A obra de Chico Buarque voltou aos palcos cariocas cercada de música, dança, humor, cores e referências à cultura brasileira. Em uma nova montagem de “Ópera do malandro”, o ator e cantor Tiago Barbosa assume o papel de Max Overseas Navalha e apresenta uma interpretação marcada pela presença cênica, pela musicalidade e pela capacidade de equilibrar humor e intensidade sem transformar o personagem em uma caricatura.

Dirigido por Jorge Farjalla, o espetáculo revisita uma das obras mais conhecidas do teatro musical brasileiro e apresenta uma leitura contemporânea do texto que chegou aos palcos originalmente em 1978.

A temporada no Rio de Janeiro está em cartaz no Teatro Multiplan e segue até domingo (30). Tiago Barbosa se alterna no papel principal com José Loreto, que também recebeu destaque por sua interpretação do personagem.

A nova montagem preserva a essência da obra de Chico Buarque, mas aposta em uma estética visual exuberante e em elementos da cultura afro-brasileira, além de referências à umbanda e ao teatro clownesco.

Tiago Barbosa dá nova personalidade a Max Overseas

Interpretar Max Overseas Navalha exige mais do que reproduzir a figura tradicional do malandro carioca.

O personagem carrega contradições, charme, esperteza e uma capacidade quase permanente de escapar das situações mais complicadas. Na interpretação de Tiago Barbosa, essas características ganham uma nova dimensão.

Nascido em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, o ator conhece de perto a cultura e a linguagem da região metropolitana do Rio de Janeiro. Em cena, essa experiência aparece na maneira como ele se movimenta, interpreta e utiliza o humor.

Tiago demonstra domínio corporal e segurança para conduzir o personagem sem exageros.

Sua atuação encontra o equilíbrio entre a malandragem, a sedução e o aspecto teatral da montagem.

O resultado é um Max Overseas que consegue conquistar a plateia não apenas pelo texto, mas também pela presença do intérprete.

Um artista que une teatro e música

Além da experiência como ator, Tiago Barbosa traz para o espetáculo uma característica que se torna especialmente importante em um musical: sua força como cantor.

O artista já possui uma trajetória consolidada nos palcos e ganhou projeção internacional ao participar de grandes produções musicais.

Entre os trabalhos realizados na Europa estão montagens de “O Rei Leão”, na qual interpretou Simba, além de “Rent” e “Wicked”, em que viveu Fiyero.

No Brasil, Tiago também interpretou Milton Nascimento em um musical dedicado à trajetória do cantor e compositor.

Essa experiência ajuda a explicar a segurança demonstrada pelo artista nas partes musicais de “Ópera do malandro”.

Um dos momentos de maior impacto acontece quando Tiago interpreta “Pedaço de mim”, composição de Chico Buarque de 1978.

A canção surge na parte final do espetáculo e exige do intérprete intensidade emocional e domínio vocal.

Na apresentação, a interpretação consegue mudar o clima da plateia, mostrando que o personagem também possui uma dimensão mais sensível por trás da irreverência.

A visão de Jorge Farjalla

A direção de Jorge Farjalla aposta em uma montagem que privilegia a exteriorização e o movimento.

Em vez de apresentar uma versão minimalista da história, o espetáculo utiliza cores, dança, música e elementos da cultura afro-brasileira para construir uma experiência visualmente marcante.

Pontos de umbanda aparecem em cena e dialogam com a dramaturgia.

A escolha amplia a dimensão cultural do espetáculo e insere a obra de Chico Buarque em uma linguagem contemporânea.

O resultado é uma montagem que busca conversar com diferentes gerações sem abandonar a estrutura original.

Humor sem perder a crítica

“Ópera do malandro” é uma obra conhecida por utilizar humor, ironia e música para discutir relações de poder, corrupção, interesses econômicos e comportamentos sociais.

A figura do malandro funciona como uma espécie de espelho de uma sociedade na qual diferentes personagens tentam encontrar maneiras de sobreviver, conquistar espaço e obter vantagens.

Na nova montagem, o humor continua sendo uma das principais ferramentas utilizadas pelo espetáculo.

Mas as cenas também carregam críticas e provocações.

O público é convidado a rir, mas também a reconhecer situações e comportamentos que permanecem atuais.

