Os estudantes de 15 anos dos países mais desenvolvidos do mundo enfrentam um cenário preocupante na educação. Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025, divulgados nesta terça-feira (8) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apontam uma queda significativa no desempenho dos adolescentes em leitura, matemática e ciências.

Mais de 760 mil estudantes de 91 países e economias participaram da avaliação, que funciona como um dos principais instrumentos internacionais para analisar o nível de aprendizagem de jovens próximos ao fim da educação básica. Os números revelam que os países integrantes da OCDE registraram algumas das maiores perdas já observadas na série histórica do exame.

O cenário chama atenção especialmente porque a queda não está concentrada apenas em países com dificuldades econômicas. Pelo contrário: algumas das perdas mais expressivas ocorreram justamente entre estudantes de nações ricas, que tradicionalmente apresentam sistemas educacionais considerados referências internacionais.

Entre os fatores apontados por especialistas estão a redução do hábito de leitura, a dificuldade de manter a atenção, o aumento das distrações provocadas por dispositivos digitais, o desinteresse pelos conteúdos escolares e o uso inadequado da inteligência artificial.

Leitura é a área que mais preocupa

Entre as três áreas avaliadas pelo Pisa, a leitura apresentou uma das quedas mais expressivas.

Na média dos países da OCDE, a pontuação caiu 28 pontos na última década. Considerando o período entre 2018 e 2025, a redução foi de 25 pontos.

A dimensão dessa perda pode ser melhor compreendida quando se considera a referência utilizada na análise: uma diferença de aproximadamente 20 pontos corresponde, de maneira aproximada, a um ano de aprendizagem escolar.

Alguns países registraram quedas ainda maiores. Islândia e Eslovênia, por exemplo, apresentaram reduções superiores a 50 pontos em determinados recortes analisados.

O problema não está apenas relacionado à capacidade de compreender textos. Especialistas apontam que a relação dos jovens com a leitura também está mudando.

O crescimento do consumo de conteúdos digitais, mensagens curtas, vídeos e informações apresentadas de maneira rápida pode estar contribuindo para uma leitura menos cuidadosa.

O Pisa identificou crescimento da chamada “leitura apressada”, comportamento no qual estudantes percorrem textos rapidamente e acabam oferecendo respostas incorretas por não compreenderem adequadamente o conteúdo.

Entre 2018 e 2025, esse comportamento quase dobrou, chegando a 9%.

Matemática e ciências também apresentam recuo

A matemática também apresentou uma queda importante.

Nos países da OCDE, a pontuação média diminuiu 22 pontos na última década. Fora da organização, a redução foi de aproximadamente oito pontos.

Em ciências, a queda foi menor, mas ainda representa um sinal de alerta. Entre 2015 e 2025, a média dos países da OCDE recuou sete pontos, enquanto outras economias mantiveram desempenho relativamente estável.

Os resultados indicam, portanto, que o problema não está restrito a uma única disciplina.

A capacidade de interpretar informações, resolver problemas, compreender fenômenos científicos e aplicar conhecimentos em situações reais também está sendo afetada.

Segundo especialistas, isso exige uma reflexão mais ampla sobre a forma como os estudantes aprendem e sobre como as escolas estão lidando com as transformações provocadas pela tecnologia.

Jovens mais ricos também estão perdendo desempenho

Um dos aspectos mais surpreendentes do Pisa 2025 está relacionado ao perfil socioeconômico dos estudantes.

A queda mais significativa em leitura ocorreu justamente entre os jovens pertencentes ao grupo mais favorecido economicamente.

Entre 2018 e 2025, os estudantes do quarto superior da distribuição socioeconômica registraram perdas importantes no desempenho.

Esse movimento provocou uma redução na diferença de desempenho entre os alunos mais ricos e os mais pobres. Na média da OCDE, essa distância caiu de 88 para 77 pontos.

Entretanto, a redução da desigualdade não aconteceu porque os estudantes mais vulneráveis avançaram significativamente.

Na prática, o abismo diminuiu principalmente porque os alunos mais favorecidos também apresentaram uma piora em seu desempenho.

O dado preocupa porque mostra que a crise educacional pode estar alcançando diferentes grupos sociais.

Além da queda nas notas, alguns países também registram uma diminuição nas expectativas dos próprios estudantes. Em países como Noruega, Finlândia e Dinamarca, aproximadamente um em cada quatro adolescentes acredita que poderá alcançar um nível educacional inferior ao de seus pais.

Tédio e falta de interesse também entram na conta

A pandemia de Covid-19 teve impacto importante na educação mundial, principalmente por causa do fechamento das escolas e da interrupção das aulas presenciais.

Entretanto, os resultados do Pisa indicam que a deterioração do desempenho nos países ricos começou antes da pandemia.

Isso significa que o problema possui características estruturais.

Desde 2022, aumentou em diversas partes do mundo a parcela de estudantes que considera chato aprender novos assuntos. Na média da OCDE, esse grupo chegou a 16%.

Ao mesmo tempo, indicadores relacionados à curiosidade e à perseverança diante de tarefas difíceis apresentaram queda.

Outro dado preocupante é o aumento da ausência escolar. A proporção de estudantes que faltam dias inteiros de aula cresceu três pontos percentuais.

Para os especialistas, esses sinais mostram que a escola enfrenta um desafio que vai além do conteúdo curricular: recuperar a atenção e o interesse dos estudantes.

