O desempenho dos estudantes brasileiros no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025 voltou a colocar a educação do país diante de um cenário que exige atenção. Divulgado nesta terça-feira (8) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o levantamento mostra que o Brasil permanece abaixo da média dos países da organização nas principais áreas avaliadas e também fica atrás de outras nações da América Latina.

Na comparação regional, três países se destacam por apresentarem resultados superiores aos brasileiros nas quatro competências analisadas: Chile, Uruguai e Costa Rica. O desempenho desses países foi melhor que o do Brasil em ciências, leitura, matemática e resolução de problemas computacionais.

O Pisa é uma das principais avaliações educacionais internacionais e procura medir não apenas aquilo que os estudantes memorizaram, mas principalmente a capacidade de utilizar conhecimentos para solucionar situações próximas da realidade. A edição de 2025 avaliou estudantes de 15 anos em 91 países e economias.

Brasil apresenta desempenho abaixo dos vizinhos

Na edição de 2025, o Brasil alcançou 409 pontos em ciências, 408 em leitura, 377 em matemática e 406 em resolução de problemas computacionais.

Os números colocam o país atrás de diferentes nações latino-americanas em todas essas áreas.

O Chile registrou 442 pontos em ciências, 436 em leitura, 403 em matemática e 466 em resolução de problemas computacionais. O Uruguai alcançou 445, 423, 405 e 462 pontos, respectivamente. Já a Costa Rica obteve 424 pontos em ciências, 416 em leitura, 387 em matemática e 452 em resolução de problemas computacionais.

A diferença aparece de forma consistente. Em nenhuma das quatro áreas o resultado brasileiro foi suficiente para superar esses três países.

Entre os 13 países latino-americanos considerados na comparação, o Brasil ficou atrás de cinco em ciências: Chile, Uruguai, Costa Rica, México e Colômbia.

Em leitura, foram seis países à frente: Chile, Uruguai, Costa Rica, México, Colômbia e Peru. A mesma lista aparece em matemática.

Na resolução de problemas computacionais, o número aumenta para sete países, com a inclusão do Equador.

Matemática continua sendo um dos principais desafios

Entre as três áreas tradicionais avaliadas pelo Pisa, a matemática apresenta um dos resultados mais preocupantes para o Brasil.

O país registrou 377 pontos, abaixo dos 408 obtidos em leitura e dos 409 em ciências.

A média da OCDE ficou em 469 pontos em matemática, 466 em leitura e 486 em ciências. A distância demonstra que o desafio brasileiro não está apenas na posição do ranking, mas também na diferença de desempenho em relação aos sistemas educacionais mais bem avaliados.

Dados divulgados a partir do levantamento mostram que apenas 28% dos estudantes brasileiros alcançaram pelo menos o nível 2 de proficiência em matemática, considerado o patamar mínimo de desempenho no Pisa. Na média da OCDE, esse percentual chega a 65%.

Em leitura, 49% dos estudantes brasileiros atingiram esse nível, contra 69% na média da OCDE. Em ciências, foram 48%, enquanto a média dos países da organização chegou a 74%.

Os números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio enfrentado pelas escolas brasileiras e mostram que a discussão sobre qualidade da educação vai muito além de posições em rankings.

Ciências foi a única área com melhora

Apesar do cenário geral, o resultado brasileiro também apresenta alguns sinais positivos.

Na comparação com o Pisa 2022, o Brasil passou de 403 para 409 pontos em ciências. Foi a única das três áreas tradicionais em que o país apresentou crescimento entre as duas edições.

Por outro lado, houve pequenas quedas em leitura e matemática. Em leitura, a pontuação caiu de 410 para 408. Em matemática, passou de 379 para 377.

A resolução de problemas computacionais não pode ser comparada diretamente com 2022, porque essa competência não havia sido avaliada naquele ciclo.

Segundo o Inep, responsável pela aplicação do Pisa no Brasil, o país também apresenta uma trajetória de avanço quando se observa um período mais longo. Na comparação entre 2006 e 2025, o Brasil aparece entre os países que mais avançaram em proficiência nas três áreas tradicionais.