Relações ganham novas camadas

Outro destaque da montagem é a relação entre Max Overseas e o personagem delegado Chaves, interpretado por Amaury Lorenzo.

A dupla protagoniza uma cena marcada pelo humor e por uma leitura homoerótica no samba “Doze anos”, também composto por Chico Buarque em 1978.

Amaury Lorenzo constrói uma interpretação marcada pelo aspecto clownesco do delegado, enquanto Tiago responde com naturalidade e jogo cênico.

A interação entre os dois atores acrescenta uma camada contemporânea à narrativa e demonstra como uma obra escrita décadas atrás pode ganhar novas interpretações quando colocada em diálogo com questões atuais.

Um elenco de destaque

Além dos protagonistas, a montagem conta com um elenco amplo e diversificado.

Marya Bravo interpreta Lúcia, personagem que disputa com Terezinha o coração de Max Overseas.

Terezinha é vivida por Carol Costa, que também recebeu destaque pela atuação.

Marya também protagoniza um dos momentos musicais mais marcantes do espetáculo ao interpretar “Palavra de mulher”, composição de Chico Buarque originalmente criada para o filme “Ópera do malandro”, de 1985.

A música acabou incorporada posteriormente às versões teatrais da obra e se consolidou como uma das canções mais fortes associadas ao universo do musical.

Na temporada paulistana, Marya Bravo havia interpretado Dóris Pelanca. No Rio, o papel ganhou a interpretação de Vânia Canto.

Grandes nomes completam a montagem

O espetáculo também reúne nomes conhecidos do teatro e da televisão.

Totia Meirelles participa da montagem e chama atenção especialmente em “Uma canção desnaturada”, uma das músicas mais dramáticas do repertório.

Valéria Barcellos também se destaca ao interpretar Geni, personagem que recebeu forte resposta do público durante as apresentações.

José Loreto, que se alterna com Tiago Barbosa no papel de Max Overseas, apresenta uma interpretação marcada pelo carisma e pela energia característica do personagem.

A alternância entre os dois protagonistas também oferece ao público a oportunidade de observar diferentes leituras para o mesmo personagem.

Uma obra que continua viva

Escrita por Chico Buarque a partir de referências de “A ópera dos três vinténs”, obra criada por Bertolt Brecht e Kurt Weill em 1928, “Ópera do malandro” tornou-se uma das referências do teatro musical brasileiro.

Quase cinco décadas depois de sua chegada aos palcos, a obra continua encontrando novas maneiras de dialogar com o público.

A montagem de Jorge Farjalla demonstra justamente essa capacidade de renovação.

Ao combinar a dramaturgia original com novas escolhas estéticas, referências afro-brasileiras, elementos de umbanda e linguagem clownesca, o espetáculo apresenta uma versão visualmente ousada sem perder a essência de seus personagens.

Tiago Barbosa conquista seu espaço

A participação de Tiago Barbosa reforça ainda mais a força da montagem.

O ator consegue imprimir personalidade própria a Max Overseas, utilizando sua experiência teatral e musical para construir um personagem sedutor, divertido e, ao mesmo tempo, cheio de contradições.

Sua voz também amplia a dimensão emocional da história.

Em “Pedaço de mim”, o público encontra um Tiago diferente daquele malandro irreverente que aparece em outros momentos da peça.

É nesse contraste que sua interpretação ganha força.

O artista demonstra que o malandro de Chico Buarque pode ser engraçado, sedutor, provocador e também vulnerável.

Um espetáculo para diferentes gerações

A nova “Ópera do malandro” consegue reunir elementos tradicionais e contemporâneos em uma mesma experiência.

Quem já conhece a obra encontra novas interpretações para personagens e músicas conhecidas. Para quem está descobrindo o espetáculo pela primeira vez, a montagem oferece uma porta de entrada para um dos capítulos mais importantes da dramaturgia musical brasileira.

No centro dessa experiência está Max Overseas Navalha, agora vivido por Tiago Barbosa.

Com ginga, humor, domínio vocal e presença de palco, o ator demonstra que uma personagem construída décadas atrás ainda pode ganhar nova vida.

A temporada carioca chega aos seus últimos dias, mas a força da montagem mostra que a obra de Chico Buarque continua capaz de provocar risos, emoção e reflexão.

E, desta vez, o malandro encontrou em Tiago Barbosa um intérprete à altura de sua história.