também está em desenvolvimento
Outra aposta da indústria é o elecoglipron, medicamento oral que atua sobre o receptor de GLP-1.
A substância ainda está em desenvolvimento clínico e os resultados apresentados até agora apontam para um potencial de redução de peso. O medicamento segue para etapas mais avançadas de pesquisa, nas quais eficácia e segurança precisam continuar sendo avaliadas em um número maior de participantes e por períodos mais prolongados.
Essa fase é fundamental antes de qualquer eventual aprovação pelas autoridades sanitárias.
A existência de resultados positivos em estudos clínicos não significa que um medicamento já esteja pronto para ser utilizado pela população em geral. Antes da autorização, as agências reguladoras analisam cuidadosamente os dados de eficácia, segurança, qualidade e relação entre benefícios e riscos.
Pesquisas avançam para além do peso
A nova geração de medicamentos para obesidade não está concentrada exclusivamente na balança.
Pesquisadores e empresas farmacêuticas também avaliam os efeitos dessas terapias sobre diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, saúde metabólica e outras condições frequentemente relacionadas ao excesso de peso.
No caso do orforglipron, estudos apresentados em 2026 apontaram redução significativa do peso em mulheres em diferentes fases da menopausa. Dados divulgados pela Eli Lilly indicaram redução superior a 14% em mulheres na peri e pós-menopausa em uma análise do programa ATTAIN-1.
O interesse nesse grupo é relevante porque alterações hormonais durante a menopausa podem modificar a distribuição da gordura corporal, o metabolismo e a dificuldade de controle do peso.
A expectativa é que, no futuro, os tratamentos possam ser cada vez mais direcionados às características específicas de cada paciente.
Retatrutida representa uma nova fronteira
Enquanto os medicamentos orais avançam, outra frente de pesquisa busca desenvolver tratamentos capazes de atuar simultaneamente sobre diferentes mecanismos hormonais.
Um dos principais exemplos é a retatrutida, medicamento experimental da Eli Lilly que atua sobre três receptores: GIP, GLP-1 e glucagon.
A estratégia é diferente daquela utilizada pelos agonistas tradicionais de GLP-1 porque combina três vias metabólicas em uma única molécula.
Os resultados divulgados em estudos de fase 3 chamaram atenção.
No estudo TRIUMPH-1, participantes que receberam a dose de 12 mg apresentaram redução média de 28,3% do peso corporal após 80 semanas. Cerca de 45,3% alcançaram redução de pelo menos 30%.
Em uma extensão do estudo, alguns participantes chegaram a apresentar perda média de aproximadamente 30% do peso inicial após 104 semanas.
Apesar dos resultados expressivos, a retatrutida ainda não é um medicamento aprovado para uso geral. A própria fabricante informa que o produto permanece investigacional e que não foi aprovado por nenhuma agência reguladora.
A previsão anunciada pela Lilly é apresentar o pedido de aprovação à FDA no primeiro trimestre de 2027.
Preservar músculos também virou prioridade
Outra preocupação crescente no tratamento da obesidade é evitar que a perda de peso venha acompanhada de uma redução excessiva de massa muscular.
Em um processo de emagrecimento, o organismo pode perder não apenas gordura, mas também tecido muscular. Por isso, pesquisadores trabalham em terapias que possam favorecer uma composição corporal mais saudável durante a redução de peso.
É nesse contexto que medicamentos experimentais como o bimagrumabe despertam interesse.
A proposta é ir além da simples redução do número apresentado na balança e buscar uma transformação corporal que preserve o máximo possível da massa muscular.
Esse conceito pode se tornar cada vez mais importante à medida que os tratamentos contra a obesidade se tornam mais eficazes.
A discussão deixa de ser apenas “quanto peso a pessoa perdeu” e passa a considerar também qual tipo de peso foi perdido, como está a saúde metabólica e quais benefícios foram alcançados para a qualidade de vida.
Uma nova era no tratamento da obesidade
O avanço dos medicamentos orais e das terapias que atuam sobre múltiplos hormônios mostra que o tratamento da obesidade está passando por uma transformação profunda.
Durante décadas, a principal recomendação para o controle do peso esteve concentrada em mudanças na alimentação e aumento da atividade física. Essas medidas continuam sendo fundamentais, mas a ciência passou a reconhecer com mais clareza que a obesidade é uma doença complexa e que, para algumas pessoas, mudanças no estilo de vida podem não ser suficientes isoladamente.
Os novos medicamentos surgem justamente nesse espaço.
A possibilidade de escolher entre comprimidos, medicamentos injetáveis e, no futuro, terapias capazes de atuar sobre diferentes mecanismos metabólicos poderá permitir que médicos adaptem o tratamento às necessidades de cada paciente.
Mas o entusiasmo precisa caminhar ao lado da responsabilidade.
Medicamentos para emagrecimento não devem ser utilizados por conta própria, muito menos adquiridos de fontes não autorizadas. Os riscos, contraindicações, interações medicamentosas e efeitos adversos precisam ser avaliados individualmente.
Além disso, resultados obtidos em estudos clínicos não significam que todos os pacientes terão a mesma resposta.
O futuro pode ser mais personalizado
O que está acontecendo hoje nos laboratórios indica que o futuro do tratamento da obesidade poderá ser muito mais diversificado.
O paciente que não deseja utilizar uma injeção poderá ter alternativas em comprimidos. Quem precisa de maior controle metabólico poderá contar com terapias direcionadas a diferentes mecanismos. E novas pesquisas poderão ajudar a preservar músculos e tratar simultaneamente problemas associados ao excesso de peso.
A chegada do orforglipron ao mercado americano representa um marco nessa transformação.
Ao mesmo tempo, medicamentos como elecoglipron e retatrutida mostram que a corrida científica está longe de terminar.
O desafio agora é transformar resultados promissores em tratamentos seguros, acessíveis e realmente capazes de melhorar a saúde e a qualidade de vida das pessoas.
Para milhões de indivíduos que convivem com a obesidade, essa evolução representa mais do que uma nova opção na farmácia.
Representa a possibilidade de encontrar tratamentos que se adaptem melhor à realidade de cada pessoa, com acompanhamento médico e foco não apenas na perda de peso, mas na saúde como um todo.