Isso significa que os números atuais precisam ser analisados dentro de um contexto mais amplo. O Brasil ainda enfrenta dificuldades importantes, mas também houve avanços em determinados indicadores ao longo das últimas duas décadas.

A desigualdade pesa no desempenho dos estudantes

Um dos aspectos que mais chamam atenção no resultado brasileiro é a diferença entre estudantes de diferentes condições socioeconômicas.

No Pisa 2025, os 25% de estudantes brasileiros com maior nível socioeconômico tiveram, em média, desempenho 96 pontos superior ao dos 25% mais desfavorecidos em ciências.

A diferença é maior do que a média registrada entre os países da OCDE, de 85 pontos.

Esse dado mostra que o desempenho educacional não depende apenas do ambiente escolar. Condições familiares, acesso a livros, internet, formação dos pais e outros fatores socioeconômicos também influenciam as oportunidades de aprendizagem.

Na prática, estudantes que vivem em contextos mais vulneráveis enfrentam obstáculos adicionais para alcançar os mesmos resultados daqueles que possuem melhores condições.

É justamente por isso que especialistas e gestores educacionais costumam defender políticas que combinem melhoria da qualidade do ensino com redução das desigualdades.

Tecnologia entra de vez na avaliação

Uma das novidades do Pisa 2025 foi a avaliação de competências relacionadas à resolução de problemas com ferramentas computacionais.

Nesse quesito, o Brasil marcou 406 pontos e ficou na 69ª posição entre os 91 participantes.

O resultado chama atenção porque a tecnologia passou a ocupar um espaço cada vez maior na vida dos estudantes, tanto dentro quanto fora das salas de aula.

Ao mesmo tempo, o próprio Pisa mostra que a relação dos jovens com ferramentas digitais está mudando rapidamente. No Brasil, quase metade dos estudantes de 15 anos, 48%, afirmou utilizar chatbots de inteligência artificial pelo menos uma vez por semana para aprender. O percentual é ligeiramente superior à média da OCDE, de 46%.

O dado reforça que o desafio da educação contemporânea não é simplesmente colocar tecnologia nas escolas, mas ensinar os estudantes a utilizá-la de maneira crítica, responsável e produtiva.

Quem lidera o ranking mundial?

Enquanto Brasil e outros países latino-americanos enfrentam dificuldades, os melhores resultados continuam concentrados principalmente no Leste Asiático.

China e Singapura aparecem entre os grandes destaques nas áreas de ciências, leitura e matemática. Quando a resolução de problemas computacionais também é considerada, Macau, Singapura, China e Japão aparecem entre os sistemas de maior desempenho.

Singapura, por exemplo, alcançou resultados muito superiores à média internacional, mantendo-se entre as referências mundiais em educação.

A liderança desses sistemas educacionais costuma ser associada a fatores como investimento, formação docente, cultura de aprendizagem, acompanhamento dos estudantes e políticas educacionais de longo prazo.

O que o resultado significa para o Brasil?

Mais do que uma posição em um ranking, o Pisa apresenta um retrato de como os estudantes brasileiros estão chegando à adolescência em termos de conhecimentos e habilidades fundamentais.

O resultado mostra que o Brasil ainda tem um longo caminho para reduzir a distância em relação aos países mais bem avaliados, inclusive dentro da própria América Latina.

Ao mesmo tempo, os números não devem ser interpretados como uma sentença definitiva sobre a qualidade da educação brasileira. Existem avanços, experiências positivas e milhares de professores e estudantes que enfrentam diariamente desafios para garantir aprendizagem.

O principal alerta está na necessidade de transformar os resultados em políticas capazes de melhorar a aprendizagem e diminuir as desigualdades.

Para o Brasil, o Pisa 2025 deixa uma mensagem clara: há avanços pontuais, mas o país ainda precisa acelerar o ritmo para que seus estudantes tenham condições de competir em igualdade de oportunidades com jovens de outros países.

A educação, afinal, não é apenas uma disputa por posições em um ranking. É um dos principais instrumentos para ampliar oportunidades, reduzir desigualdades e preparar uma nova geração para um mundo cada vez mais marcado pela tecnologia, pela informação e pela necessidade de pensamento crítico.