Kiko Dinucci lança nesta quarta-feira (9) o álbum “Medusa”, seu terceiro trabalho solo de estúdio, em uma obra que mergulha profundamente na atmosfera urbana de São Paulo e combina canções de forte apelo melódico com guitarras, fitas, samplers e ruídos experimentais. Editado pelo selo Risco, o disco marca o retorno do artista à produção solo desde “Rastilho”, lançado em 2020, e apresenta uma faceta ainda mais radical de sua pesquisa musical.

Cantor, compositor e guitarrista, Dinucci é considerado um dos nomes fundamentais da cena independente paulistana do século XXI. Ao longo da carreira, construiu uma identidade artística marcada pela mistura entre samba, rock, música experimental, poesia e elementos de diferentes tradições sonoras. Em “Medusa”, essa característica aparece de maneira ainda mais evidente, transformando o álbum em uma espécie de caminhada sonora pelas ruas, pelos conflitos e pelas contradições da maior cidade brasileira.

A nona faixa do disco, “Como foi?”, é um dos exemplos mais interessantes dessa combinação. Composta por Dinucci em parceria com Romulo Fróes, a música nasce como uma bela balada sobre um coração partido. Sua estrutura melódica é acessível e envolvente, podendo remeter ao repertório de grandes compositores da música popular brasileira.

A canção, entretanto, ganha outra dimensão na interpretação de Dinucci. Na segunda metade da gravação, que se aproxima dos seis minutos, ruídos e intervenções sonoras invadem a estrutura originalmente delicada da música. O contraste entre a melodia e a experimentação reforça uma das principais características de “Medusa”: a capacidade de aproximar o familiar do estranho, o popular do experimental e a canção tradicional de uma linguagem sonora mais inquieta.

Essa escolha não parece ser apenas estética. Em “Medusa”, Dinucci constrói um ambiente em que os ruídos funcionam quase como personagens. Eles interrompem, atravessam e transformam as canções, criando uma sensação de movimento permanente. É como se o ouvinte estivesse caminhando pelas ruas de São Paulo, cercado por buzinas, conversas, motores, obras, passos e sons que se misturam sem pedir licença.

A relação com a cidade fica especialmente evidente em “Cão perdido”, faixa que abre o álbum. A música apresenta um personagem sem destino e sem tranquilidade, vagando pela chamada selva urbana. O tema foi gravado com a participação do guitarrista Lello Bezerra, responsável ao lado de Dinucci pela construção do arranjo e da produção musical.

São Paulo aparece não apenas como cenário, mas como parte da própria narrativa do álbum. Em “Segundo eterno”, por exemplo, Dinucci retoma a cadência do samba para apresentar uma composição criada originalmente para a trilha sonora da peça “Avenida Paulista”, encenada por Felipe Hirsch em 2025.

Apesar de dialogar com uma estrutura mais tradicional do samba, a faixa preserva a inquietação característica do compositor. Em determinado momento, Dinucci canta sobre “calçada” e sobre pessoas correndo em direção à morte. A imagem traduz uma cidade acelerada, na qual milhões de indivíduos compartilham os mesmos espaços, mas muitas vezes seguem caminhos completamente diferentes.

É justamente nessa tensão entre movimento e solidão que “Medusa” encontra parte de sua força.

O disco também reúne colaborações que ampliam ainda mais o universo experimental criado por Dinucci. Em “Claudia, Frota e eu”, parceria com Negro Leo, o samba recebe tratamento próximo ao noise, retomando uma atmosfera que já aparecia no primeiro álbum solo do artista, “Cortes curtos”, lançado em 2017.

Naquele trabalho, Dinucci apresentou uma estética de forte influência punk e experimental. Quase uma década depois, “Medusa” mostra que essa inquietação continua presente, mas agora aparece incorporada a uma pesquisa mais ampla, na qual diferentes linguagens convivem dentro das mesmas faixas.

Outra participação importante surge em “Água viva”, parceria de Dinucci com Sophia Chablau. A faixa conta ainda com a colaboração de Podeserdesligado, nome artístico da produtora musical carioca que vive em São Paulo e possui ligação com o universo da música experimental.

Podeserdesligado também participa de “Casca do olho”, ao lado de Gustavo Infante. A música mantém a estrutura do samba, mas a conduz para uma atmosfera mais industrial, com ecos do som da banda alemã Einstürzende Neubauten. O resultado reforça a capacidade do álbum de atravessar fronteiras entre gêneros sem abandonar completamente suas raízes.

A diversidade sonora continua em “Loira Palmer”, composição de forte teor erótico interpretada por Dinucci em parceria com Crystal Duarte, integrante da banda fluminense Vera Fisher Era Clubber. A música carrega uma atmosfera surrealista e cinematográfica, aproximando-se do universo dos filmes do cineasta norte-americano David Lynch, morto em 2025.

Essa referência ajuda a compreender a atmosfera de “Medusa”. O álbum não parece interessado em oferecer respostas fáceis. Pelo contrário, suas canções trabalham com imagens, sensações e contrastes, deixando espaços para que o ouvinte construa suas próprias interpretações.

A capa do disco também participa desse universo. A arte foi criada pela artista plástica Tatiana Blass, inspirada na música “Faca da palavra”. A escolha reforça a conexão entre música e artes visuais que atravessa o projeto.

Outro nome importante na construção do álbum é Juçara Marçal. Presença recorrente nas dez faixas de “Medusa”, a artista também esteve envolvida na direção do trabalho, acompanhando Dinucci no processo de produção.

A parceria entre os dois artistas não é uma novidade. Ambos fazem parte de uma cena musical paulistana que, há anos, vem explorando novas possibilidades para a canção brasileira. Ao lado de nomes como Rodrigo Campos e Romulo Fróes, Dinucci ajudou a consolidar uma geração que não vê contradição entre tradição e experimentação.

“Medusa” chega, portanto, como mais do que um novo álbum solo. O trabalho funciona como um retrato fragmentado de uma cidade igualmente fragmentada. São Paulo aparece em seus sons, em seus personagens, em sua velocidade e também em seus momentos de solidão.

Ao cruzar sambas, baladas, guitarras distorcidas, ruídos, samplers e referências cinematográficas, Kiko Dinucci reafirma uma trajetória construída longe das fórmulas convencionais. Em vez de escolher entre a canção e a experimentação, o artista prefere colocá-las frente a frente.

O resultado é um disco inquieto, urbano e cheio de personalidade. “Medusa” convida o ouvinte a atravessar uma São Paulo imaginária e, ao mesmo tempo, extremamente real: uma cidade onde a beleza pode surgir em meio ao barulho, onde uma balada de coração partido pode ser tomada por ruídos e onde o samba continua vivo mesmo quando encontra guitarras, máquinas e sons aparentemente desconexos.

É nessa mistura que Kiko Dinucci encontra sua própria linguagem. E é também nela que “Medusa” se apresenta como um dos trabalhos mais experimentais de sua trajetória solo.