Celulares e tecnologia desafiam a concentração

A presença constante de dispositivos digitais também aparece como um dos fatores associados ao cenário educacional.

Na média dos países da OCDE, 28% dos estudantes disseram que seus colegas se distraem com celulares e outros dispositivos digitais na maioria ou em todas as aulas de ciências.

A tecnologia, naturalmente, não precisa ser vista apenas como um problema. Quando utilizada de maneira adequada, pode ampliar o acesso ao conhecimento e oferecer novas ferramentas de aprendizagem.

A questão está no uso excessivo e sem orientação.

O desafio se tornou ainda maior com a popularização da inteligência artificial generativa.

Inteligência artificial pode ajudar ou atrapalhar

O Pisa 2025 também oferece pistas sobre a relação entre estudantes e ferramentas de inteligência artificial.

Na média da OCDE, aproximadamente um em cada cinco alunos utiliza ferramentas de IA regularmente, quase diariamente, para atividades escolares.

Ao mesmo tempo, apenas 14% afirmam nunca ou quase nunca ter utilizado essas ferramentas para fins educacionais.

O problema aparece quando a tecnologia passa a substituir o esforço intelectual necessário para aprender.

Estudantes que utilizam chatbots com frequência para tarefas específicas, como resumir leituras, realizar pesquisas preliminares ou produzir redações, apresentaram, em média, desempenho 20 pontos inferior em ciências em comparação com aqueles que não utilizam essas ferramentas nessas situações.

A diferença equivale aproximadamente a um ano de escolaridade na métrica utilizada pelo Pisa.

No Canadá e na Nova Zelândia, estudantes que recorrem à inteligência artificial para escrever textos apresentaram diferenças ainda maiores em relação aos colegas que realizaram a tarefa por conta própria.

Especialistas alertam para o risco de uma espécie de “preguiça cognitiva”: quando o aluno deixa de desenvolver determinadas habilidades porque transfere para a máquina a responsabilidade de pensar, organizar ideias ou resolver problemas.

Por outro lado, o uso moderado da IA, especialmente como ferramenta de apoio à aprendizagem, apresenta resultados diferentes. Quando utilizada uma ou duas vezes por semana e com uma finalidade mais ampla de ajudar o estudante a aprender, a diferença de desempenho em relação aos não usuários praticamente desaparece.

Países ricos registram quedas expressivas

Entre 2022 e 2025, diversos países apresentaram quedas superiores a 20 pontos em leitura.

A Dinamarca perdeu 29 pontos, enquanto a Sérvia registrou queda de 26. Noruega caiu 24 pontos, Espanha 23, Croácia 22, Suécia e Hungria 21 pontos cada. Hong Kong e República Tcheca tiveram redução de 20 pontos.

Entre os maiores recuos no mesmo período estão Letônia, com 45 pontos de queda; Israel, com 38; Guatemala, com 37; e Malta, com 31 pontos.

Os números demonstram que a deterioração do desempenho educacional é um fenômeno internacional e não está restrita a uma região específica.

Mais dinheiro não significa automaticamente melhor educação

Outro dado interessante apresentado pelo Pisa 2025 envolve os investimentos em educação.

Existe uma relação positiva entre o gasto acumulado por estudante e o desempenho escolar até determinado ponto. Essa relação, entretanto, perde força depois que o investimento ultrapassa aproximadamente US$ 85 mil por aluno.

O caso de Luxemburgo é emblemático.

O país investe cerca de US$ 288.521 por estudante, o equivalente a aproximadamente R$ 1,5 milhão, considerando a conversão apresentada nos dados. Apesar do elevado investimento, seu desempenho médio em ciências ficou abaixo do registrado por países como Irlanda, França e Itália, que gastam consideravelmente menos por estudante.

O resultado reforça uma conclusão importante: aumentar recursos é fundamental, mas a maneira como esse dinheiro é administrado também exerce papel decisivo.

O desafio de educar na era da inteligência artificial

Os resultados do Pisa 2025 apresentam um alerta que ultrapassa as fronteiras das escolas.

Em uma sociedade cada vez mais dependente da tecnologia, saber ler profundamente, interpretar informações, avaliar evidências, resolver problemas e construir opiniões próprias se tornou ainda mais importante.

Paradoxalmente, justamente essas habilidades parecem estar perdendo força entre muitos jovens.

O grande desafio para os sistemas educacionais não será simplesmente impedir o uso da tecnologia ou da inteligência artificial. A questão será ensinar os estudantes a utilizá-las sem abrir mão da autonomia intelectual.

A escola do futuro precisará conviver com ferramentas capazes de produzir textos, responder perguntas, criar imagens e resolver problemas em poucos segundos. Mas, diante desse cenário, o papel do estudante não poderá ser reduzido ao de alguém que apenas recebe respostas prontas.

O Pisa 2025 mostra que o mundo está diante de uma mudança profunda na educação. Recuperar o prazer pela leitura, estimular a curiosidade, fortalecer a capacidade de concentração e ensinar o uso responsável da inteligência artificial serão tarefas fundamentais.

Mais do que preparar jovens para provas, o desafio será prepará-los para pensar.

E, em uma era na qual as máquinas conseguem responder cada vez mais perguntas, talvez a habilidade mais importante continue sendo justamente aquela que nenhuma tecnologia deveria substituir: a capacidade humana de questionar, interpretar e formar seu próprio julgamento.